Cepticismo na sala de aula

No sábado reunimo-nos em tertúlia para falarmos sobre o cepticismo e o pensamento crítico em contexto escolar. Pela primeira vez, fizemo-lo no Porto e a experiência será para repetir com regularidade.

A tarde de chuva passou sem darmos por ela, com os queques mornos a saírem do forno e o delicioso café de saco do Café Progresso, que nos acolheu…porque nem só de palavras vive uma tertúlia.

Como já é habitual, e com a “boa agravante” de este ser o primeiro Cépticos com Vox para muitos dos participantes, o tema não se esgotou e extravasou para muitos outros…desde a natureza da ciência, à nomenclatura das estrelas…até ao inevitável estado socio-económico do nosso país. O grupo à volta da mesa era bem heterogéneo, quer em área de formação, quer em profissão ou idade, o que em muito enriqueceu o debate.

Tentando centrar também este relato, aqui ficam algumas reflexões sobre a problemática da promoção do pensamento crítico no âmbito educativo português.

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" A dúvida..." (fotos de L. Abrantes)

” A dúvida é mal vista!” – J. P. Tereso (fotos de L. Abrantes)

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Todos estivemos de acordo que a promoção do pensamento crítico (e, consequentemente, do cepticismo) em contextos de aprendizagem, não se delimita às disciplinas científicas. O estímulo do pensamento crítico é transversal (ou deveria sê-lo) a todas as disciplinas.

Aliás, é precisamente o deficit que existe no ensino da Língua Portuguesa que leva, por exemplo, à incapacidade de interpretação de textos ou perguntas. Estas deficiências geram armadilhas que podem ser mais ou menos perigosas. Seria importante que todos os estudantes que terminassem o Ensino Secundário, qualquer que fosse a sua área de especialização, o fizessem com boas bases linguísticas e de matemática. Consideramos que ambas as ferramentas contribuiriam para uma cidadania mais activa e mais esclarecida.

No entanto, é certo que também debatemos o que se passa no ensino das disciplinas científicas e as dificuldades encontradas por quem quer promover algo mais que uma “simples” passagem de conhecimento. Neste âmbito, a presença de professores, foi uma mais-valia do debate, sobretudo para quem não intervém directamente no contexto educativo.

Seria importante que, no contexto do ensino e não só, a ciência não fosse apresentada como um conjunto de dados adquiridos, mas que os alunos tivessem também uma ideia de como funciona o processo científico: Como é que se acumula conhecimento? Como é que se alcançaram os conhecimentos actuais? Os conhecimentos que hoje detemos não são estáticos nem imutáveis!

O professor não “sabe-tudo”, a dúvida é desconfortável e implica insegurança, mas é também na dúvida que está a base do cepticismo, e é ela que interage e alimenta a curiosidade, fazendo o conhecimento avançar. Estas aparentes desvantagens podem ser convertidas em vantagens, por exemplo, ao integrar os estudantes no processo de descoberta e de procura de conhecimento. Por exemplo, recorrendo às novas tecnologias e a “módulos” online, pode-se depois fomentar a discussão na sala de aula. A investigação colaborativa entre alunos é uma das estratégias através das quais se pode despertar e fomentar o espírito crítico e inquiridor, “poupando” o escasso tempo lectivo. Por muito atractivas que sejam, nem sempre as actividades práticas cumprem estes objectivos se não forem bem integradas e acompanhadas de outras valências.

No ensino português o professor depara-se também com uma série de dificuldades, como a falta de tempo devido a um programa muito extenso; problemas com as metodologias mais comummente aplicadas (e consequente resistência por parte dos colegas); objectivos focalizados nas (boas) notas nos exames; o sistema de avaliação dos próprios alunos, professores e escolas; e grande instabilidade laboral.

Sabemos que o conhecimento é cumulativo e que o pensamento crítico nos posiciona no presente mas com uma perspectiva do passado e do futuro. Pensamos que as escolas existem para formar o futuro do país e não apenas para a produção em massa de diplomados.

Obrigada aos que compareceram e contribuíram com ideias, conhecimento e provocações. Até Março!

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