Que medicina?

Um problema do doente será haver demasiada escolha e demasiada gente a dizer o que decidir. Fala-se em filosofias diferentes de funcionamento, mas isso é mais um pontapé na filosofia (que ultimamente parece servir para tudo e mais alguma coisa – com se não precisasse sequer de lógica) que um argumento.

O facto em causa é que existem atualmente várias práticas com objetivos terapêuticos que se apresentam no mercado como sendo a solução certa para o tratamento e cura dos mais diversos quadros clínicos. Mas não podem estar todos certos ao mesmo tempo. Alegam coisas diferentes sobre a biologia, a patofisiologia, a físico-química e claro, a terapêutica. Mas a última palavra sobre a verdade de tantas afirmações diferentes devia caber à natureza do nosso próprio organismo…

Experimentar e ver o que acontece é como perguntar diretamente ao corpo e à natureza o que é verdade e o que não é. Mas devido à complexidade do organismo, uma relação de causalidade, ao contrário do que o senso comum pode indicar, é difícil de estabelecer. Relatos individuais, mesmo bem documentados, não têm qualquer valor preditivo. Porquê? Por várias razões; por exemplo, a patologia em questão pode ter seguido apenas o seu curso normal e uma eventual melhoria ser erradamente atribuída a um determinado remédio. Isto porque uma boa parte das doenças são, felizmente, auto-limitantes, isto é, passam sozinhas. Ou imaginemos, pelo contrário, que o doente até piorou. Podia ser simplesmente alérgico ao remédio, um caso individual, e afastar do mercado um princípio ativo promissor. Não só os efeitos secundários como a resposta terapêutica têm uma variação individual que requer atenção. Não é sempre tudo ou nada. E depois, temos sempre de ter em conta o efeito placebo.

Com o placebo é feita a tentativa de imitar o ato terapêutico em tudo. Em tudo, exceto no fator que queremos saber se faz diferença ou não. Por exemplo, comprimidos só feitos de excipiente. Chama-se estudo cego se o paciente não sabe que o que está a tomar é só placebo e duplamente cego, se nem o terapeuta sabe se o que está a dar ao doente tem princípio ativo ou não. Resumindo, este tipo de estudos requer uma amostra estatística elevada, ou seja, muita gente, controlo com placebo, e claro, documentação rigorosa de tudo. É por isso dispendioso e demorado, já para não dizer que são precisos muitos estudos para avaliar toda uma nova área, por várias razões. É de esperar que alguns estudos se mostrem divergentes nas conclusões, mesmo se não têm falhas de rigor, conceção ou credibilidade. Depois, alguns estudos vão ter mesmo falhas de rigor, conceção e credibilidade (atualmente até é feita uma pesquisa aos interesses pessoais dos autores). Passa-se finalmente, por estas razões, aos meta-estudos, que são estudos baseados em outros estudos. Por tudo isto já vemos que fazer perguntas à natureza nesta matéria é complicado. É complicado perguntar e exigente compreender a resposta. Mas está a ser feito.

Entretanto o problema do doente, que consiste em querer o melhor para a sua saúde e não saber como escolher, persiste. A ideia deste texto, é propor como deve fazer para escolher. Mas sem impingir nada, explicando apenas porquê:

Qual a conclusão a que chegam a maior parte dos ensaios (que respeitam as características explicadas acima e publicadas em revistas com “peer-review”)? Em que sentido apontam? Pode e deve pesquisar os resultados destes estudos; claro que vai ler algumas afirmações contraditórias, mas a informação vai crescendo de dia para dia e sendo cada vez mais precisa. Mas também se pode queixar que não está acessível aos doentes (artigos que são pagos e restritos a determinadas profissões); que não estão escritos de forma acessível (destinam-se ao meio Médico-Farmacêutico); que demora muito tempo pesquisar (são já uma grande quantidade deles). Por isso o doente (ou potencial doente), não podendo ler todos os artigos, vai ter de ter um olhar crítico sobre tudo o que realmente leu, sejam artigos escritos por uma personalidade famosa no jornal ou de um anónimo na Internet. Porque se estiver doente, e tiver de ser tratado, pode ter de tomar uma decisão e ir a algum lado. Por isso o que é importante não é tanto pesquisar acerca do seu problema em concreto, já que para isso precisaria de um diagnóstico que não está habilitado a fazer, mas sim avaliar qual das alegadas medicinas é que funciona.  Naturalmente eu proponho que seja a medicina baseada na ciência. 

E ou presume que tudo o que existe disponível para ler é uma conspiração ou procura perceber para onde apontam as evidencias e provas conhecidas. 

Existem alguns pontos fulcrais, que penso podem ajudar a chegar às praticas e especialistas em que devemos colocar mais confiança. Coloquei sob a forma de 5 perguntas, os aspetos mais pertinentes, que apenas servem para aguçar o espírito crítico, concretamente:

1 – É uma prática regulada?

2 – Necessita da existência de novas entidades para explicar como funciona?

3 – Utiliza ainda outros conceitos que só existem dentro do seu próprio sistema de teorias?

4 – Baseia a sua afirmação de eficácia em testemunhos individuais ou em testes controlados com amostras estatisticamente válidas?

5 – Existem dados sobre o risco que pode representar para si submeter-se à sua prática? O que dizem?

A razão de ser de cada uma destas perguntas é:

1 –Existe uma entidade reguladora ou cada um faz como bem entende? Em existindo é um sinal de coerência interna e de segurança. Uma Ordem ou associação do género, regula o que é a boa prática e impede que qualquer pessoa se autoproclame competente ou especialista nesse ramo. É também uma organização a quem se pode queixar se alguma coisa correr mal.

2 – É a aplicação da Lei da Parcimónia ou Princípio de Occam. As entidades não devem ser multiplicadas para além do necessário. Ou, parafraseando, não deve ser preciso usar uma nova entidade ou pressuposto para o que puder ser explicado sem ele. (Exemplo de entidades em causa: as células, Ki; miasmas, etc.)

3 – É uma variante da aplicação do princípio anterior. Mas agora estou a referir-me à explicação de como funciona, ao mecanismo proposto de atuação no organismo e da explicação de como o organismo funciona. Não me estou a referir tanto a entidades mas sim a leis ou princípios de funcionamento. A maior parte das medicinas (se não mesmo todas) propõe uma explicação para o seu modo de funcionamento. Que integração é possível fazer dessas teorias específicas num quadro mais abrangente? É possível encaixa-la num “puzzle” racional de tudo o que se conhece, ou por outro lado pressupõe mecanismos só existentes nessa teoria específica ? (Exemplos: Memória da água; energias inteligentes, ciclo da ureia.)

4 – A razão de ser desta pergunta já foi referida, é incontornável. Mas há mais uma coisa que quero acrescentar. Os ensaios estão a ser feitos antes da declaração de eficácia ou a declaração de eficácia foi feita antes de haver estudos?

5 – Creio que a importância desta questão não precisa explicação. Agora, essa informação existe? É rigorosa e detalhada? Diversas fontes convergem na mesma informação e é fácil constatá-lo? Existem mecanismos de registo e processamento dessa informação (efeitos adversos, complicações) sempre a funcionar?

É a minha esperança que pensar sobre estas questões leve a melhores escolhas.

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