Cepticismo e ateísmo

No passado sábado, dia 30 de Julho, um grupinho de 6 pessoas reuniu-se no Vox Café n’A Voz do Operário para a 4ª edição dos Cépticos com vox.

Como é costume neste tipo de encontro, a conversa nunca é só sobre o tema, nem este se esgota num único encontro. Talvez pelos interesses das pessoas presentes, a conversa andou mais em torno do ateísmo do que cepticismo, com algumas incursões no Humanismo, na ausência ou insuficiência de alternativas verdadeiramente seculares e humanistas no campo da educação e formação dos mais jovens e também em determinados momentos marcantes da vida humana e ainda sobre questões políticas e a situação de crise que a Europa atravessa (assunto quase incontornável em todos os encontros em que tenho participado).

Autoria: L. Abrantes

Neste post, no entanto, limitar-me-ei a descrever apenas a conversa em torno do assunto proposto inicialmente: Cepticismo e ateísmo.

Foi quase unânime a posição que ateísmo e cepticismo não são sinónimos ou inclusivos: Que um ateu não é necessariamente um céptico e que podem existir cépticos que sejam crentes, embora esta última possibilidade tenha gerado alguma surpresa. 

O cepticismo, tal como defendemos aqui na COMCEPT, é uma mais uma ferramenta que uma posição. É um exame crítico que deveria ser feito perante qualquer situação ou declaração. Como somos seres humanos e temos plena consciência do quão difícil é a posição do cepticismo em oposição à nossa tendência natural para assumir preconceitos, nem sempre pensamos criticamente sobre todos os assuntos. 

Uma avaliação crítica sobre um determinado assunto não é uma posição de negacionismo – uma distinção importante que foi, por mais de uma vez, vincada neste encontro. Existe uma diferença entre suspender um juízo até se reunir todos os elementos sobre um determinado assunto e a posição de negar categoricamente um determinado assunto só porque não acreditamos nos dados que são colocados à nossa frente. O melhor exemplo que explica esta diferença e que foi mencionado no encontro, prende-se com o negacionismo em torno do Aquecimento Global.

A posição do cepticismo não é, ao contrário da opinião vinculada por muitos críticos, manter a mente fechada a toda a novidade, mas sim de avaliação do conhecimento que possuímos e deixar abertura suficiente para que essa posição seja revista assim que houver mais dados.  Isto não impede que possamos estabelecer uma posição de refutação de um determinado campo, tendo em conta os dados que possuímos. No caso da homeopatia, por exemplo, possuímos dados suficientes para a podermos refutar. 

Se o cepticismo é uma ferramenta de análise de dados empíricos, o cepticismo não deverá tomar posições de assumir a não existência de deus ou deuses se estes são entendidos como elementos transcendentes, fora da realidade física e temporal humana. De outra maneira, a existência ou não de um deus transcendente não é uma questão pela qual possamos inferir qualquer juízo. O caso muda de figura, se falarmos de um deus que interfere na História.

Uma das questões que se colocou aquando da criação da COMCEPT seria se poderíamos incluir neste projecto o cepticismo religioso. E concluímos que nos casos onde a religião assuma a interferência divina no mundo – os milagres, aparições, curas por fé, enquanto vestígios materiais de uma intervenção divina – não estão isentos de uma análise crítica. Se a resposta for a intervenção de deus ou do sobrenatural como causa última, isso fica fora da nossa análise e limita-se ao campo da fé pessoal.

No final do encontro reforçou-se a ideia de que, mais do que o ateísmo, o pensamento crítico é talvez o fundamento para uma sociedade melhor. E aludiu-se à possibilidade de um percurso natural do cepticismo para um agnosticismo e mesmo ateísmo. 

O próximo encontro dos Cépticos com vox acontecerá no dia 21 de Julho às 16h no Café Vox n’A voz do Operário. Desta vez falaremos sobre Teorias da Conspiração.



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