Como criar a vossa própria pseudociência

Bandolete quântica

A COMCEPT tem o prazer de apresentar em Portugal a mundialmente famosa Bandolete Quântica™. A Bandolete Quântica™ contém embutidos três hologramas quânticos de unobtainium revestido com mithril, que foram programados com frequências harmónicas que interagem magneticamente com o campo bioenergético natural do corpo humano. Os hologramas quânticos são produzidos através de uma tecnologia inovadora e patenteada designada por Alinhamento Fotónico Oscilatório®, que faz uso da emissão natural de infravermelhos do unobtainium de forma a gerar um campo sustentável de iões negativos em torno do cérebro humano. O campo de iões supercarregados estimula o aumento do fluxo sanguíneo, optimiza a distribuição de energia e promove o equilíbrio homeostático.

Simulação computorizada do campo de iões supercarregados

A manipulação dos campos bioenergéticos é um conceito milenar inicialmente desenvolvido pela medicina oriental, mas que só agora, com o desenvolvimento da nanotecnologia e da física quântica, começa a ser compreendido e utilizado pela medicina ocidental. Centenas de estudos científicos indicam que a maioria dos problemas de saúde e até o envelhecimento celular se devem a bloqueios nos canais energéticos do corpo humano. Estes canais são controlados pelo hipotálamo, uma estrutura existente no cérebro, sensível a uma frequência restrita de sinais iónicos que se situa nos 1.21 Gigawatts – a chamada NBFIW (Nonsensical Bullshit Frequency In Watts). A Bandolete Quântica™ normaliza a circulação dos electrólitos nos principais canais energéticos reestabelecendo assim o equilíbrio electrodinâmico fisiológico.

Vários estudos científicos indicam o claro benefício da Bandolete Quântica™

A Bandolete Quântica™ apresenta resultados imediatos no organismo, mas que vão depender do perfil bioenergético de cada indivíduo. A Bandolete Quântica™ pode ajudar, entre outras coisas, a:

  • Melhorar a flexibilidade, resistência e força muscular;
  • Manter o equilíbrio energético;
  • Melhorar o desempenho sexual;
  • Estimular o sistema imunológico;
  • Regular a oxigenação do cérebro e dos músculos;
  • Aumentar a capacidade de concentração e memorização (excelente para alunos universitários);
  • Eliminar por completo as dores reumáticas;
  • Reverter o envelhecimento;
  • Eliminar toxinas e celulite do organismo;
  • Prevenir a infecção por parasitas extraterrestres.

A Bandolete Quântica™ é utilizada por vários atletas de alta competição, cuja profissão exige a melhor condição física. Várias individualidades da alta sociedade revelaram também já não conseguir passar sem a sua Bandolete Quântica™, como é o caso de Lili Caneças que mostrou recentemente o seu apoio e satisfação por esta maravilha da tecnologia holística: “Usar a Bandolete Quântica™ é o contrário de não usar a Bandolete Quântica™. Por isso, eu uso a Bandolete Quântica™.

Testemunho real: “Funciona de verdade! Eu tenho 46 anos!”

Não confie noutros produtos concorrentes que utilizam apenas um ou dois hologramas feitos de materiais inferiores como o mylar. A Bandolete Quântica™ é o único produto no mercado que possui três hologramas quânticos, e o único que utiliza a tecnologia patenteada do Alinhamento Fotónico Oscilatório® para produzir uma liga de unobtainium/mithril de alta qualidade. A Bandolete Quântica™ não se encontra à venda nas lojas normais e apenas pode ser adquirida na COMCEPT. Este fantástico produto custa normalmente 120 euros mas pode ser adquirido por si nesta campanha de lançamento por apenas 59,99 euros. Não perca esta oportunidade única! Compre já e receba inteiramente grátis uma segunda Bandolete Quântica™ com um tratamento especial de adamantium para libertar as toxinas e radicais livres durante a noite enquanto dorme.

E então, estão dispostos a comprar uma bandolete quântica? Viram como é fácil inventar uma pseudociência? Nada do que eu disse faz qualquer sentido em termos científicos, é pura verborreia, mas aposto que era capaz de impressionar muitas pessoas por aí. Deixo aqui uma lista com dicas para criarem a vossa própria pseudociência. Não se esqueçam aqui do amigo quando ganharem o primeiro milhão…

  1. Certifiquem-se de que preenchem o único pré-requisito verdadeiramente necessário para ganhar milhões à custa do próximo: Psicopatia, isto é, a completa falta de compaixão e remorsos.
  2. Apelem a algo que a maioria das pessoas deseje ou receie, coisas como sexo e longevidade, ou sofrimento e morte.
  3. Façam grandes promessas em como possuem provas científicas de que podem aliviar qualquer doença física ou emocional, providenciar sexo fantástico ou ajudar as pessoas a viver centenas de anos sem envelhecer. Mostrem uns gráficos ou umas animações para dar um aspecto mais científico.
  4. Usem um monte de chavões e expressões de significado dúbio. Utilizem frequentemente palavras como: energia, quântico, magnetismo, equilíbrio, harmonia, alinhamento, vibrações, iões negativos, iões positivos, electrões, infravermelhos, iónico, fotónico, natural, milenar, bioenergético, etc… Sugiro que assistam ao technobabble do Star Trek para mais inspiração. Façam o produto soar enormemente complexo, mas protejam as vossas promessas com expressões vagas como “pode ajudar”.
  5. Para afastar os críticos que percebam verdadeiramente de ciência, ornamentem a vossa promoção com referências a conspirações do governo ou corporações maléficas que querem esconder a verdade do grande público. Certifiquem-se de que toda a gente se lembra de que “a ciência não sabe tudo” e que “a ciência já errou”. Usem a sempre popular ideia de que a teoria da relatividade refutou a física newtoniana, e que a primeira foi depois refutada pela física quântica, ainda que isso seja um completo disparate.
  6. Não tenham medo de inventar e mentir como um político. Mesmo que sejam processados por fraude, vão apenas ganhar montes de publicidade gratuita. As probabilidades de virem a ter de pagar uma grande multa ou mesmo ir parar à cadeira são praticamente nulas. Mas se tiverem mesmo de pagar uma multa, mudem o nome do vosso produto e recomecem de novo com alguns retoques aqui e acolá. Podem continuar a fazer isso indefinidamente, dado o tipo de coisas em que autoridades competentes se focam. E não se preocupem com a possibilidade de os média vos investigar e expor como fraude, eles não vos vão incomodar até terem sido presos. Mesmo assim, vão apenas relatar que foram acusados de um “alegado” crime, o qual vocês irão negar e virar a vosso favor jogando a carta de perseguição.
  7. Usem e abusem da estranheza da física quântica para dar credibilidade à vossa “ciência”. Digam que a física quântica prova que tudo é possível no Universo, ainda que esta apenas sirva para descrever os fenómenos que acontecem à escala de moléculas, átomos e partículas subatómicas. Declarem que de alguma forma a experiência do double-slit prova que é possível deixar de comer e viver apenas da luz do Sol, ou até mesmo realizar todos os desejos pedindo por favor ao Universo com pensamentos positivos.
  8. Não sejam barateiros. Cobrem uma quantidade exorbitante de dinheiro pelo vosso produto/serviço. Quanto mais cobrarem, mais provável é as pessoas pensarem que o vosso produto é genuíno, especialmente as entidades que vos deviam fiscalizar.
  9. Afirmem que descobriam um “segredo” que escapou a todos os outros cientistas na História e certifiquem-se de que mencionam o nome de Einstein. Se tiverem a audácia suficiente, digam que descobriram uma nova lei da natureza que assustou de tal maneira a comunidade científica que agora tenta silenciar-vos.
  10. Adornem os vossos anúncios publicitários com testemunhos de atletas e celebridades. Usufruam da publicidade gratuita nos média percorrendo todos os talk shows da manhã. Podem ainda fazer um spot publicitário dentro do próprio talk show com um dos apresentadores a enaltecer o vosso produto. As pessoas confiam mais em celebridades do que em cientistas, médicos e entidades governamentais. Usem esse facto para vosso proveito.
  11. Declarem que a razão pela qual o vosso trabalho não foi publicado em nenhuma revista científica com revisão de pares (peer-review), deve-se a uma gigantesca conspiração para vos silenciar, ou que o desenvolvimento do vosso produto tomou todo o vosso tempo e dinheiro. Em alternativa podem sempre criar a vossa própria revista com uma revisão de pares devidamente “imparcial”.
  12. É melhor fazer asserções que não podem ser refutadas, mas se por acaso afirmarem algo que pode ser testado também não é preocupante. Poucos dos potenciais clientes irão notar e mesmo assim não se vão importar. Quando os cientistas refutarem a vossa nova “ciência”, inventem hipóteses ad hoc para contestar os argumentos deles. Não sejam tímidos a invocar apelos especiais para o vosso produto, afirmem que este não pode ser testado pela ciência actual porque esta é redutora e limitada. Estudos controlados, randomizados e duplamente cegos não funcionam com a vossa “ciência” e é por isso que os resultados dão sempre negativos quando algum cientista metido a chico esperto decide testá-la.
  13. Digam que o vosso produto se baseia numa tecnologia esquecida de uma qualquer civilização antiga e que entretanto foi redescoberta por vocês. Ou afirmem que ainda existem pessoas a viver na Índia ou China em aldeias remotas que utilizam essa tecnologia milenar e que vivem durante centenas de anos sem qualquer necessidade da medicina ocidental. Podem mesmo dizer que os utilizadores mais experientes do vosso produto serão capazes de realizar feitos mágicos como voar ou pelo menos levitar.
  14. Não se preocupem com a falta de evidências científicas para o vosso produto/serviço, utilizem as dicas do ponto número 11. As pessoas estão mais interessadas em testemunhos do que em estudos científicos. Mais depressa confiam na história da prima da vizinha da tia, cuja dor de cabeça se curou milagrosamente esfregando um gato preto na cabeça enquanto saltava ao pé coxinho, do que nos conselhos de um cientista, que aos seus olhos é um arrogante que tem a mania que sabe tudo.
  15. Não tenham medo de utilizar truques de magia para enganar as pessoas, embora estes raramente sejam necessários porque a maioria não sabe que vocês estão a tirar proveito da sua ignorância do efeito placebo, efeito ideomotor, ou de como realizar um teste controlado e correcto da causalidade.
  16. A maioria das pessoas são egocêntricas, por isso afirmem que o vosso produto/serviço irá revelar tudo sobre quem elas são e o que lhes vai acontecer no futuro. Façam uso do efeito de Barnum, fazendo afirmações gerais o suficiente para que a maioria das pessoas se identifique nelas.
  17. Associem-se aos grandes cientistas do passado que foram perseguidos. Galileu é o favorito nesta categoria. Utilizem a falácia de Galileu para afirmar que os cientistas da actualidade são demasiado estúpidos para conseguir compreender a vossa fenomenal “ciência”. Em alternativa, podem esquecer o grande cientista e escolher outra referência igualmente irrelevante, como o supra-guru new age Deepak Chopra, ou até fuinhas carismáticos como o Andrew Wakefield e Kevin Trudeau.
  18. Se forem demasiado preguiçosos para criar a vossa própria pseudociência do nada, encontrem um modelo para copiar. Por exemplo, nunca ninguém faliu vendendo suplementos vitamínicos e antioxidantes. Assegurem que a vossa marca previne o cancro ao estimular o sistema imunitário e que vai aumentar o QI aumentando a circulação sanguínea no cérebro. Mas não se esqueçam de mencionar que o vosso produto é totalmente natural, produzido por agricultura biológica, seguro para as crianças (mesmo que não seja) e que demonstrou melhorar o desempenho escolar até 80%. Podem até dizer que o vosso produto ajuda a balançar o chi e a desenrolar o kundalini.
  19. A maioria das pessoas deixam-se impressionar por títulos e uniformes, por isso comprem um diploma na internet e arranjem uma bata de laboratório. Se forem mesmo sovinas podem sempre forjar o diploma no Photoshop e roubar uma bata do vosso hospital local.
  20. Nunca admitam a derrota quando as vossas afirmações forem refutadas numa demonstração pública. Digam que o estudo é parcial e feito por pessoas com outras motivações, ou que existe um problema menor que vão consertar assim que mais investidores colocarem dinheiro no vosso bolso.

(Lista de dicas adaptada de Creating Your Own Pseudoscience)


Marco Filipe

Licenciado em Genética e Biotecnologia e mestre em Biotecnologia para as Ciências da Saúde. É colaborador da COMCEPT desde o início e o repórter n.º1 da PetaNews – a melhor agência de jornalismo alternativo e complementar do Universo.

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