Um comediante dá-nos uma lição de comunicação de ciência

Aqui na COMCEPT somos grandes fãs do John Oliver, comediante britânico há muito estabelecido nos Estados Unidos da América e que actualmente é responsável pelo programa da HBO Last Week Tonight.

Já por várias vezes, John Oliver usou a plataforma do seu programa para abordar diversos temas relacionados com a ciência, o cepticismo e o pensamento crítico. Por exemplo, quando alertou para a charlatanice promovida pelo “médico estrela” Dr. Oz e os seus suplementos milagrosos.

Esta semana, dedicou cerca de 20 minutos do seu programa ao modo como a ciência, sobretudo a relacionada com a saúde, é comunicada ao público sob a forma de notícias mais ou menos bombásticas. Perante a avalanche de alegações relacionadas com a perigosidade/vantagens de certos alimentos, como o caso do café, podemos chegar ao ponto de concluir que…

…o café é como o deus do Antigo Testamento: pode salvar-nos ou matar-nos dependendo de quão forte é a nossa crença nos seus poderes mágicos.

E a partir de certa uma altura, toda esta informação ridícula pode fazer com que nos questionemos se a ciência é uma treta, questão para a qual a resposta é claramente NÃO, mas a verdade é que existe muita treta mascarada de ciência.

 

Depois desta introdução, John Oliver aponta alguns dos motivos que contribuem para esta percepção errónea transmitida pelas notícias:

  1. Nem todos os estudos científicos são iguais: há estudos de maior e menor qualidade que são publicados em revistas científicas (ou não) também com qualidade e escrutínio variáveis.
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  2. Por vezes há problemas com o próprio estudo, que podem ou não ser consequência da pressão que os cientistas sofrem para publicarem o mais frequentemente possível (o fenómeno habitualmente chamado “publish or perish“) e da forma mais impactante possível. Um desses problemas é o p-hacking, uma expressão que se refere ao abuso das ferramentas estatísticas para obtenção de um resultado numericamente significativo. Este problema é muito debatido na comunidade científica, mas não é “passado” para o público quando as notícias sobre um determinado resultados surgem na imprensa.
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  3. Mesmo os estudos conduzidos com a melhor metodologia disponível podem ter resultados erróneos. Por isso a replicação é tão importante em ciência, mas existem problemas de financiamento e incentivo porque … “não há um Prémio Nobel para fact checking”! É portanto importante reunir um conjunto grande de trabalhos até se poderem tirar conclusões mais seguras. A comunidade académica sabe disso, mas o público nem sempre recebe essa mensagem.
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  4. Nem sempre a culpa está do lado dos jornalistas: as instituições académicas e outras organizações científicas publicam, por vezes, comunicados de imprensa que “embelezam” os resultados do trabalho científico.
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  5. Não se podem tirar conclusões directas para a saúde humana com base em estudos realizados apenas em animais. Os modelos animais são pontos de partida, mas não nos dão respostas definitivas sobre a fisiologia ou saúde humanas. Por exemplo, a grande maioria das substâncias farmacológicas testadas com êxito em roedores, não chegam a ser usadas em seres humanos.
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  6. Se um estudo tem problemas como o tamanho da amostra usada, o modelo animal usado ou de quem o financiou, não quer dizer que não deva ser reportado mas, se o for, esses problemas têm que ser explicitados na notícia para não induzir o leitor em erro.

Recomendamos vivamente que vejam o vídeo (abaixo), mas realçamos uma mensagem MUITO importante:

…em ciência, não podemos escolher a la carte as partes que justificam aquilo que nós já íamos fazer independentemente das provas, a isso chama-se religião […] Isto é perigoso! Isto é muito perigoso! Se começarmos a pensar que a ciência funciona a la carte e que, se não gostamos de um estudo, podemos ignorá-lo e esperar pelo próximo…é isso que leva as pessoas a acharem que as alterações climáticas de origem humana não são reais ou que as vacinas causam autismo, duas alegações sobre as quais o consenso científico é bem claro.

A ciência é, pela sua própria natureza, imperfeita, mas é extremamente importante! E merece um tratamento melhor do que ser desproporcionalmente retorcida e transformada em fofoca de programa da manhã.

E agora…é para ver até ao fim!

 

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