O naturalismo

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Fig. 1 – “Brown Lady”, publicada na revista “Country Life” em 1936 com uma estória a acompanhar. A melhor explicação para um borrão num negativo fotográfico é mesmo um fantasma? Ou podemos recorrer a factos conhecidos para o explicar?

O naturalismo é a característica científica que mais tem sido atacada ao longo dos séculos,  mesmo até aos dias de hoje. Embora essa discussão esteja relativamente afastada do meio estritamente académico (nas áreas cientificas), continua muito acesa no meio filosófico, social e político. De um modo geral, proponentes de teorias intestáveis e com recurso a alegadas entidades sobrenaturais, procuram integrar as suas afirmações no conhecimento científico, tendo para isso de descredibilizar o naturalismo. Dizem que querem uma ciência não naturalista. Mas a ciência tal como a conhecemos é completamente naturalista. Mais, não há ciência sem naturalismo, como procurarei mostrar adiante. Acabar com o naturalismo na ciência é acabar com a própria ciência (1).

O naturalismo é a tentativa de explicar os fenómenos e entidades naturais recorrendo apenas a fenómenos e entidades naturais (1, 2). É explicar o mundo físico, recorrendo a elementos desse mundo físico.

A maioria dos naturalistas, eu incluído, defende que não há aqui nenhuma exclusão “à priori” de entidades passíveis de serem conhecidas (3). Pois se for possível demonstrar que elas existem, então serão tão naturais como as outras. Naturalmente que, se for possível mostrar que são reais, então carecerão de explicação. Se não for possível mostrar que elas existem (ou que são inequivocamente suportadas com coisas que se podem mostrar que existem), elas não deverão servir para explicar nada.

Esta abordagem é extremamente coerente e consistente com os princípios de simplicidade (4) como a lâmina de occam (as entidades não devem ser replicadas para além do necessário) ou a simplicidade sintática (entre duas teorias igualmente capazes, a mais simples é a melhor). De facto, se podemos explicar um fenómeno sem recorrer a algo que não sabemos se existe, porque havemos de o fazer? E se precisarmos de postular uma nova entidade para explicar um fenómeno, como tantas vezes aconteceu na ciência (por exemplo o eletrão, teoria dos germes, etc.), porque a havemos de postular com características extraordinárias que não só não sabemos se existem como não fazem falta para explicar o que precisamos? Como dizer que além disto e aquilo ainda têm vontade própria, por exemplo..?

É também uma abordagem intimamente ligada ao princípio de Laplace (5), que diz que “afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”. Afinal, se postulamos uma entidade nova para explicar um qualquer fenómeno, temos de encontrar uma maneira paralela de mostrar que essa entidade existe no mundo natural. Temos de encontrar provas para ela. E quanto mais extraordinária for, mais provas teremos de encontrar. E extraordinária no sentido em quanto se destaque de tudo o que já sabemos existir.

O naturalismo, juntamente com o reducionismo (6), os princípios de simplicidade, o princípio de Laplace são alguns dos mais úteis princípios (e ferramentas) científicos. Naturalmente que existem outros, já que só por estes não seria possível escapar ao solipsismo (tipo Matrix (7) em que tudo é uma ilusão), só para dar um exemplo, mas estes parecem essenciais ao pensamento científico (e ajudam a mostrar a implausibilidade do solipsismo). Não só porque empiricamente os vemos em todo o processo científico, mas porque se os retirarmos da ciência, ela deixa de funcionar como é desejado.

Por exemplo, vamos imaginar que podemos em qualquer altura do processo de conhecimento científico postular uma entidade cujas características são tais que podem justificar o que nós quisermos. Em vez de precisarmos de ser parcimoniosos quer no número de entidades que postulamos quer na sua complexidade, podemos produzi-las sem receio em número e forma e com superpoderes variados. Porque deveríamos, nessa situação e num tal sistema de conhecimento, perder tempo a procurar uma explicação mais difícil de encontrar, mas mais simples, se podíamos não o fazer? E se aceitássemos, como muitos críticos do naturalismo sugerem, que há coisas que podemos explicar sem postular entidades extraordinárias, mas outras que não podemos – então onde é que desenhamos a linha? Quando é que desistimos de procurar a solução naturalista e aceitamos uma “sobrenaturalista” (8)? Quando não sabemos como explicar algo? Quando parece demasiado impossível? Já vimos que não devemos justificar nada com o que não sabemos e já vimos também que resultado isso dá.

Por um lado, a história mostrou que essa abordagem falha, pois leva a explicar a natureza com recurso a entidades tais que não permitem explicar para além delas próprias. Não se conseguem fazer previsões nem construir conhecimento acumulado. Por outro lado, apenas por uma abordagem “à priori” não parece ser possível determinar a existência de seja o que for, pois podemos mostrar que os conceitos até podem existir mas não que correspondem de facto a algo fora das nossas mentes. Mostrar isso requer uma ponte fenoménica algures, ou um caminho metafísico extremamente forte que ainda não foi conhecido. Tem sempre existido para este tipo de alegações uma refutação baseada na distinção entre mapa e território. Repetindo, quando existir uma maneira de mostrar que existe tal processo de obter conhecimento sobre a realidade para lá do que vai nas nossas mentes, é outro assunto.

Por isso, o limite do naturalismo, será, à priori, apenas naquilo que nós não podemos conhecer – estaremos limitados ao que é capaz de ter efeitos no mundo natural. Tais entidades – que não têm efeitos observáveis, direta ou indiretamente, podem existir. Mas não pertencerão, à priori, a qualquer explicação sobre os fenómenos observáveis (porque não têm efeitos). E uma entidade que causa efeitos cuja origem nós não possamos determinar  (e portanto chegar a ela própria) leva-nos por outro caminho à mesma conclusão: O que não podemos saber, não podemos saber  – é preciso evitar o argumento pela ignorância. É um limite do naturalismo mas também de todo o conhecimento. Se formos mais adiante e postularmos especificamente que há um efeito causado por uma entidade sobrenatural e que apenas não pode ser detetado pela abordagem naturalista, isso levanta outra vez a questão: Afinal como sabemos que tal entidade existe e não passa de um postulado hipotético? Como a distinguimos de todas as outras infinitas entidades que podemos postular mas que não existem? Como disse, o naturalismo tem limites. Um deles é explicar o que por definição dissemos que não poderíamos conhecer naturalisticamente.

De facto, a humanidade avançou imenso na compreensão do que a rodeia quando deixou de tentar explicar as coisas com fadas, duendes, demónios, etc. Mas não porque haja uma lista a dizer que esta ou aquela coisa não são por definição explicações científicas, mas porque não faz sentido recorrer a elas quando se encontra melhor. E que, para além disso, faz muito mais sentido procurar explicações mais simples, mais consistentes umas com as outra e coerentes. Isso permite começar a acumular conhecimento e a ter previsões bem sucedidas sobre o mundo. De tal modo que a capacidade de fazer previsões é uma das marcas da ciência. Talvez mesmo a mais importante e que dá pelo nome de falsificacionismo (9)(10), assenta na capacidade de testar previsões que impliquem a veracidade da teoria.

Se explicações mais simples, com maior poder preditivo e explanatório não são melhores, então é porque entendemos coisas diferentes em relação à palavra “melhores” .

Voltando ao naturalismo, falta explicar a popularidade das explicações sobrenaturais, para além de propor uma descrição funcional do que será algo sobrenatural. E uma que seja consistente e coerente com o que está escrito acima, assim como com toda a ciência.

Podemos referir-nos ao “sobrenatural” como a entidade ou fenómeno dotado de uma inteligência e intencionalidade não explicável pelo funcionamento das partes que o compõem. Ou seja, aquelas entidades capazes de planear e agir por vontade própria sem que se possa reduzir essa capacidade a nenhuma outra parte de si próprios (sistema nervoso nos animais). Parece ser esta peculiaridade que é referida, quer popularmente quer nos ditos estudantes do oculto, como sendo “sobrenatural”. E é essa que a ciência explica. Mas de outro modo. A explicação é esta:

Ao longo da evolução da humanidade foi mais seguro errar por atribuir agência ou intencionalidade onde ela não estava, do que errar por não atribuir intencionalidade (11). Ou seja, foi melhor fugir de um barulho que era apenas o vento e acabar vivo que não fugir de um barulho que afinal tinha “uma agenda a seguir” e acabar no estômago de um leão. Falsos negativos (ficar sem acreditar que existe um perigo) mataram mais que falsos positivos (fugir do trovão, do escuro, do vento, etc). Isso terá levado a selecionar os indivíduos com maior tendência a ver intencionalidade em tudo o que não poderiam compreender. Sabemos mesmo que existe um núcleo no córtex visual, que funciona mesmo nos cegos (não é apenas funcional recorrendo à vista), que serve apenas para identificar vida. Deverá ter sido selecionado para ajudar a procurar comida e para fugir de predadores. O disparo errado desse núcleo, um falso positivo portanto, especula-se justificadamente que tenha um papel no processo de haver tanta afinidade por explicações sobrenaturais.

Em conclusão, o sobrenatural é explicado pelos naturalistas como a atribuição de intencionalidade onde ela não existe e como explicação de algo que não se compreende. Cortar esta tendência ancestral mostrou-se extremamente fecundo para o desenvolvimento humano e, de facto, permitiu deixar de ter de estar sempre a fugir de predadores (não menosprezem esta vantagem!). Por outro lado, devemos procurar explicações simples, tão simples quanto possíveis, e não multiplicar as entidades para além do necessário. E quando tal acontece, temos de ter provas extraordinárias.

Um sistema cognitivo que aceite violar estes princípios pode ter muitos adeptos e defensores e, para lá da sua utilidade, há uma coisa que pode ser dita. Não é ciência. E a ciência, por natureza, nunca poderá não ser naturalista. Não porque haja uma “embirração” com determinadas fadas, ou gnomos, ou feiticeiros, repito que não há uma lista de coisas que a ciência tenha de fingir que não “vê”. A ciência é naturalista porque é assim a estrutura do seu funcionamento. Querer parte do sucesso científico e tentar por isso confundir-se com a ciência ao mesmo tempo que diz que ela não é aquilo que lhe deu esse sucesso, é desonesto ou ignorante.

Para finalizar, apenas a nota de que existem muitos que consideram grande parte destas considerações como sendo filosóficas e não científicas. No entanto, a maioria (todos?) dos naturalistas não vê uma distinção clara e definida entre ciência e filosofia (13) . Consideram que existe uma larga área comum que é território de ambas. Claro que cada um tende a puxar a brasa à sua sardinha, com os cientistas a dizerem que tal e tal é ciência e os filósofos a dizerem que é filosofia e que sem a filosofia não há ciência. Mas o que é verdade é que a distinção não é clara. No entanto, isto também é outra discussão e esta já vai longa.

  1. Ver : http://theness.com/neurologicablog/index.php/more-on-methodological-naturalism/ para uma optima discussão sobre este assunto pelo Steven Novella.
  2. Eu não distingo, por conveniência e por funcionalidade prática, entre naturalismo metodológico e metafisico e o resto do texto deverá apresentar suporte implícito para isso. Mas, resumidamente: É óbvio que a matéria e a energia não são tudo o que existe, basta nomear ondas de probabilidades ou o espaço-tempo (rejeito assim o materialismo ou naturalismo metafisico, mas aceito-o no aspeto em que natureza é tudo o que existe e que sabemos que existe, apenas não sabemos tudo o que ela tem). Por outro lado, carecem de provas inequívocas as alegações de forças ou seres sobrenaturais. Apenas existe a alegação de que existem e isso não é conhecimento. De qualquer modo, o argumento aqui presente nem é de que não existam esses seres. É de que aquilo que não existe, para todos os efeitos, não é objeto da ciência, nem deve passar a ser. E, se tem efeitos, então cabe demonstrá-los. Ver aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Naturalism_(philosophy)
  3. E, por conseguinte ,não reconhecemos o argumento de Alvim Platingra… Ver outra vez (1) por exemplo.
  4. http://astropt.org/blog/2011/03/26/simplicidade/
  5. http://astropt.org/blog/2011/04/07/50067/
  6. http://pt.wikipedia.org/wiki/Reducionismo
  7. http://www.imdb.com/title/tt0133093/ E que pílula escolheu o meu caro leitor?
  8. Mais sobre esta perspetiva: http://cronicadaciencia.blogspot.com/2009/09/materialismo-e-naturalismo.html
  9. http://duvida-metodica.blogspot.com/2009/05/verificabilidade-e-falsificabilidade.html
  10. http://duvida-metodica.blogspot.com/2009/05/as-teorias-cientificas-sao.html
  11. http://personal.lse.ac.uk/Kanazawa/pdfs/SPQ2010.pdf
  12. http://www.theness.com/neurologicablog/?p=768
  13. http://plato.stanford.edu/entries/simplicity/

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