Raquel Varela e o direito a factos alternativos

No programa da RTP 3 “O Último Apaga a Luz”, Raquel Varela, historiadora e comentadora habitual em programas de televisão, produziu uma série de afirmações sobre a ciência das alterações climáticas que aprofundou posteriormente no Facebook e no blog pessoal num texto intitulado “O direito a duvidar”. Nós achamos que o problema não é a inibição do direito a duvidar – ou não fôssemos nós cépticos – mas antes, a ideia bastante actual de que todos temos direito a factos alternativos.

Raquel Varela afirma que “há dúvidas sim que estejamos numa fase de aquecimento global” e que “não há consenso na comunidade científica sobre a existência deste”. E aqui temos o primeiro problema, pois parece ser feita uma confusão entre consenso e unanimidade. Não é necessário haver unanimidade para haver consenso, nem é suposto. O consenso científico sobre um determinado tema é simplesmente aquilo que a generalidade dos especialistas na área considera correcto, e que resulta de múltiplas linhas de investigação independentes que convergem para a mesma conclusão. O consenso pode mudar face a novos factos, e pode ser mais ou menos forte dependendo da área de estudo, mas este representa quase sempre o melhor entendimento possível sobre um determinado assunto. E o consenso sobre o aquecimento global é claro, não porque “97% dos cientistas acham que sim” 1*, numa espécie de voto popular, mas porque a quantidade de provas concordantes entre si é tão grande, que a única forma de o negar parece ser a prática de distorcer factos e tecer teorias da conspiração.

Estranhamente, a alegação da inexistência de consenso contradiz a sua própria primeira publicação, onde afirma que não se surpreende que a maioria dos cientistas ache que existe aquecimento global, porque “se não acharem não têm financiamento para trabalhar e testar hipóteses” e que “estatisticamente os que não pensam assim a priori ficam de fora”. Varela está a insinuar que as opiniões dos cientistas sobre aquilo que estudam, sejam eles da área do clima ou das ciências sociais, dependem de uma espécie de pensamento de grupo – talvez uma alusão aos paradigmas de Thomas Kuhn – que impõe uma rígida ditadura sobre o que publicar. Ironicamente, desta linha de pensamento resulta que também aquilo que a própria acha sobre a sua área de estudo depende, não de ser factualmente correcto, mas de ter ou não financiamento. Algo que não a impede de refinar o argumento até atingir os contornos de uma conspiração em que “vários cientistas” se queixam de pressões “para só ter projectos aprovados quando são favoráveis à hipótese do aquecimento global” – sem nunca revelar que cientistas são esses – e que, “há uma ligação exponencial entre patentes, impostos verdes e a amplitude que ganhou a hipótese do aquecimento global”. De facto há ligações entre várias coisas, há até quem defenda que existe uma ligação entre o aquecimento global e o desaparecimento dos piratas.

Crédito: Igreja do Monstro do Esparguete Voador

Crédito: Igreja do Monstro do Esparguete Voador

O conceito de consenso é algo que irrita muito aqueles que têm opinião contrária, ou negacionistas a tempo inteiro. “A dúvida é o nosso produto”, foi uma frase encontrada nos documentos internos da indústria tabaqueira quando se viu confrontada com a ciência que afirmava que fumar aumenta o risco de cancro. E não é de estranhar esta mesma técnica ser usada agora contra a ciência do clima. Naomi Oreskes, a primeira a analisar a estranha diferença entre o que a ciência nos diz sobre as alterações climáticas e a percepção do público sobre essa mesma ciência, identificou muitos paralelos entre a indústria dos combustíveis fósseis e a indústria tabaqueira. Por exemplo, através do financiamento de indivíduos e de think tanks que se dedicam a semear desinformação e falsas controvérsias sobre o tema em blogs e na comunicação social. Mas as motivações não são sempre financeiras, tal como no negacionismo da ciência das vacinas ou da teoria da evolução, existe um raciocínio motivado por detrás da negação da ciência do clima, e que está directamente ligado à identidade política e religiosa de cada um. E se para uns as vacinas são perigosas porque não se pode confiar em grandes farmacêuticas, e para outros a teoria da evolução é falsa porque coloca em causa a fé num plano divino, para Raquel Varela, aparentemente, o consenso sobre o aquecimento global não pode ser verdade, porque se fosse, justificaria a “explosão dos impostos e subsídios à reconversão da indústria”.

Ao contrário do “apocalipse chamado capitalismo”, para Varela “O apocalipse do “aquecimento global” está por provar”. E de facto, não se conhece nenhum estudo científico que fale de apocalipse, porque os apocalipses encontram-se nos textos religiosos ou em filmes de Hollywood. Adicionalmente, referindo-se provavelmente às medições de temperatura que foram registadas com recurso a instrumentos científicos (já agora, todas concordantes entre si), Varela tenta lançar a dúvida sobre estes dados dizendo que têm “pouco mais de 100 anos – e [são] sobretudo em terra, quando o planeta é sobretudo água”. Mas tal como na ciência forense ou na História, não é preciso estar presente durante um evento para se tirar conclusões sobre este, é possível recorrer a fontes indirectas que revelam informações valiosas sobre o clima terrestre do passado, por exemplo, recorrendo a corais, troncos de árvores, núcleos de gelo e sedimentos de lagos e oceanos.

“Não se pode concluir, como fazem os media com frequência, que a cada fenómeno natural normal – tempestade, chuvas intensos, ondas de calor – está provado o aquecimento global”. E também não se pode concluir que os cientistas são culpados pela má comunicação de ciência feita pela comunicação social. É de facto verdade que é muito complicado relacionar um fenómeno extremo específico às alterações climáticas. No entanto, o aumento da frequência e duração de fenómenos extremos, como cheias ou secas, são expectáveis com o aquecimento global porque o aumento das temperaturas tem efeitos sobre os parâmetros meteorológicos. E podemos concluir que o aumento da temperatura média anual ao longo dos últimos anos supera as previsões mais pessimistas dos cientistas do clima. 2014 foi considerado o ano mais quente desde 1880, ano em que se começou a guardar os registos anuais. Mas 2014 foi ultrapassado por 2015.  E a tendência começa a ser dramática quando vemos que a temperatura de 2015 foi também ultrapassada pela temperatura média global em 2016.

Se é verdade que o assunto é por vezes maltratado pela comunicação social ou activistas ambientais mais hiperbólicos, como de resto se queixa Raquel Varela, ocorre-nos pelo menos sugerir que isso talvez aconteça porque, também nesses casos, alguém pensou que bastava dizer “eu não sou especialista na matéria mas…” para a seguir se achar no direito de emitir qualquer opinião.

Texto escrito em colaboração com L. Abrantes.

Mais informação:

ComceptCon 2015 – Carlos Teixeira – O Negacionismo em Torno da Questão das Alterações Climáticas

Negacionismo – Quando os factos são rejeitados – recurso educativo da Comcept

Marco Filipe

Licenciado em Genética e Biotecnologia e mestre em Biotecnologia para as Ciências da Saúde. É colaborador da COMCEPT desde o início e o repórter n.º1 da PetaNews – a melhor agência de jornalismo alternativo e complementar do Universo. Nutre um particular interesse pelos temas da pseudociência e do negacionismo de ciência, sobretudo, pelos perigos que representam para a sociedade.

Notas   [ + ]

1. O valor dos 97% provém de um artigo que analisou um conjunto de 11.944 artigos científicos publicados num período de 20 anos. Do sub-conjunto de artigos que expressam uma posição sobre o aquecimento global antropogénico no abstract, 97% defendem que este é real e apenas 1,9% rejeitaram explicitamente a hipótese. Este artigo é apenas um de vários indicadores do consenso, que incluem ainda outros artigos de revisão e declarações oficiais de organismos científicos.

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