Correlação não implica necessariamente causalidade

A correlação entre dois eventos não implica necessariamente uma relação de causalidade, ou seja, que um dos eventos tenha causado a ocorrência do outro.

A confusão entre a correlação e causalidade está na base de muitas concepções erradas. Daí que se torna imperativo falar sobre este assunto em maior profundidade. Os nossos cérebros são autênticas máquinas de reconhecimento de padrões, mas este processo está longe de ser perfeito, o que resulta na detecção de padrões que não existem de verdade.

A correlação, isto é, a ligação entre dois eventos, não implica necessariamente uma relação de causalidade, ou seja, que um dos eventos tenha causado a ocorrência do outro. A correlação pode no entanto indicar possíveis causas ou áreas para um estudo mais aprofundado, ou por outras palavras, a correlação pode ser uma pista.

A ideia oposta, de que correlação prova automaticamente causalidade, é uma falácia lógica denominada cum hoc ergo propter hoc” (do latim “com isto, logo por causa disto”). Obviamente, dois eventos que possuam de facto uma relação da causalidade deverão apresentar também uma correlação. O que constitui a falácia é o salto imediato para a conclusão de causalidade, sem que esta seja devidamente demonstrada.

Só porque (A) acontece juntamente com (B) não significa que (A) causa (B). Determinar se existe de facto uma relação de causalidade requer  investigação adicional pois podem acontecer cinco situações:

  1. (A) causa realmente (B);
  2. (B) pode ser a causa de (A);
  3. Um terceiro factor (C) pode ser causa tanto de (A) como de (B);
  4. Pode ser uma combinação das três situações anteriores. Por exemplo, (A) causa (B) e ao mesmo tempo (B) causa também (A);
  5. A correlação pode ser apenas uma coincidência, ou seja, os dois eventos não têm qualquer relação para além do facto de ocorrerem ao mesmo tempo. (Se estivermos a falar de um estudo científico, utilizar uma amostra grande ajuda a reduzir a probabilidade de coincidência).

Exemplo geral: “Quanto maiores são os pés de uma criança, maior a capacidade para resolver problemas de matemática. Portanto, ter pés grandes faz ter melhores notas a matemática”. Apesar de existir uma correlação, esta linha de pensamento comete uma falácia ao assumir de imediato que o tamanho dos pés é a causa primária, pois existem outros factores envolvidos que não são tidos em conta. O tamanho dos pés possui uma correlação positiva com muitas outras alterações no desenvolvimento. À medida que as crianças crescem, o mesmo acontece com os pés, assim como a sua capacidade de raciocínio, quantidade de conhecimentos adquiridos e muitas outras características. A idade é a verdadeira causa comum tanto do tamanho dos pés como da capacidade de resolver problemas de matemática.

Exemplo real: Vários estudos apontavam inicialmente que as mulheres em menopausa que recebiam terapia de substituição hormonal (TSH) tinham também um menor risco de doença coronária, o que levou à ideia de que a TSH conferia protecção contra a doença coronária. No entanto, estudos controlados e randomizados (mais rigorosos), feitos posteriormente, mostraram que a TSH causava na verdade um pequeno mas significativo aumento do risco de doença coronária. Uma reanálise dos estudos revelou que as mulheres que recebiam a TSH tinham também uma maior probabilidade de pertencer a uma classe socioeconómica superior, com melhor dieta e hábitos de exercício. A utilização da TSH e a baixa incidência de doença coronária não eram causa e efeito, mas o fruto de uma causa comum – os benefícios associados a um estatuto socioeconómico elevado. (Informação detalhada aqui)

Nos seguintes slides podem ver mais alguns exemplos de falácias do mesmo tipo.

Outra falácia semelhante, mas mais específica, é a post hoc ergo propter hoc” (do latim “depois disto, logo por causa disto”) ou simplesmente “post hoc”. Ao contrário da primeira falácia, aqui a sequência temporal dos eventos já é significativa. Baseia-se na ideia de que tendo o evento (B) sucedido ao evento (A), que o evento (A) deve ter causado o evento (B). Mais uma vez, o evento (A) pode realmente ter causado o evento (B), o que constitui a falácia é o salto imediato para a conclusão de causalidade baseando-se apenas na ordem dos eventos, em vez de se ter em conta outros factores que possam excluir a conexão observada. Esta falácia é especialmente importante na medida em que está na base de grande parte das crenças supersticiosas, ou ainda, da aceitação de algumas práticas terapêuticas de eficácia duvidosa.

autismo cectic

Exemplos gerais: “Eu tive uma constipação, por isso comi canja de galinha, duas semanas depois a constipação desapareceu. Portanto, a canja de galinha cura a constipação”. “Eu entrei com o pé direito na sala de aula, nesse dia o teste de matemática correu mesmo bem. Portanto, entrar como o pé direito na sala de aula antes dos testes dá sorte”. “Um Viking observa um eclipse solar. Acreditando que o Sol está a ser devorado por um lobo gigante, começa a gritar para o afugentar. Momentos depois o Sol regressa à normalidade. Acaba por concluir portanto, que gritar durante um eclipse faz o lobo cuspir o Sol de volta”. Em todos estes exemplos assume-se, de uma forma muito simplista, que uma acção (A) é o agente causador uma vez que ocorreu antes do efeito (B). Tanto a constipação como o eclipse acabariam por desaparecer independentemente da acção tomada. Já o teste pode ter corrido bem porque o aluno estudou afincadamente a matéria, não estava nervoso ou o teste era relativamente fácil.

Exemplo real: Em 1998 um médico britânico, Andrew Wakefield, publicou um estudo onde revelava uma correlação entre o autismo e a vacina anti-sarampo, parotidite e rubéola (VASPR). Seguiu-se uma onda de pânico que levou muitos pais a deixarem de vacinar os seus filhos e, como resultado, começaram a surgir novamente focos de sarampo um pouco por todo o mundo. O facto de o autismo ser normalmente diagnosticado depois da criança ter tomado a vacina VASPR, levou muitos pais a ficarem convencidos da veracidade da causalidade. Vários outros investigadores tentaram também confirmar a ligação, mas nenhum teve sucesso. O estudo de Wakefield acabou por se revelar nada mais do que uma fraude, tendo sido retraído pela revista onde foi publicado. Wakefield tinha recebido dinheiro para provar a ligação entre o autismo e a VASPR e preparava ainda uma vacina concorrente que apenas conseguiria vender se a confiança na VASPR fosse abalada. Apesar desta descoberta, o estrago já tinha sido feito. Por causa de uma fraude e de paranóias irracionais, muitas vidas foram e continuam a ser colocadas em risco. Wakefield mudou-se para os EUA, onde é suportado por celebridades e visto como um mártir do movimento anti-vacinação. (Mais informação sobre o caso Wakefield aqui)

É de notar que as confusões entre correlação e causalidade estão ainda muitas vezes ligadas a outros fenómenos como vieses de confirmação (a pessoa apenas se recorda dos eventos que confirmam a sua crença e ignora os contraditórios). E é preciso ter cuidado para não usar estas falácias como desculpa para não investigar uma determinada correlação.

Então como se determina a causalidade?

Depende sobretudo da complexidade do problema, mas a verdade é que a causalidade dificilmente poderá ser determinada com certeza absoluta. Daí que em ciência já está subentendido que não existem verdades absolutas e que todas as teorias estão abertas a revisão face a novas evidências. No entanto, muitos erros podem ser evitados se tivermos mais cuidado com as conclusões precipitadas. Utilizando o método científico é possível muitas vezes estabelecer uma relação de causa-efeito com uma segurança confortável. O que acaba por ter mais importância no final é a reprodutibilidade da relação causa-efeito e a possibilidade de fazer previsões correctas sobre eventos futuros (Mais pormenores aqui). A indústria do tabaco não pode continuar a alegar que a correlação entre o tabaco e o cancro do pulmão não implica necessariamente causalidade porque existe uma montanha de evidências científicas a favor da relação causa-efeito. Já o movimento anti-vacinação não possui quaisquer evidências credíveis que suportem a afirmação de que as vacinas causam autismo. É aí que reside a diferença fundamental.

8 Comments

  1. Boa tarde.

    Gostava de felicitar o(s) autore(s) pelo trabalho aqui desenvolvido. E queria apenas apontar uma pequena falha na escrita, que são as traduções literais do inglês, não sei se directas de outro texto, ou se já é o próprio autor que as “tem na cabeça”. Fica estranho e faz o texto perder um pouco de qualidade.

    Por exemplo:
    “Randomizadas”, em vez de aleatorizadas;
    “Suportado” – supported, em vez de apoiado;
    “artigo foi retraído” – retracted – provavelmente ele foi retractado.

    E ainda, noutro artigo sobre as falsas curas, que me levou a este, a “condição médica” – medical condition – que não tem esse sentido em português. E, já agora, não o vi aqui, mas vejo muito na comunidade científica: “standards e standardizadas ” em vez de padrões e padronizadas.

    De resto, continuação do bom trabalho!

    Cumprimentos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Procurar
Outros artigos
Daniel Dennett (1942-2024)
João L. Monteiro
Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2023
Comcept
Quando o marketing se apropria dos conceitos “Natural” e “Tecnológico”
João L. Monteiro