A fraude da Grande Fraude

Foi publicada no Diário de Notícias mais um artigo de opinião de João César das Neves (JCN). Aqui não há qualquer novidade. Escreveu nesse artigo um conjunto de ideias pouco originais, repletas de preconceito religioso e inexactidões. Continua a não haver aqui qualquer novidade. A única novidade é eu estar disposto a falar do assunto. Porquê? Porque algum dia teria de ser e hoje parece-me ser um bom dia e porque o referido senhor passou das marcas.

JCN leu The Triumph of Christianity de Rodney Stark. Eu não li, só li o que JCN escreveu e o tema desta mensagem é essa mesma crónica, não o livro.

JCN achou no livro ideias que poderiam suportar algumas das suas convicções religiosas e não hesitou em partilhar com o mundo. E para isso, logo no início da sua crónica, utilizou um esquema básico de reforço de credibilidade, comum em pseudo-ciência e a muitos que pretendem dar visões simplistas e enviesadas de realidades complexas:

-faz menção ao nome de alguém – Rodney Stark – que dá credibilidade às suas afirmações e para isso selecciona passagens da sua obra que não podemos, sem ler o livro, avaliar se fazem algum sentido fora do contexto.

-refere os 40 anos de carreira de Rodney Stark para reforçar a ideia de que tem autoridade sobre o assunto. Sabemos, no entanto, que em ciência não existem autoridades, só especialistas e mesmos estes têm de ver os seus dados e teorias escrutinados pelos seus pares. Carlos Fiolhais e David Marçal, no recentemente publicado Pipocas com Telemóvel deixam isso bem claro.

Voltaire, como visto por JCN

(imagem de Voltaire retirada daqui, com imagem de Hitler retirada daqui)

JCN segue, num registo comum a este tipo de textos, descredibilizando as teorias históricas mais divulgadas, apelidando-as de mitos, fraudes (patente no título da crónica) e conspiração. Aliás, JCN não tem problemas em sugerir a existência de uma cabala historiográfica contra o cristianismo. Por isso JCN diz: “Muitos dos resultados são bem conhecidos dos especialistas, mas continuam desprezados nas visões populares, onde persistem velhos embustes.” Digo eu que, tirada do contexto, esta frase poderia ser aplicada a muito do que algumas igrejas organizadas promovem junto dos seus fieis. Ou, afinal de contas, será que JCN quer convencer os seus leitores de que os historiadores tiveram, ao longo dos séculos, uma acção maior e mais próxima da população do que as Igrejas organizadas? Na verdade o discurso de JCN é somente mais uma teoria da conspiração.

JCN decide então referir diversos exemplos desta conspiração historiográfica que conduziu a uma imagem errada do papel do cristianismo e, em especial, da Igreja organizada, na História europeia. Atrevo-me a dizer que é incompreensível como essa conspiração teve tanto sucesso quando, como JCN diz, “grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos”. Também não sei como medir esse sucesso, tendo em conta que as religiões cristãs são dominantes na Europa (certamente muito acima do número de ateus) e a Igreja Católica tem tanta preponderância em diversos níveis da nossa sociedade (por exemplo, na política).

JCN diz-nos uma grande novidade: “A Idade Média europeia não foi uma «idade das trevas»”. Anunciar como se fosse uma novidade só demonstra como JCN está arredado da investigação histórica. O termo “Idade das Trevas” só de forma esporádica subsiste nos meios académicos sérios. O próprio termo “Idade Média” tem uma conotação negativa. Foi criado no final da Idade Média e cimentado em Época Moderna, por pensadores que achavam que estavam a entrar numa fase de apogeu cultural e tecnológico que só tinha paralelos com a época Romana – daí chamar-se a esse período o Renascimento (aconselho a leitura de Le Goff [1] – A Idade Média explicada aos meus filhos onde este rebate a ideia de uma Idade Média enquanto época de trevas e também o seu oposto, uma Idade Média de luz e perfeição, que alguma historiografia tenta promover (ver outra referência de Le Goff [2], já não dirigida a crianças). A Idade Média era só o que estava no meio, um período de retrocesso ou, no mínimo, de estagnação. Poucos historiadores não reconhecerão ao período medieval, grandes desenvolvimentos a diversos níveis, por exemplo ao nível da arquitectura [3] (veja-se de quando datam as primeiras fases de construção de alguns dos nossos mais visitados monumentos arquitectónicos religiosos ou militares – a expressão The Age of the Cathedrals dirá algo a JCN?). Afastar a ideia de uma “idade das trevas” é tentar ser messiânico, hoje, com ideias velhas, ainda para mais, ideias bem cimentadas na investigação histórica. Não li o livro de Rodney Stark, mas custa-me a crer que ele refira o caso como uma novidade. Se o faz, JCN deveria ter aptidões para detectar a falha. Se não tem, não escreva sobre o assunto.

JCN segue com outro disparate: “a ausência de impérios eliminou a escravatura”. No seguimento do texto, JCN parece referir-se ao fim do Império Romano (se não é essa a intenção, deveria melhorar a sua escrita). Ausência de impérios? E o Sacro-Império Romano Germânico que perdurou durante toda a Idade Média? [4] A escravatura demorou muito mais tempo a ser eliminada na Europa. Aliás, conectar o fim do Império Romano e a ascensão do cristianismo com o fim da escravatura é um absurdo enorme, tendo em conta que o auge dessa prática verificou-se a partir do final da Idade Média, em especial desde a época do Renascimento, quando diversas potências europeias (as mesmas que perseguiam os não católicos) incrementaram o comércio e transporte de escravos a longa distância [5].

JCN diz que “as cruzadas não foram uma bárbara agressão colonial cristã contra muçulmanos inocentes.” Tal como em relação à Idade das trevas, esta ideia não é uma novidade na historiografia actual. É um mito tão grande quanto aquele segundo o qual, os cristãos foram libertar uma cidade – Jerusalém – que era sua por direito. Mas sobre esse mito JCN não escreve. Mas JCN continua e, sobre as cruzadas diz “Não só nasceram de séculos de tentativas islâmicas de colonizar o Ocidente, mas nelas os nobres arruinavam-se em busca da salvação eterna”. O uso do termo colonizar neste contexto não faz qualquer sentido e serve unicamente para tentar inverter uma suposta culpa. Afinal os muçulmanos é que eram os maus da fita. O termo “colonizar” não faz sentido, tal como toda esta argumentação não faz porque coloca tudo unicamente numa oposição cristãos-muçulmanos, quando a realidade terá sido bem mais complexa. Existiam nações e impérios e eram estes que combatiam entre si. Existia motivação religiosa? Sim, sem dúvida. Mas reduzir a questão unicamente a essa motivação é descurar a verdadeira complexidade do tema (sobre o assunto podem ver este texto [6], um entre muitos sobre o assunto.

JCN cita Rodney Stark: “A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa” (o sublinhado é meu). Apelidar a Inquisição de “bastante moderada” está para além do razoável!, diz muito acerca da obra que JCN leu e diz muito acerca de JCN que tanto gostou do que leu. Custa-me fazer outro tipo de comentário acerca do assunto.

JCN, em síntese quase final, diz: “Estas afirmações, e muitas outras, são demonstradas com apelo a números, factos e investigações sérias e comprovadas”. É o auge da tentativa de credibilização. Números, factos, seriedade, comprovação. Esquece JCN que os números e os factos se encontram dependentes, sempre, de uma análise e que a análise que ele, JCN, faz é truncada, à partida, pelos seus objectivos messiânicos. Aliás, JCN consegue mesmo conectar esta sua crónica com a sua cruzada contra a descriminalização do aborto, patente noutras crónicas que escreveu, o que demonstra bem como o autor desconhece por completo os preceitos de uma boa investigação histórica.

JCN, sabendo que a credibilização passa por não escamotear por completo a realidade, diz que “o livro não é uma obra de apologética, e estão bem presentes as misérias da Igreja na história”. Pois, mas essas misérias não lhe mereceram um artigo de opinião no DN…

JCN termina em grande, como só ele sabe fazer, com uma frase execrável onde consegue minimizar as acções de alguns dos mais mortíferos ditadores da nossa História recente: “é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.” Esta frase final pode ser verdade. JCN bem o sabe, por que manipular a mente é o que ele tenta nesta crónica, como em muitas outras crónicas que já escreveu. Dizer que Voltaire e Dawkins foi/é pior que Hitler e Mugabe é como dizer que JCN tem mais dotes de escrita que Saramago ou Jorge Amado. É um desrespeito muito grande pelas milhões de pessoas que morreram devido às acções e convicções dos líderes em questão (e já agora da inquisição) e é também uma tentativa gritante de branquear as acções, semelhantes às desses ditadores, que uma instituição em que JCN acredita fielmente cometeu ao longo de séculos. Uma tentativa de manipulação que não merece nenhum dos imensos argumentos que poderiam existir para contrapor a essa visão. Uma tentativa de manipulação que em tanto se assemelha ao revisionismo do holocausto. Estranho como tem JCN coragem de apelidar alguém de pseudocientista e acusar alguém de tentar veicular dogmas pessoais quando é isso que ele faz no seu artigo.

O que me irrita enquanto arqueólogo e historiador é ver as especificidades das ciências sociais serem utilizadas para servir conveniências, apelando ao relativismo decorrente de uma suposta falta de cientificidade das disciplinas que estudam o ser humano nas suas dimensões sociais e históricas para afirmar a igualdade de validade de todas as posições acerca de um tema. Já que JCN apela à autoridade de um cientista social para tentar disseminar as suas convicções pela sociedade portuguesa eu posso apelar à falta de autoridade de JCN enquanto crítico de uma obra sobre História suportando-me também no facto de ele claramente não perceber nada do assunto.

No one expects the Spanish inquisition! Mas podemos sempre contar com o JCN.

[1] Le Goff, J. (2007). A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir.

[2] Le Goff, J (1988). The Medieval Imagination. The University of Chicago Press.

[3] Duby, G. (1981). The Age of the Cathedrals: art and society 980-1420. The University of Chicago Press

[4] http://www.britannica.com/EBchecked/topic/269851/Holy-Roman-Empire/10194/Additional-Reading – desculpem esta referência à Enciclopédia Britânica, mas não julgo necessário procurar outra referência para uma questão tão óbvia.

[5] Esta afirmação quase nem precisa de referência. Existem muitas. Coloco aqui uma disponível on-line: Mendes, A. (2004). Portugal e o tráfico de escravos na primeira metade do século XVI. Africana Studia, 7, Faculdade de Letras da Universidade do Porto: 13-30.

[6] Latham, A. (2011). Theorizing the Crusades: Identity, Institutions, and Religious War in Medieval Latin Christendom. International Studies Quarterly, 55: 223–243.

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