A “cura milagrosa” para a asma

Paciente a receber o tratamento das mãos de uma mulher da família Goud (Crédito: AP Photo/Mahesh Kumar A.)

Paciente a receber o tratamento das mãos de uma mulher da família Goud (Crédito: AP Photo/Mahesh Kumar A.)

A notícia:

No início deste mês, foi noticiado que uma família em Hyderabad, na Índia, andava a distribuir gratuitamente uma “cura milagrosa” para a asma. Esta iniciativa, que já é realizada pela família Goud há várias gerações, acolheu este ano cerca de 70.000 pessoas num estádio que não estava preparado para o efeito. Isto levou a que uma enchente de pessoas se reunisse desordenadamente no recinto, enquanto esperavam desesperadas durante horas pelo “tratamento” – no meio desta confusão, morreu um homem de ataque cardíaco e outros tiveram de ser assistidos por dificuldades respiratórias.

Sobre este “medicamento” apenas se sabe que é uma fórmula secreta que consiste numa mistura de peixe ainda vivo envolto numa pasta de ervas amarelas, receita que foi divulgada há 170 anos, por um santo Hindu, unicamente a esta família e, desde aí, transmitida aos seus membros ao longo de várias gerações. O mesmo “santo” alertou-os que a mistura nunca poderia ser comercializada correndo o risco de perder a sua potência, sendo essa a razão da distribuição gratuita junto da população. Como complemento a esta terapia é recomendada uma dieta estrita durante 45 dias. Este evento tem lugar anualmente no dia de Mrigishira Karthi, uma data móvel que é fixada anualmente por astrólogos.

Médicos e associações de saúde criticam o “tratamento”. Ranga Redy, da Indian Medical Association, afirma que a fórmula devia ser dada a conhecer para ser estudada, caso contrário o governo deveria retirar apoio ao evento. Também o Dr. Sumanth Mantri, do Hyderabad’s Apollo Hospital, é peremptório ao afirmar que

“Não há qualquer evidência clínica que prove que funcione… isto actua mais como uma cura psicológica do que clínica”.

Por outro lado, segundo noticia a BBC, a família Goud garante que se o tratamento for tomado durante pelo menos 7 anos elimina definitivamente a asma:

“Se todas as instruções forem cuidadosamente seguidas, garantimos uma cura de 100% para qualquer paciente, independentemente da gravidade da asma”.

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Pensamento crítico:

Depois de lermos a notícia apercebemo-nos que estamos perante um logro, mais um caso de distribuição de banha-da-cobra. E o padrão é sempre o mesmo: populações pobres e com défice educativo, logo como menos espírito crítico, estão mais predispostas a crendices.

Há várias pistas nesta história que nos alertam para a necessidade de uma interpretação crítica da notícia:

  1. O facto de o “medicamento” ser constituído por uma fórmula secreta que esta família se recusa a partilhar com médicos e cientistas, para que seja estudada. Se o produto fizesse mesmo efeito, a família só teria interesse em comprová-lo publicamente;
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  2. A família esclarece que a fórmula não pode ser partilhada, pois o “medicamento” pode correr o risco de perder “a potência”, isto é, deixar de fazer efeito. Podemos interpretar isto de duas maneiras, e ambas não fazem sentido nenhum:
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    • o “medicamento” perde a potência porque as pessoas passam a conhecer a sua constituição;
    • ao compreender a sua constituição, os médicos e cientistas podem alterá-lo, tornando-o, por exemplo num comprimido (algo mais agradável do que engolir peixes vivos envoltos numa mistura plantas desconhecidas). Ora se isso acontecer, o que tem lógica é ter um verdadeiro medicamento que faça efeito e não algo “sem potência”;
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  3. Quando se faz uma afirmação surpreendente, neste caso que têm um produto que “cura a asma”, o ónus da prova recai sobre quem faz a afirmação, ou seja, a família Goud. Por outras palavras, a família tem o dever de provar a veracidade do que afirma;
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  4. Para além do tratamento, é também receitada uma dieta. Mesmo que os pacientes sintam uma ligeira melhoria nos dias seguintes, não é possível esclarecer se tal se deve ao tratamento, à dieta ou a efeito placebo, embora as pessoas vão associar ao tratamento e propagandear que o mesmo faz efeito, atraindo cada vez mais gente. Estamos obviamente perante uma falácia: correlação não significa causalidade – falácia do tipo post hoc, ergo propter hoc (depois disso, logo por causa disso);
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  5. O facto da constituição da fórmula secreta do “medicamento” ter sido passada apenas a um membro da família há 170 anos, e depois partilhado aos seus descendentes ao longo das gerações, também levanta suspeitas quanto à veracidade de tudo isto. Ainda para mais, a receita foi dada a conhecer por alguém referido como “santo Hindu”, algo com mais laivos de misticismo do que de racionalismo. Importa perguntar se o tal “santo” só conheceu em toda a sua vida apenas aquela família, para ser ela a única detentora de um “medicamento milagroso”;
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  6. A data do evento é estabelecida por astrólogos. A astrologia não é uma ciência e, como tal, não explica, nem credibiliza o relatado;
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  7. A afirmação de garantia de uma cura de 100% para qualquer paciente que proceda ao tratamento durante pelo menos 7 anos. Aqui também vários pontos a considerar. Como o tratamento tem de ser realizado durante pelo menos 7 anos, podem verificar-se várias hipóteses:
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    • A asma tem tendência a passar naturalmente com a idade, por isso se o paciente melhorar, vai associar a cura ao tratamento, em vez de associar às defesas do organismo;
    • A probabilidade de alguém frequentar o tratamento 7 anos seguidos é mínima, portanto se não melhorarem, a família Goud pode sempre argumentar que tal foi devido a terem falhado um ano de tratamento;
    • Em populações pobres, a esperança média de vida é baixa, portanto podem morrer antes de terminar o tratamento, logo há menos relatos a testar a ineficácia do tratamento;
    • Se ao fim dos 7 anos as pessoas não melhorarem, a família Goud pode argumentar que são necessários mais anos, ou que as pessoas não cumpriram a dieta prescrita;
    • Tratamentos que prometem curas de 100%, geralmente são publicidade enganosa;

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  8. Atendendo ao que tenho vindo a mencionar, de modo a demonstrar a credibilidade desta história, quase que podemos resumir esta informação na seguinte equação matemática:
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    Fórmula secreta + produto que perde potência se a sua constituição for conhecida + recusa de estudos clínicos e científicos + afirmação sem provas + discurso falacioso + conhecimento detido apenas por 1 família + santo Hindu + astrologia = INFORMAÇÃO SEM CREDIBILIDADE

Caso para dizer: C. Q. D. (como queria demonstrar)

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Fontes:

Thousands swallow live fish hoping to cure asthma in India – Yahoo News Canada

Thousands of believers in India swallow live fish in hopes of relieving asthma – Yahoo News Canada

Indians flock for asthma cure – BBC

Difícil de engolir – peixes vivos medicinal na Índia – Mundial notícias

Indian believers swallow live fish as asthma cure – WTOP

2 Responstas a “A “cura milagrosa” para a asma

  • Meu caro Sr. João Monteiro o seu pensamento crítico enferma das seguintes falácias:
    – A Falsa Causa – O défice educativo não é a causa nem da notícia em si, nem do “tratamento” milagroso para a asma.
    – Incredulidade pessoal – Porque algo é difícil de entender ou não se sabe como funciona, então é provavelmente falso.
    – Falácia do argumento ad populum – O facto da maior parte das pessoas poder ter interesse em comprovar publicamente que o “medicamento” fizesse mesmo efeito, não quer dizer que a família Goud tivesse esse mesmo interesse.
    – Falácia da ambiguidade – Ao afirmar aquilo que está escrito em 4., não se esqueça que a família Goud aconselha uma dieta de 45 dias, não obriga ninguém a cumpri-la, pelo que tudo quanto diz a seguir é pura especulação, uma vez que não tem a certeza que a maioria das pessoas tivesse feito a dieta. Isto inclui a falácia do tipo post hoc, o que leva à
    – Falácia da falácia – Porque como o argumento está mal construído ou uma falácia foi cometida, então está necessariamente errado.
    – Falácia genética – O que afirma em 5 leva as pessoas a pensar que o seu julgamento tem como base a proveniência do “medicamento”.
    Para terminar, aquilo que chama de equação matemática não passa de uma pretensa proposição ou afirmação lógica. Para que uma entidade matemática seja considerada uma equação torna-se necessário a existência de uma ou mais incógnitas das quais se pretendem calcular o seu valor.

  • Caro Leonardo,

    Agradeço o seu comentário.

    Nota-se que conhece algumas falácias, mas creio que as aplicou erroneamente. Talvez porque não tenha entendido o que eu quis dizer.

    – RESPOSTA A: A Falsa Causa – Eu não disse que o défice educativo é a causa da notícia em si, ou do “tratamento” milagroso para a asma. O que eu disse é que o défice educativo leva a que as pessoas estejam menos preparadas com ferramentas de pensamento crítico, o que as propicia a serem mais facilmente alvo de crendices ou embustes. Reconheço que esta não é a única causa, mas uma delas.

    – RESPOSTA A: Incredulidade pessoal – Uns tipos afirmam ter um tratamento para a asma que consiste num peixe envolto em ervas. Perante isto, a comunidade médica quis estudar o composto, mas os detentores da “cura milagrosa” rejeitaram. Não somos nós que temos de provar que não funciona, mas quem faz a afirmação de cura é que tem de provar a eficácia, se não estaríamos a incorrer na inversão do ónus da prova. A verdade é que essa família se recusou a prestar provas. Lembre-se da frase de Carl Sagan, “Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”.

    – RESPOSTA A: – Falácia do argumento ad populum – pois, claro que não quer dizer isso. Neste ponto estou de acordo consigo, até porque isso está bem exposto no texto.

    – REPOSTA A: – Falácia da ambiguidade – Sim, em parte é verdade o que diz da dieta. Mas atente que essa dieta é receitada como complemento e não como alternativa, ou seja, a dieta faz parte do tratamento. Desse modo, se não for cumprida, pode-se considerar que o tratamento não foi levado até ao fim.

    – RESPOSTA A: – Falácia da falácia – Olhe que isto está mal aplicado.

    – RESPOSTA A: – Falácia genética – As pessoas são inteligentes para compreender que o meu julgamento tem como base todo o raciocínio que apresentei e não apenas um ponto. Ponto esse que questiona algo muito importante.
    O texto acima apresentado está bastante simples, acho que não preciso de esmiuçar mais as justificações, até porque considero que os leitores têm suficiente literacia para compreender o que está escrito. Não gosto de infantilizar as pessoas.

    Uma equação pode ser definida como uma afirmação que estabelece uma igualdade entre duas expressões matemáticas. Simbolicamente, foi isso que apresentei.
    Mas se quiser, em vez de equação matemática pode ler fórmula matemática, ou pode considerar que há ali várias incógnitas, a começar pela “fórmula secreta” 😉

    Agradeço o seu contributo.

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