Desinformação anti-vacinação na RTP: sim ou não?

Depois de uma peça do Telejornal no ano passado, a RTP volta a usar a táctica de tratar todas as opiniões como iguais, desta vez, no talk show Agora Nós. Dar a voz aos dois lados é uma prática frequente nos media, permite-lhes não só poupar no trabalho de investigar quem tem razão, como também, evitar acusações de parcialidade. Mas se parece óbvio a todos o disparate de promover debates como “Terra oca: sim ou não?” ou “Fomos à Lua: sim ou não?”, em assuntos de medicina esse bom senso parece falhar repetidamente. Possivelmente, não existe outro assunto tratado pelos media onde o relativismo pós-modernista, em que todas as opiniões são iguais e têm o mesmo valor, se faça sentir com tanta força. E talvez seja por isso que a RTP resolveu mais uma vez chamar um terapeuta não-convencional para falar de assuntos de medicina convencional e oferecer tempo de antena para promover a táctica preferida de qualquer negacionista da ciência – tentar passar a ideia de que existe uma controvérsia científica onde nenhuma existe.

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O naturopata convidado, João Beles, optou pela estratégia “eu não sou contra as vacinas mas… [inserir argumento anti-vacinação]”, ou seja, usou os mesmos argumentos falaciosos de qualquer activista anti-vacinação, mas a coberto de uma suposta aura de neutralidade. Ora vejamos.

Defesa e respeito pela escolha tomada pelos pais.

Na decisão que os adultos tomam sobre si próprios, sim, as decisões individuais devem ser respeitadas desde que não causem danos a terceiros. No caso das tomadas de decisão que podem colocar em perigo menores de idade, o caso é diferente. As crianças têm direitos que se sobrepõem às escolhas dos pais. É por isso que não devemos permitir que os pais maltratem os filhos ou que sejam negligenciados nos cuidados de saúde.

Numa tomada de decisão como vacinar ou não, há que ter em conta que nenhuma vacina é 100% eficaz e que se alguns decidirem não vacinar os seus filhos, colocam em risco a saúde de outras crianças que são demasiado novas para serem vacinadas e aquelas que, por motivos vários, não podem ser vacinadas.

Os pais devem ser informados das reacções adversas das vacinas

As pessoas devem estar informadas das reacções adversas das vacinas e devem também ter consciência das probabilidades dessas reacções e das consequências das doenças que as vacinas protegem. Mas devem ser devidamente informadas dos riscos reais e não dos riscos para os quais não existe fundamento. A chave é informação, não desinformação.

O sarampo não é uma doença grave

Um dos mitos mais frequentes nesta campanha de desinformação é que todas estas doenças preveníveis pelas vacinas não são graves. No programa da RTP ouviu-se esse mesmo argumento, usando-se como exemplo, o sarampo. O sarampo, tal como a pediatra convidada teve oportunidade de explicar, é uma doença com sérios riscos, alguns dos quais com possíveis consequências nefastas a longo prazo e em alguns casos pode levar à morte. É leviano e falso dizer que esta doença não deixa mazelas e que passa facilmente.

No surto de sarampo na Alemanha este passado mês, contam-se 727 casos e ¼ dos infectados necessitaram de tratamento hospitalar. Uma criança de 18 meses morreu. Não estava vacinada.

Existem vacinas que provocaram reacções adversas, logo todas as vacinas são suspeitas

Um dos grandes triunfos da campanha de desinformação é chamar a atenção para a reacção adversa grave que uma vacina específica provocou aquando da pandemia H1N1.  Este caso, ao contrário do que o movimento anti-vacinação pretende insinuar, prova até que mesmo não sendo perfeito, o sistema de vigilância de reacções adversas das vacinas funciona e que esta gravíssima reacção adversa foi detectada. É por isso que a conhecemos.

As vacinas não são eficazes

As vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. Não nos lembramos do que era passar semanas aflitos e desconfortáveis com estas doenças. Existe até uma geração que não teve a infelicidade de ter familiares na família que sofrem ainda as mazelas dessas doenças, ou que simplesmente já não se encontram entre nós. E se não nos lembramos ou não conhecemos é graças às vacinas.

À insistência da apresentadora para falar sobre as vacinas do Plano Nacional de Saúde, o naturopata convidado prefere navegar para águas mais seguras e insistir na pouca eficácia da vacina da gripe para, a partir dela, fazer generalizações abusivas. Não há qualquer indicação da especificidade do vírus da gripe e como a vacina é produzida, ou seja, não se menciona a dificuldade de prever qual a estirpe do vírus que irá circular entre a população num dado ano.

A ideia que as vacinas não são eficazes é facilmente refutada com os surtos de sarampo mais recentes e que estão relacionados com uma quebra das taxas de vacinação.

Os pais deveriam colocar na balança os estudos que confirmam uma ligação entre o autismo e as vacinas e todos os outros que a refutam.

Para que uma tal comparação seja possível é necessário que os pais saibam como avaliar a publicação científica. Deveriam estar informados dos diferentes tipos de estudos que podem ser feitos: estudos observacionais, estudos de caso, meta-análises, revisões sistemáticas, etc. Aprender também a identificar erros de metodologia, saber identificar possíveis armadilhas estatísticas e a não confundir correlação com causalidade. Saber também identificar possíveis viéses e a recusar argumentos de autoridade. Aprender que um único estudo não prova nada é também um passo importante e que o conhecimento científico se faz através da acumulação de vários dados. Deveriam também ter algumas noções de fisiologia e patologias, de química e de epidemiologia. Deveriam ter alguma noção sobre o que estão a tentar ler e não ficar pela leitura do primeiro estudo que confirma a sua opinião. Enfim, deveriam ter uma formação médica ou pelo menos científica, mas esse obviamente não é caso da maior parte da população. Não será então para isso que servem os médicos? Mesmo que, como em todas as profissões, possam existir algumas maçãs podres?

Alguns dos estudos que refutam a relação causal entre vacinas e autismo:

Vaccines for measles, mumps and rubella in children – Uma meta-análise de 31 estudos publicados que examinaram a possibilidade de uma relação entre a vacina tríplice e várias condições incluindo autismo conclui que é improvável essa relação.

Lack of association between measles-mumps-rubella vaccination and autism in children: a case-control study – O estudo de caso fornece provas contra a associação do autismo com a vacina tríplice (MMR/VASPR) ou vacina contra o sarampo, rubéola e papeira.

Autism and measles, mumps, and rubella vaccine: no epidemiological evidence for a causal association – A análise não suporta uma associação causal entre a vacina tríplice e o autismo. Se uma tal associação ocorre, é tão rara que não foi possível identificar nesta amostra regional.

Immunization Safety Review: Vaccines and Autism – O comité conclui que o corpo de evidência epidemológica rejeita uma relação causal entre a vacina triplice e o autismo. O comité concluiu também que o corpo de evidência epidemológica favorece a rejeição de uma relação causal entre vacinas que contenham o timerosal e autismo.

A population-based study of measles, mumps, and rubella vaccination and autism – Estudo na Dinamarca com 537,303 crianças conclui que esta análise fornece fortes provas contra a hipótese que a vacina tríplice causa autismo.

MMR-vaccine and regression in autism spectrum disorders: negative results presented from Japan – Estudo feito no Japão. Durante o período do uso da vacina tríplice não foi encontrada diferença significativa na incidência de regressão entre crianças vacinadas com a vacina triplíce e crianças não vacinadas. Entre a proporção e incidência de regressão durante os períodos (antes, durante e após a vacina tríplice) não foi detectada diferença significativa entre aqueles que receberam a vacina e aqueles que não receberam.

A história do recente (pós anos 90) movimento anti-vacinação também é paradigmático da campanha contra as vacinas. Identificam-se substâncias nas vacinas às quais são atribuídas todo o tipo de efeitos secundários. Mas conforme essas alegações vão sendo refutadas pela investigação científica, altera-se o discurso. Muda-se a crítica para o modo de administração – demasiadas vacinas, demasiado cedo (too many, too soon), um argumento já utilizado por um médico-homeopata e também na RTP. Ao mesmo tempo, ignoram-se ou não são tomadas em conta, as investigações sobre as verdadeiras causas das Perturbações do Espectro do Autismo.

Imensos casos nos tribunais norte-americanos e na Itália demonstram que esta relação entre vacinas e autismo é real.

Uma decisão judicial não é uma avaliação científica. Num país onde qualquer pretexto serve para obter uma compensação monetária, faz sentido que exista um “tribunal de vacinas”. O grau de litígio para obter compensações chegou a tal ponto que se quase se tornou inviável a produção de vacinas.  O tribunal das vacinas nos Estados Unidos aceita qualquer alegação de dano desde que apresente uma relação temporal entre uma vacina e um determinado dano. Existe uma tabela de eventos médicos que presumivelmente são efeitos secundários das vacinas enquanto não for encontrada outra causa. A queixa é reembolsada de acordo com uma fórmula. Não é feita qualquer análise científica aos casos, trata-se de uma decisão judicial.

Aumento das estatísticas dos casos de autismo

A designação actual é Perturbações do Espectro do Autismo. O aumento do número de casos está, como indicado na peça, ligado a uma melhoria no diagnóstico médico. Existe não só um alargamento do critério de diagnóstico, como também uma maior aceitação do diagnóstico por parte dos pais e educadores.

De qualquer maneira, atribuir a causa das Perturbações do Espectro do Autismo às vacinas parece ser um bom exemplo de confusão entre correlação e causalidade.

A venda de alimentos biológicos é a verdadeira causa do aumento de casos de autismo? Correlação nem sempre implica causalidade

Participar num debate que envolva negacionismo de ciência é algo que só por si é de valor incerto. Este é um formato que torna bastante difícil, para quem assiste, discernir se um dos lados está propagar desinformação. Não se interrompe um debate para verificar se um estudo científico é de qualidade e diz realmente aquilo que foi transmitido, e mesmo que tal acontecesse, quantas pessoas no público terão a literacia científica necessária para o avaliar? O público acaba por avaliar apenas quem fala mais alto ou com mais confiança. E é por isso que participar num debate destes sem se familiarizar com os argumentos comuns, pode ser muito mais prejudicial do que não participar de todo. Infelizmente, a Dra. Paula Nunes parece ter cometido o erro de achar que a sua experiência médica era tudo quanto bastava para participar e sua defesa das vacinas ficou por isso muito aquém daquilo que seria desejado.

Uma boa parte dos profissionais de saúde congratula-se por Portugal apresentar excelentes taxas de vacinação. E é verdade, para aqueles que têm boa memória ou idade suficiente ou saibam consultar os dados históricos, que Portugal assistiu a um esforço de erradicação de doenças e quebra da mortalidade infantil só possível graças à instituição do Serviço Nacional de Saúde e consequente Plano Nacional de Vacinação. No entanto, não é claro até que ponto esta situação manter-se-á. Os sinais começam a ser preocupantes. E para agravar a situação, a RTP continua a confundir o balanço entre opiniões com balanço entre informação e desinformação. Será isto serviço público?

 

[Texto escrito em colaboração com Marco Filipe]

7 Responstas a “Desinformação anti-vacinação na RTP: sim ou não?

  • Excelente resumo do panorama actual. Cada vez mais os profissionais confrontam-se com um público mais exigente e “informado/desinformado”,o que impele a que haja uma maior preparação para o esclarecimento e sensibilização nesta área. Obrigado.

  • Óptima crítica: informativa e informada. Leonor, muito obrigado por mais este serviço público. A divulgar amplamente!

  • Parabéns pelo excelente artigo!
    Bastantate esclarecedor para o público em geral e com ferramentas para melhorar o trabalho dos técnicos na área da vacinação.

  • Obrigada a todos!

  • O assunto tratado neste post apesar de ter um título diferente do assunto tratado neste outro (http://comcept.org/2013/09/19/vacinas-mercurio-e-autismo/) está intimamente relacionado com ele pois que também trata da temática das vacinas.
    Na troca de impressões que se seguiu ao post em link e graças aos escritos da Leonor Abrantes, Basilista e Pedro, acho que ficou tudo dito, devidamente explicado e esclarecido acerca da problemática das vacinas e dos assuntos que lhe são adjacentes bem assim como das opiniões em confronto quer sejam científicas dominantes, científicas, assim assim, ou não científicas.
    Qual não é o meu espanto quando ao ler o actual post verifico que, à semelhança do que aconteceu neste (http://comcept.org/2014/07/01/vacinas-o-falso-balanco-na-rtp1/), se faz novamente a apologia descarada de que neste tipo de debates televisivos só deveriam ter lugar os defensores da opinião científica dominante (opinião especializada), pois que as outras opiniões, mesmo quando emitidas por cientistas, são opiniões de segunda, cuja validade cientifica é praticamente nula.
    Para sustentar aquilo que é afirmado, a autora do post, Leonor Abrantes, envia-nos para o site (http://thefederalist.com/2014/01/17/the-death-of-expertise/) onde nos aparece um artigo da autoria do Sr. Tom Nichols, um famosíssimo cientista de áreas que nem ciência são e com um currículo de 9 páginas (http://tomnichols.net/files/Tom%20Nichols%20CV%202014.pdf), cuja opinião é a de que quando um especialista fala está tudo dito porque o peso deste tipo de opinião é superior às de quaisquer outras pessoas.
    Atenção Leonor, porque quando se envereda por este tipo de atitude fundamentalista podemos, sem dar conta disso, estar a cair naquilo que normalmente vocês acusam os outros de fazer, ou seja, cair na falácia Nº 15 (apelo à autoridade ou argumento ad verecundiam) desta lista de falácias que me foi indicada por si.
    (http://comcept.org/2012/05/25/nao-cometeras-uma-falacia-logica/)
    Com os melhores cumprimentos.

    • Caro Leonardo,

      “Qual não é o meu espanto quando ao ler o actual post verifico que, à semelhança do que aconteceu neste (http://comcept.org/2014/07/01/vacinas-o-falso-balanco-na-rtp1/), se faz novamente a apologia descarada de que neste tipo de debates televisivos só deveriam ter lugar os defensores da opinião científica dominante (opinião especializada), pois que as outras opiniões, mesmo quando emitidas por cientistas, são opiniões de segunda, cuja validade cientifica é praticamente nula.”

      Aconselho-o a voltar a ler os artigos em questão. E a ter algum cuidado com afirmações de absoluto para não criar outra falácia que está também patente na lista que cita.

      Para reiterar aquilo que foi escrito, nos dois artigos em questão, a RTP utiliza o falso balanço – ou seja atribui a ambos os lados um mesmo peso quando não são equiparados factualmente. A posição anti-vacinas não tem fundamento de facto ao contrário da posição dos profissionais de saúde que advogam o uso das vacinas. Considerar que são opiniões equiparadas é normal tratando-se de opiniões. Mas não estamos a falar de opiniões, estamos a falar de factos.

      “Para sustentar aquilo que é afirmado, a autora do post, Leonor Abrantes, envia-nos para o site (http://thefederalist.com/2014/01/17/the-death-of-expertise/) onde nos aparece um artigo da autoria do Sr. Tom Nichols, um famosíssimo cientista de áreas que nem ciência são e com um currículo de 9 páginas (http://tomnichols.net/files/Tom%20Nichols%20CV%202014.pdf), cuja opinião é a de que quando um especialista fala está tudo dito porque o peso deste tipo de opinião é superior às de quaisquer outras pessoas.”

      Está, mais uma vez, a confundir as coisas. O link para o artigo que refere serve para ilustrar a seguinte frase: “Possivelmente, não existe outro assunto tratado pelos media onde o relativismo pós-modernista, em que todas as opiniões são iguais e têm o mesmo valor, se faça sentir com tanta força.” Não serve, de todo, para fundamentar aquilo que afirmo no post no seu conjunto.

      Para conseguir identificar aquilo que realmente sustenta as minhas afirmações terá de fazer um esforço e ler um pouco mais abaixo. Lá encontrará as razões que me levam a considerar que a RTP prestou um péssimo serviço público ao tentar criar uma controvérsia onde ela não existe.

      “Atenção Leonor, porque quando se envereda por este tipo de atitude fundamentalista podemos, sem dar conta disso, estar a cair naquilo que normalmente vocês acusam os outros de fazer, ou seja, cair na falácia Nº 15 (apelo à autoridade ou argumento ad verecundiam) desta lista de falácias que me foi indicada por si.”

      Não percebo o que quer dizer com atitude fundamentalista. Quer explicar melhor? E aconselho-o talvez perder um bocadinho de tempo a analisar a falácia nº1.

      Cumprimentos

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