Eu acredito na mecânica quântica logo tenho a mente aberta!

De todos os insultos pessoais que os cepticos normalmente têm de levar em cima durante uma discussão, este é sem duvida o mais frequente. Por alguma razão que eu não compreendo, acusar uma pessoa de ter a mente fechada só porque não está de acordo connosco é considerado “fair play”. Não deixa de ser interessante notar como é dito com um certo tom de condescendência, intimidade, reprovação e simultaneamente de aviso amigável, como quem diz: “tens uma nódoa na camisa” ou “tens um bocado de bacalhau pendurado num dente”. Mas sempre como se fosse a coisa mais simples deste mundo: “É a mente fechada, pá. É o teu problema. Não estás a ver que é onde perdes toda a razão?”

Mas é a sociedade que dita as suas regras, e ninguém quer viver orgulhosamente só, por isso mais vale limpar a nódoa, tirar o fio de bacalhau do dente e abrir a mente. Será?

Só que, por mais que tente, o implícito apelo à popularidade não parece levar a lógica à frente. Nem pendurada num fio. Afinal temos de aceitar qualquer coisa como verdadeira só para ter a mente aberta? E os que se dizem ter a mente aberta, fazem isso? Não me parece. Parece-me antes que escolhem as coisas em que querem acreditar, pois poucas vezes conheci alguém que acredite em tudo.

Tal como eu faço, algumas escolhas fazem no modo de validar o que é conhecimento.  O que eu sugiro, é que tentemos acreditar ou não nas afirmações através do grau de confiança que lhes podemos depositar. E que lhes demos mais ou menos confiança conforme a força da justificação que tiverem.

Ter a mente fechada ou aberta dificilmente é uma justificação. É uma critica pessoal, e uma falácia na maioria das vezes – sempre que for apresentada como argumento.

A mente aberta é, sim, necessária. Não haja dúvidas disso. É preciso ter a mente aberta. Não para acreditar em tudo e mais alguma coisa, mas para aceitar para onde as evidencias nos levam. Essa é a verdadeira mente aberta. E é aqui que entra a mecânica quântica.

Quando me começaram a ensinar mecânica quântica no 12º ano, eu tinha a mente francamente fechada àquele tipo de… Teoria. Depois de apreender a física newtoniana nos anos anteriores, ser capaz de explicar como se dividem as células e de onde vêm os bebés, não havia maneira de me meterem aquilo na cabeça. “O quê? As partículas são o quê ao mesmo tempo? Estão em quantos sítios ao mesmo tempo? Actuam à distancia sem qualquer contacto ou mensageiro?” Não admira que Einstein não acreditasse nisso. Duh! Os físicos não sabem o que hão de dizer e agora vale tudo.

O físico Niels Bohr, um dos pioneiros da mecânica quântica
Fonte: http://www.ufmg.br/online/arquivos/Bohr.jpg

Só que aquela porcaria de teoria, já tinha à data da minha relutância em a aceitar, uma data de provas a seu favor. Parece que, por mais louca que seja a previsão que essa teoria faça, se alguém descobre uma maneira de a testar no laboratório, empiricamente, então tudo acontece como ela manda. As minhas últimas reservas desapareceram apenas após muita leitura e aprendizagem sobre o assunto. Mas desapareceram. A coisa começou logo a passar quando li sobre a experiência da fenda dupla com mais atenção. E, passado um tempo, passei a aceitar que as partículas não têm mesmo posição e velocidade definidas. Mas, no meu intimo, na minha vida intelecto-espiritual, confesso que cheguei a pensar: “eu nunca vou acreditar nisto…”.

Mas agora aceito com alegria a verdade de que há coisas que passam em vários caminhos ao mesmo tempo mas que nunca estão realmente em nenhum lado até que sejam obrigadas a isso, que são ambas onda e partícula e que não se importam com a distância entre elas caso haja emparelhamento. Adicionalmente, sabemos também que aquilo que elas fizeram no passado depende um bocado daquilo que as obrigamos a “decidirem-se” no presente.

Tanto quanto me é possível saber, a mecânica quântica é uma das teorias humanas mais bem fundamentadas de sempre. A par com a teoria da evolução e  das leis da termodinâmica. Mas é completamente louca! Einstein dizia em desespero acerca dela: “Deus não joga aos dados” ou “isso é acção fantasmagórica à distância”. Mas, ao que parece, Deus, a existir,  não só joga aos dados como faz uma data de outros truques formidáveis – mas previsíveis – para fazer as coisas funcionarem.

Por isso não me venham com histórias. Eu acredito nesta coisada toda. Não porque me parece intuitivamente verdade, porque me agrade ou porque respeito sequer a autoridade de Einstein (que só aqui trouxe para condimentar o post). Acredito porque existem imensas provas experimentais que suportam a descrição matemática que é a linguagem em que está escrita a mecânica quântica.

Agora de volta à mente aberta. Não me venham falar de mente aberta. Na maioria das vezes é uma falácia. Mas para quem confunda falácia com outra coisa, reparem uma coisa:  Eu acredito na mecânica quântica. Que mais querem como prova?

Por isso, amigos cépticos, quando vos acusarem a próxima vez de não ter a mente aberta, respondam simplesmente: “Nah! Eu até acredito na mecânica quântica, o problema são as coisas mal justificadas.” E se responderem: “Que é a mecânica quântica?”. Podem bem responder: “Ninguém tem bem a certeza, vê só o quão aberta é a  minha mente”.

PS: Se não acreditam na mecânica quântica, o vosso problema é que têm a mente demasiado fechada, abram as vossas mentes, pôça! Como é que se pode discutir seja o que for assim?

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