Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2015

O Unicórnio Voador. Crédito: Cláudia Barrocas

O Unicórnio Voador. Crédito: Cláudia Barrocas

O Prémio Unicórnio Voador – um prémio feliz para actuações infelizes – é uma distinção satírica concedida pela Comcept, por sugestão dos internautas, às personalidades ou entidades que durante o ano anterior tenham contribuído para a disseminação de pseudociência, superstição e outras formas de desinformação em três categorias distintas:

Grafonola – Para os meios de comunicação e os seus agentes (impressa, rádio, televisão, blogosfera).
Estrela cadente – Para as estrelas de televisão e do mundo artístico, desportivo ou social.
O Rei Vai Nu – Para todos os outros que façam ou contribuam para a propagação de alegações duvidosas sem provas ou contra elas.

Depois da fase de nomeações que este ano decorreu durante todo o ano de 2015, chega agora a altura de votar nos nomeados que foram seleccionados. Os internautas podem votar nos seus favoritos até ao dia 30 de Março e os vencedores de cada categoria serão revelados, como sempre, no dia 1 de Abril, o dia das mentiras.

O ano de 2015 foi recheado de novidades. Para começar, a Ordem dos Médicos traçou finalmente a linha entre o que considera ser medicina e “ideias delirantes”: não há problema com os médicos homeopatas, nem com os médicos anti-vacinação e nem com os médicos espíritas; o que é realmente intolerável são os médicos que utilizam “a força que [aprenderam] com Deus”. Ficámos também a saber que o mercado de serviços esotéricos está já tão saturado que a Maya se viu obrigada a dar aulas numa pós-graduação de jornalismo, enquanto a Igreja Universal do Reino de Deus teve de lutar na Justiça contra a “concorrência desonesta”. É possível que esses ocultistas desonestos tenham sido os responsáveis pelos jogos espíritas que causaram o pânico nas escolas, os bebés possuídos que avariaram televisões e até o surto de chackras desalinhados que afectou a direcção da RTP1. Não sabemos ainda se este problema poderá impedir a construção da embaixada extraterrestre em Portugal. Mas se quiser tirar uma selfie com um ET, tenha cuidado com os piolhos.

Segue-se então a apresentação dos nomeados que foram seleccionados para votação. Que ganhem os melhores dos piores.

Grafonola

TVI

O programa “Cartas da Alma” foi a tentativa da TVI de competir com o programa de cartomancia de Maria Helena na SIC. Para tentar reclamar um pedaço de um negócio que basicamente consiste na exploração da credulidade e desespero alheios, a TVI decidiu apostar na diversificação: doze apresentadoras, cada uma com a sua especialidade pseudocientífica. Contudo, nem mesmo os episódios mais hilariantes parecem ter prendido a audiência ao televisor e a TVI acabou por cancelar o programa. Talvez a leitura do futuro em cromos da bola, como sugeriu Ricardo Araújo Pereira, tivesse produzido melhores resultados, quanto mais não seja, a prever o futuro do próprio programa.

SIC

Em Março de 2015, o telejornal da SIC tentou ensinar-nos “como descobrir água com uma vara”. A conclusão que tiraram? Apesar de todas as maravilhas desta ciência oculta, a vara não diz a que profundidade se encontra a água. A conclusão a que deviam ter chegado? A vara é completamente inútil e é possível descobrir água desde que se faça um buraco com profundidade suficiente; o aparente movimento sobrenatural da vara é facilmente explicado pelo “efeito ideomotor”; e o poder dos vedores desaparece quando estes são submetidos a testes que removem a possibilidade de fraude e auto-engano.

Jornal i

Depois de uma série de peças completamente acríticas sobre a prática do exorcismo ([1], [2], [3], [4]), O Jornal i brindou-nos com mais um conjunto de artigos sobre a homeopatia ([1], [2], [3]). Os artigos promovem a clássica argumentação pró-homeopatia que vai desde a atenção selectiva de estudos científicos até razões como «a minha experiência diz-me que funciona», só que não; «funciona em animais», só que não; ou «há médicos que acreditam na homeopatia e isso serve de prova», só que não. Se dúvidas houvesse do objectivo destes artigos, o próprio director executivo, Vítor Rainho, admite no editorial a sua crença na homeopatia e na compatibilidade desta com a medicina moderna. E não é a inclusão de um céptico num dos artigos que leva à dispensa de se verificar se aquilo que se publica é verdade ou se existe uma melhor explicação.


Estrela Cadente

Adelaide de Sousa

O que pode ser pior do que promover terapias não comprovadas na televisão? Talvez promover essas terapias utilizando o próprio filho como cobaia. Foi o que fez a actriz Adelaide de Sousa quando levou o filho para uma sessão de quiroprática no programa A Tarde é Sua. Para além do facto de não existir qualquer suporte científico para a teoria das subluxações da quiroprática, qualquer tentativa de “corrigir” a coluna vertebral de uma criança em desenvolvimento é potencialmente perigosa e provavelmente desnecessária a não ser que exista um motivo médico genuíno – o que naturalmente não inclui recomendações de quiropatas que pretendem fazer manipulações até em bebés. Mais uma demonstração da eficácia da legislação sobre terapias não-convencionais na protecção dos cidadãos.

Fernando Nogueira (Bruxo de Fafe)

O Bruxo de Fafe aparece tanto na comunicação social que achamos que já merece o estatuto de estrela e, tendo em conta as circunstâncias, talvez até o estatuto de estrela cadente. A três dias do jogo Benfica-Vitória de Guimarães, o Bruxo de Fafe anunciava à comunicação social que o Benfica não iria ser campeão. O bruxo esperava ganhar 200 mil euros se os “rituais satânicos” para impedir o Benfica de conquistar o título fossem bem-sucedidos. Contudo, “quando os clubes são favorecidos pela arbitragem não há bruxo que lhe resista” e os rituais não tiveram o efeito desejado. Não sabemos se este revés também o fez perder o troféu “És o melhor bruxo de Portugal” que exibiu em cima da mesa durante a entrevista, mas se for esse o caso, tem agora a oportunidade de ocupar o espaço com o mais estiloso Unicórnio Voador.

Simone de Oliveira

Apanhada no fogo cruzado entre a Ordem dos Farmacêuticos e a empresa de suplementos Viva Melhor, Simone de Oliveira fez umas declarações interessantes à comunicação social. Se tem razão quando diz que “há produtos semelhantes anunciados por outros artistas”, é mais difícil de entender a alegação “são produtos naturais, as farmácias não gostam”. Talvez Simone não entre numa farmácia há muito tempo e não veja todos os produtos naturais e suplementos alimentares que geralmente se encontram à venda. Ou talvez tenha lido o nosso recurso educativo e aprendido algo sobre as melhores técnicas de marketing a aplicar.


O Rei Vai Nu

Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL)

Em Março de 2015, por altura de um eclipse solar, a Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) decidiu acolher nas suas instalações o 1º Simpósio Luso-Brasileiro de Astrologia. Ironicamente, como notou o astrónomo Pedro Russo, em 1919, por altura de outro eclipse solar, a SGL estaria a contribuir para a comprovação da teoria da relatividade de Einstein. No entanto, quase uma centena de anos depois, preferiu antes contribuir para legitimar uma pseudociência que está para a astronomia como a teoria da Terra plana está para a geografia. Será que, pelo preço certo, o rapper B.o.B poderá também realizar um simpósio na SGL?

Holmes Place

O Holmes Place que se declara como um “líder na indústria de fitness e bem-estar”, achou que seria boa ideia promover a “dieta ideal para cada signo”. É difícil entender que aconselhamento nutricional pode ser inferido a partir da posição do Sol relativamente a um arranjo arbitrário de estrelas aquando do nascimento de indivíduos que já morreram há milénios. Se era para promover pseudociência, a leitura de folhas de chá-verde ou até a requintada arte da escatomancia terão pelo menos uma vaga relação com a nutrição.

Instituições de ensino superior que pretendem lançar licenciaturas em terapias não-convencionais

Com a legislação das terapias não-convencionais em breve poderão ser reconhecidas licenciaturas para um conjunto de práticas que, como o David Marçal explica, “em comum têm o facto de não conseguirem apresentar provas da sua eficácia e segurança” precisando por isso de “legislação própria e regimes especiais”. O objectivo é óbvio, legitimar práticas sem fundamento científico sob o pretexto de garantir a sua qualidade, como se o facto de existirem “licenciaturas em engenharia de sabres de luz, ao estilo da Guerra das Estrelas” fizesse com que os sabres de luz funcionassem de verdade. As terapias ganham uma aura de legitimidade, as instituições de ensino superior uma nova fonte de propinas. Entre elas contam-se a Cooperativa De Ensino Superior Politécnico Universitário, Cruz Vermelha Portuguesa, Universidade Atlântica, Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches, Fundação Fernando Pessoa, Instituto Piaget, Instituto Politécnico de Portalegre e Instituto Politécnico do Porto.


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