A Última Entrevista de Carl Sagan

A 27 de Maio de 1996 foi gravada a última entrevista televisiva de Carl Sagan, a cargo de Charlie Rose para o canal público norte-americano PBS. No final desse ano, Carl Sagan faleceria vítima de pneumonia, com 62 anos.

Nesta entrevista, Sagan estava a promover o seu último livro, Um Mundo Infestado de Demónios – A ciência como uma luz na escuridão, que vivamente recomendamos.

É uma conversa pausada, lúcida e muito elucidativa sobre a sua forma de ver o mundo e o pensamento científico.

São 20 minutos que não serão com certeza uma perda de tempo, mas sim 20 minutos de lazer e conhecimento, raramente encontrados em conjunto, mas aos quais Sagan nos habituou.
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Alguns dos seus comentários são absolutamente actuais, embora já tenham passado mais de quinze anos…

“(…) Vivemos numa época que está baseada na ciência e tecnologia, com um poder tecnológico formidável, (…) e se não a entendermos (…) quem é que vai tomar as decisões acerca da ciência e tecnologia que determinarão o futuro dos nossos filhos?”

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Em relação ao perigo dos movimentos anti e pseudo-científicos, Carl Sagan diz:

“Há dois tipos de perigo. Um é que (…) desenvolvemos uma sociedade baseada na tecnologia e na qual ninguém percebe nada de ciência e tecnologia. Esta mistura combustível de ignorância e poder, mais cedo ou mais tarde, vai-nos explodir nas mãos. Quem dirige a ciência e tecnologia numa democracia se as pessoas não tiverem conhecimentos sobre a ciência e tecnologia?
O segundo motivo para a minha preocupação é que a ciência é mais que um corpo de conhecimentos, é um modo de pensar, é uma forma de examinarmos o Universo com cepticismo, com uma boa compreensão da falibilidade humana. Se não formos capazes de fazer perguntas cépticas, de interrogar aqueles que nos dizem que alo é verdadeiro, de duvidar da autoridade, então somos presa fácil para o próximo charlatão, político ou religioso, que apareça por aí.”

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Ainda sobre a ciência e a aparente falta de interesse e de conhecimentos por parte da população e o conflito com a religião:

“(…) O que distingue a ciência, primeiro que tudo, é que está à procura daquilo que o Universo realmente é, e não daquilo que nos faz sentir bem. E muitas das doutrinas em competição procuram aquilo que nos faz sentir bem e não aquilo que é verdadeiro. (…) A fé é a crença em algo sem evidências claras. (…) Para mim, acreditar em algo sem evidências, é um erro. A ideia [da ciência] é suspender a crença até que existam evidências claras. Se o Universo não obedece aos nossos desejos, então temos a obrigação de nos acomodarmos à realidade ao Universo. (…) A religião entra em apuros quando pretende ser ciência.”

“Quem é mais humilde: o cientista que olha para o Universo com uma mente aberta e aceita aquilo que o Universo tem para nos ensinar, ou alguém que diz ‘tudo o que está neste livro deve ser considerada a verdade literal e esqueçam a falibilidade dos humanos que o escreveram‘?”

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Outras questões abordadas nesta entrevista são, por exemplo, a discordância entre cientistas (como acontecia entre Carl Sagan e o psiquiatra Jonh Mack, no que dizia respeito aos OVNIs) e a arrogância (ou não) de negar a existência de “vida para além da morte”. A emoção humana tem muito a ver com estas temáticas e as evidências científicas são sempre aquilo que Sagan defende.
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Aqui fica o vídeo completo:

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[NOTA: As traduções são da responsabilidade da autora.]

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