Sobre a evolução da banha de cobra

Este texto é da autoria de David Gorski, cirurgião oncologista no Instituto do Cancro Barbara Ann Karmanos, que escreve regularmente nos blogs Science Based Medicine e Respectful Insolence sobre o tema da pseudociência na medicina. O texto original pode ser encontrado aqui e foi traduzido e reproduzido na COMCEPT com a autorização do autor.

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Anúncio da banha de cobra. Crédito: emptysamurai

Anúncio da banha de cobra. Crédito: emptysamurai.

Era uma vez, uma época em que existia a banha de cobra [1]. Este era o termo utilizado para se referir a práticas médicas que não eram suportadas pelas evidências, sendo ineficazes e potencialmente prejudiciais. Os médicos entendiam que modalidades como a homeopatia, reflexologia e várias metodologias de “cura energética” (i.e., cura pela fé) eram baseadas em vitalismo pré-científico, pensamento mágico e/ou ciência, que na melhor das hipóteses, era incorrecta ou grosseiramente distorcida. Mais importante, eles não tinham medo de dizer isso.

Os promotores da banha de cobra não achavam isto bom.

Então, há algumas décadas atrás, os promotores da banha de cobra decidiram que nunca conseguiriam vender os seus produtos, fora de uma pequena minoria de pessoas, se eles permitissem que os praticantes da medicina baseada em evidências definissem a sua banha de cobra favorita como sendo… bem, banha de cobra. Como consequência, a banha de cobra de alguma forma se transformou em “medicina alternativa”. A medicina alternativa era (e, quando o termo é usado, ainda é) a medicina que não se encaixa no paradigma científico actual, um termo utilizado para descrever práticas médicas que não eram suportadas pelas evidências, sendo ineficazes e potencialmente prejudiciais, e que eram utilizadas em vez de terapias eficazes. Os médicos entendiam que modalidades como a homeopatia, reflexologia e várias metodologias de “cura energética” (i.e., cura pela fé) eram baseadas em vitalismo pré-científico, pensamento mágico e/ou ciência, que na melhor das hipóteses, era incorrecta ou grosseiramente distorcida. Mais importante, eles não tinham medo de dizer isso.

Os praticantes da medicina alternativa também não achavam isto bom.

É por isso que, em algum momento perdido nas brumas do tempo (na década de 1990), os praticantes de medicina alternativa (i.e., os promotores da banha de cobra) decidiram que nunca conseguiriam vender os seus produtos, fora de uma pequena minoria de pessoas, se eles próprios definissem os seus produtos como estando fora da corrente predominante da medicina chamando-os de alternativos. Assim nasceu a “medicina complementar e alternativa”, que tinha a abreviatura forte e agradável de “CAM”. A CAM foi (e ainda é) a medicina que não se encaixa no paradigma científico actual, incluindo tratamentos que não são suportados pelas evidências, sendo ineficazes e/ou potencialmente prejudiciais, e que são usados em adição à medicina real. Com o tempo, a mudança de nome teve o seu efeito pretendido. A maioria dos médicos deixou de ver automaticamente como banha de cobra, modalidades que antes eram consideradas banha de cobra, mais tarde consideradas “alternativas” e agora consideradas “CAM”. Modalidades como a homeopatia, reiki, vários métodos de cura energética e até reflexologia, deixaram de ser rejeitadas. De alguma forma, apesar de várias delas (especialmente a homeopatia e as várias modalidades de cura energética) violarem as leis conhecidas da física, exigindo que a nossa compreensão da física não esteja apenas errada, mas espectacularmente errada para que elas possam funcionar, os “metodoidolatristas”, pregando a “medicina baseada em evidências” e valorizando acima de tudo os ensaios controlados, duplamente cegos e randomizados, permitiram que o ruído e o ocasional falso positivo num ensaio clínico os convencessem de que poderia haver algo de valor nestas modalidades, mesmo quando a física, química e senso comum deveriam dizer-lhes que um tratamento (como a homeopatia) não pode funcionar. Além disso, usando a sua velha banha de cobra em adição (i.e., complementariamente) à medicina real, os praticantes da CAM neutralizaram (sobretudo) a maior queixa sobre a medicina alternativa, nomeadamente, a preocupação de que os pacientes pudessem renunciar terapias eficazes a fim de procurarem a medicina alternativa. O palco estava montado para a adopção generalizada da CAM pelas escolas médicas.

E os praticantes da CAM declaram que isto era de facto bom, mas não bom o suficiente.

É por isso que os praticantes da CAM, apesar de terem feito uma enorme incursão ao introduzir a medicina da banha de cobra nas escolas médicas e centros médicos académicos, reforçada pela influência do Centro Nacional para a Medicina Complementar e Alternativa (NCCAM) e do Colaborativo Bravewell, uma organização fundada por Christy Mack, esposa de um rico banqueiro de investimentos, com o propósito expresso de promover o estudo e o uso da CAM na medicina académica, decidiram que mesmo isto não era bom o suficiente. Um novo termo era necessário. Assim nasceu nos últimos anos um novo nome. Os praticantes da CAM (anteriormente praticantes de medicina alternativa, previamente promotores de banha de cobra) acertaram na designação perfeita para os seus tratamentos. É um termo tão amigo da comunicação social, aparentemente tão razoável, que é extraordinário que ninguém se tenha lembrado dele antes.

“Medicina integrativa”.

Sim, os praticantes da CAM já não se contentavam que a sua banha de cobra favorita fosse “complementar” à medicina real. Afinal de contas, “complementar” implicava uma posição subsidiária. A medicina era o bolo, e os seus produtos apenas a cobertura. Isso não era bom o suficiente. Eles desejavam respeito. Eles queriam ter um estatuto igual ao dos médicos e ao da medicina baseada na ciência e em evidências. O termo “medicina integrativa” (IM) serviu os seus propósitos na perfeição. Os seus tratamentos já não eram meramente “complementares”, eles estavam a integrar os seus tratamentos com os da medicina baseada na ciência e em evidências! A implicação disto, a implicação muito, muito intencional, era de que a medicina alternativa era igual à medicina baseada em evidências, uma parceira igual na “integração”.

E para os praticantes da IM, isto era de facto muito bom, tanto que eles já proclamam que a CAM está morta:

Nos últimos 25 anos, os terapeutas que integram na sua prática o melhor da medicina ocidental, oriental e outros modelos baseados em evidências, têm recebido uma série de títulos genéricos que descrevem o seu modelo de cuidados. Não há muito tempo, toda a medicina que não aderisse de perto a cuidados alopáticos [2] convencionais, era denominada de “alternativa”. Em seguida, há cerca de 15 anos atrás, o termo medicina complementar e alternativa (CAM) começou a infiltrar-se no vernáculo médico. O Centro Nacional para o Cancro e Medicina Alternativa (NCCAM) do NIH, tornou-se num centro de pleno direito em 1991. Embora a maioria dos hospitais não tenha introduzido os seus centros integrativos até uma década depois, o acrónimo “CAM” do NCCAM pegou, tendo uma influência sobre novas clínicas privadas e centros por todo o país.

Eu vou dizer uma coisa sobre quem escreveu isto, Glenn Sabin. Ele não sabe a história do NCCAM. O NCCAM nasceu de facto em 1991, excepto que não era um centro de pleno direito. Em vez disso, graças a Tom Harkin, um senador favorável à pseudociência [3], e a 2 milhões de dólares de financiamento à discrição, o NCCAM iniciou a sua vida como a Agência para a Medicina Não-Convencional, que foi logo rebaptizada de Agência para a Medicina Alternativa (OAM). Não foi até Outubro de 1998, que o NCCAM recebeu o seu nome actual e foi elevado a um centro completo. Maioritariamente, isto foi um grande “vai-te lixar” de Tom Harkin ao director do NIH [Institutos Nacionais de Saúde] na altura, Harold Varmus, que, respondendo a objecções da comunidade científica académica ao OAM, tomou medidas para colocar a OAM sob o controlo apertado do NIH. O resultado? Tom Harkin introduziu e passou legislação que elevou o OAM a um centro independente dentro do NIH. Pouco depois, as verbas dispararam para mais de 100 milhões de dólares por ano. O orçamento actual do NCCAM situa-se na faixa dos 125 milhões de dólares anuais.

É questão para perguntar no que mais se enganou Sabin.

Independentemente do que ele possa acertar ou errar numa base factual, Sabin revela efectivamente a mentalidade dos promotores de tratamentos não baseados em ciência no seguinte parágrafo:

Actualmente vários centros integrativos por todo o país ainda contêm as palavras CAM no seu nome. Isto é simultaneamente confuso para os consumidores e prejudicial para a marca desses centros. A maioria das clínicas e centros lançada na última década, evoluiu com a sua marca de forma a incluírem a terminologia actual mais apropriada de “medicina integrativa”, “serviços integrativos” ou “terapias integrativas”.

(O negrito não é meu).

Eu vou dar o crédito a Sabin. Quer ele se aperceba ou não, está basicamente a admitir que a motivação para a renomeação da CAM para IM, gira em torno da comercialização de banha de cobra. Sim, eu sei que ele nunca, jamais, admitiria que foi isso que acabou de fazer. Afinal de contas, ele borrifa deliberadamente o seu post com termos como “medicina integrativa baseada em evidências”, o que me faz perguntar a razão pela qual os aficionados da IM não renomearam a IM para “EBIM” [Medicina Integrativa Baseada em Evidências]. Talvez isso esteja para breve.

Mas eu prossigo.

Voltando ao assunto, constatei que o Sr. Sabin faz um trabalho maravilhoso de expressar a confusão no coração da chamada “medicina integrativa baseada em evidências”, quase certamente sem se aperceber de que o está a fazer. Vejam se conseguem descobrir o que eu quero dizer antes de o explicar:

A medicina alternativa é frequentemente impingida no lugar de cuidados convencionais comprovados. A medicina alternativa não possui uma base científica adequada por detrás e não é praticada em clínicas dentro de um ambiente académico. A medicina integrativa integra terapias comprovadas na medicina convencional. É verdade, nem todas as técnicas de redução de stress baseadas na atenção plena, como por exemplo o Reiki, possuem evidências sólidas por detrás, mas neste caso, muitos clínicos que oferecem serviços como o Reiki, fazem-no porque as suas observações clínicas dizem-lhes que isso ajuda muitos dos seus pacientes a relaxar e que pode reduzir a necessidade de certos medicamentos para as dores.

Então, deixem-me ver se entendi. A IM é melhor do que a “medicina alternativa” porque a medicina alternativa é “frequentemente impingida no lugar de cuidados convencionais comprovados”, enquanto por contraste (alegadamente), a IM “integra terapias comprovadas na medicina convencional”. De seguida, logo depois disso, Sabin admite que “nem todas” as técnicas de IM possuem evidências sólidas por detrás, mas que os clínicos usam-nas devido a observações anedóticas. Aqui vai uma dica: observações anedóticas não são a mesma coisa que ser “comprovado”. Longe disso! Observações anedóticas podem ser profundamente enganadoras, graças a fenómenos bem conhecidos que confundem as “observações clínicas”, como a regressão à média, viés de confirmação e resposta ao placebo. É por essa razão que os investigadores da medicina convencional há muito se aperceberam de que são necessários ensaios clínicos bem concebidos, de preferência randomizados e bem controlados, de forma a minimizar esses vieses e corrigir as respostas placebo. O Sr. Sabin surge como alguém profundamente confuso sobre a ciência, no sentido de que ele parece não entender que a vasta maioria das modalidades da “medicina alternativa”, que ele quer ver “integradas” com a medicina convencional, não estão “comprovadas” por qualquer extensão da imaginação. Você usa constantemente esse termo Sr. Sabin. “Baseado em evidências”. Eu não acho que isso signifique aquilo que você pensa que significa.

Não que isso impeça Sabin de proclamar, mesmo enquanto tenta deturpar a CAM como medicina “personalizada” quando é tudo menos isso:

A CAM está morta. A evolução da medicina integrativa personalizada, baseada em evidências, assim como a sua implementação em clínica, permanece.

Claro que a CAM está morta. Foram os próprios promotores da CAM que a mataram, porque se aperceberam de uma melhor oportunidade de comercialização, se conseguissem arranjar um termo que não tivesse a conotação de que os seus tratamentos são inferiores aos da medicina convencional. O assassinato da CAM foi deliberado e calculado, mas ainda não está completo. Em vez disso, está em progresso. Mas não se preocupem. Promotores como o Glenn Sabin irão certificar-se, assim que possível, que o corpo está bem e verdadeiramente morto, frio e enterrado. No seu lugar está a elevar-se o zombie que é a “medicina integrativa”.

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Notas:

O autor da tradução optou por conservar todas as siglas utilizadas no texto no inglês original, indicando em parêntesis rectos, sempre que necessário, o significado das mesmas em português.

[1] Traduzido de quackery, um termo depreciativo utilizado para descrever práticas médicas fraudulentas ou não suportadas pelas evidências (pseudocientíficas ou esotéricas). Tanto este termo, como o equivalente em português, não implicam que a prática seja necessariamente fraudulenta, pode ser simplesmente de eficácia e/ou segurança duvidosas.

[2] Alopático é um termo inventado pelo fundador da homeopatia, Samuel Hahnemann, utilizado actualmente pelos praticantes da medicina não-convencional para descrever a medicina convencional de bases científicas. Normalmente é utilizando como um termo pejorativo.

[3] Traduzido de woo, por vezes também woo-woo. Um termo derrogatório utilizado como sinónimo de pseudociência, aldrabice, sem sentido, irracional, etc.

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