Existe relação entre radiações dos telemóveis e cancro?

Uma das preocupações que muitas pessoas têm relativas à influência da tecnologia na saúde é saber quais são as consequências da radiação electromagnética no nosso corpo.

Esta foi uma das questões colocadas por um dos nossos leitores e que já tem sido debatida na nossa página a propósito da reportagem da revista Visão sobre a alegada Hipersensibilidade à Radiação Electromagnética (EHS). Este é também um dos temas abordados no nosso livro “Não se deixe enganar”.

Neste texto, iremos apenas averiguar se há consenso científico sobre a relação entre a radiação produzida pelos telemóveis e o cancro.

Nota: Este texto foi escrito numa parceria entre a COMCEPT e a SciMed.

Será a radiação electromagnética perigosa?

Para responder a esta questão há que compreender o espectro electromagnético. Como se pode ver na imagem abaixo, existem diferentes tipos de radiação: raios gama, raios-X, radiação ultravioleta (UV), radiação visível (luz), radiação infravermelha e ondas de rádio (e é aqui que se encontra a radiação de micro-ondas). Estes diferentes tipos de radiação podem ser encaixados em dois grupos, consoante a sua frequência:

A radiação ionizante, que engloba os raios gama, raios-X e parte da radiação UV;
A radiação não-ionizante, que inclui a radiação da região visível (os raios de luz encontram-se nesta região), os infravermelhos e as ondas de rádio (micro-ondas incluídas).

Imagem da distribuição do espectro magnético

Fig. 1 – Espectro Electromagnético (Fonte)

Quanto maior a frequência da radiação, maior a probabilidade de quebrar as ligações entre átomos e moléculas, e, por conseguinte, de causar danos biológicos, i.e., causar mutações. Por essa razão as pessoas devem moderar a sua exposição ao sol (radiações UV) e os profissionais de saúde devem proteger-se quando realizam radiografias (raio-x).

Do outro lado do espectro encontra-se a radiação não-ionizante não sendo capaz de provocar dano celular directo e estar associada ao surgimento de problemas de saúde como o cancro. Pelo menos não por esta via.

Para termos uma noção de perspectiva, atendamos às seguintes frequências:

Máquina raios-X: 3×1017 Hz

Luz amarela: 5×1014 Hz

Micro-ondas: 2,45×109 Hz

Telemóvel: 1×109 Hz

Linhas de Alta-Tensão: 60 Hz

Como se pode observar, a radiação emitida pelos aparelhos micro-ondas, pelos telemóveis e pelas linhas de alta-tensão têm uma frequência inferior à da luz amarela (da região do visível). Ou seja, estamos expostos a mais radiação quando estamos ao sol ou perto de um candeeiro ligado, do que perto de qualquer aparelho que emita radiação com frequência inferior à dos infravermelhos.

 

O que diz a Ciência?

Pelo explicado acima, será difícil que a radiação dos telemóveis provoque cancro. A plausibilidade biológica para esta ocorrência é baixa.

Nas últimas décadas, têm sido realizados vários estudos para avaliar os efeitos das radiações e para estabelecer limites de segurança.

Só na área da radiação não-ionizante, foram publicados cerca de vinte e cinco mil artigos nos últimos 30 anos. A OMS concluiu que não existe evidência de consequências para a saúde devido à exposição aos campos magnéticos de baixo nível (“What are electromagnetic fields: Health effects”, 2004). Também o relatório “Health effects of exposure to EMF”, elaborado pelo Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Healt Risks (SCENIHR), concluiu que é improvável que a exposição a campos eletromagnéticos leve a um aumento de cancro em humanos” [1].

Um estudo recente, de 2014, que avaliou a evidência existente chegou aos mesmos resultados. Dificilmente haverá uma correlação entre a utilização de telemóvel e o risco de cancro cerebral (Glioma, Meningioma e Neurinoma do Acústico).

No entanto,uma meta-análise de 2016 aponta para um baixo risco de glioma em pessoas que utilizam o telemóvel há mais de 5 anos:

For ≥1 year group, the data were pooled by random effect mode. The combined data showed that there was no association between mobile phone use and glioma OR = 1.08 (95% CI: 0.91–1.25, P > 0.05). However, a significant association was found between mobile phone use more than 5 years and glioma risk OR = 1.35 (95% CI: 1.09–1.62, P < 0.05).

However, the correlation was weak with significant statistical heterogeneity. The linkage between mobile phone usage and glioma risk should be further investigated and discussed.

Ou seja, foi encontrada uma associação significativa entre o uso de telemóveis há mais de 5 anos e o risco de glioma OR = 1.35 (95% CI: 1.09–1.62, P < 0.05). No entanto, a correlação era fraca com heterogeneidade estatística significativa. A ligação entre utilização de telemóvel e risco de glioma deverá ser mais investigada e discutida.

Outra meta-análise de 2017 também aponta para a existência de algum risco de aumento de tumores intracranianos (gioma, meningioma e neurinoma do acústico) associado à utilização de telemóvel durante mais de 10 anos:

A significantly higher risk of an intracranial tumor (all types) was noted for the period of mobile phone use over 10 years (odds ratio (OR) = 1.324, 95% confidence interval (CI): 1.028-1.704), and for the ipsilateral location (OR = 1.249, 95% CI: 1.022-1.526). The results support the hypothesis that long-term use of mobile phone increases risk of intracranial tumors, especially in the case of ipsilateral exposure. Further studies are needed to confirm this relationship.

Resumindo, foi encontrado maior risco de tumor intracraniano (todos os tipos) para o período do uso de telemóvel ao longo de 10 anos (odds ratio (OR) = 1.324, 95% intervalo de confiança (CI): 1.028-1.704), e para a localização ipsilateral (OR = 1.249, 95% CI: 1.022-1.526). Os resultados apoiam a hipótese que o uso de telemóveis a longo prazo aumentam o risco de tumores intracranianos, especialmente no caso de exposição ipsilateral (i.e. do mesmo lado).

No entanto, o problema da qualidade dos estudos que existem podem afectar a análise e os resultados das meta-análises, já que a maioria são estudos de caso-controlo (estudos de baixa-média qualidade):

As limitações do nosso estudo resultam das limitações de estudos caso-controlo individuais, particularmente aqueles relacionados com avaliação de exposição e longa latência de tumores intracranianos.” [2]

De facto, os estudos caso-controlo têm várias limitações. São estudos baratos e bons para estudar doenças raras. No entanto, a dependência na memória das pessoas para relatar os níveis de exposição a determinado factor pode influenciar de forma negativa a veracidade do resultado:

A desvantagem mais importante nos estudos caso-controlo está associada à dificuldade de obter informação fiável sobre a condição de exposição do indivíduo ao longo do tempo. Estudos de controlo-caso são assim colocados numa hierarquia baixa de evidência.” [3]

A questão da qualidade dos estudos e das conclusões que podemos daí retirar tem sido levantada por diversas vezes, pelo que não deveremos interpretar de forma precipitada estes resultados:

Alta heterogeneidade foi detectada através de estimativas de risco de glioma e de neuroma acústico em utilizadores de longo prazo, com cRRs (i.e. riscos relativos combinados) a variar entre 1.19 (95% CI 0.86-1.64) e1.40 (0.96-2.04), e de 1.14 (0.65-1.99) até 1.33 (0.65-2.73), respectivamente. Uma meta-regressão de estudos primários mostrou que as diferenças metodológicas embutidas na variável “grupo de estudo” explicou a maioria da heterogeneidade geral nos resultados. Estimativas de risco resumidas baseadas em descobertas heterogéneas não devem ser sobre-interpretadas.” [4]

 

O que é que isto implica?

Implica perceber que estes resultados não invalidam, para já, as recomendações das organizações que se dedicam à avaliação da evidência sobre este tema. Implica também perceber que a exposição por longos períodos pode, de facto, ter alguma consequência no aumento do risco de cancro. No entanto, não vale a pena retirar conclusões precipitadas do conhecimento actual, dada a qualidade dos estudos existentes e a grande heterogeneidade dos resultados dos mesmos.

 

E qual o possível mecanismo?

Voltamos a reforçar. É improvável, apesar dos estudos apresentados, que os telemóveis causem cancro. No entanto, nunca será por causa da radiação não ionizante. O mecanismo mais provável será o calor local:

Radiação eletromagnética (EMF) a pode afectar o corpo via electroestimulação (até 20 MHz), electroporação (quando a energia EMF está focada em correntes de contacto), e aquecimento (EMF causa a vibração mais rápida das moléculas, o que causa fricção e gera calor). No entanto, o aquecimento é o único mecanismo de interacção dentro das frequências e magnitudes relevantes para as comunicações telemóveis. Devido a isto, as atuais linhas de orientação de exposição internacionais (tais como as apresentadas pela Commission on Non-Ionizing Radiation Protection, ICNIRP) propõem restrições baseadas primeiramente em interações térmicas e os seus efeitos. No entanto, há agora evidência fundamentada de que baixo nível de RF-EMF tem um impacto no electroencefalograma (EEG, uma medida de actividade eléctrica cerebral), com o mecanismo para este efeito , assim como quaisquer potenciais consequências funcionais dele, desconhecidos. Como não há actualmente evidências fortes de mecanismos não-térmicos, é assumido que um mecanismo térmico deve estar subjacente a estes efeitos. No entanto, a possibilidade de um mecanismo não-térmico não pode ser descartado, e traz ao debate a garantia de protecção fornecida pelas linhas de orientação actuais. Uma maior atenção da pesquisa ACEBR é assim se os efeitos de baixo-nível podem ser explicados por mecanismos térmicos, e se há mecanismos de interacção não-térmicos adicionais.” [5]

Se a causa for o calor local, significa que as redes Wi-Fi e cabos de alta tensão, assim como outros aparelhos que utilizem estas frequências, dificilmente causarão algum tipo de problema para a saúde a não ser que andem com eles encostados à cabeça 😀

 

O que se pode fazer?

Como tentámos demonstrar, devido ao conhecimento acumulado até ao momento, não há plausibilidade para que estabeleça uma relação de causalidade entre a radiação do Wi-Fi de aparelhos electrónicos – como os telemóveis – e casos de cancro. Na realidade, há um risco maior em termos de segurança em conduzir com o telemóvel ou ir para a praia na hora de maior exposição UV. 

Apesar da falta de evidências claras e inequívocas que apoiem o risco de cancro cerebral e a baixa plausibilidade biológica para que isso aconteça, e se ainda assim tiver receios, aconselhamos alguma prudência na utilização dos telemóveis até que nova evidência seja produzida:

– Não utilizar o telemóvel sempre do mesmo lado;

– Usar a função de alta voz sempre que possível;

– Preferir comunicar por mensagens;

– Utilizar auricular se conversas longas ao telemóvel forem frequentes;

– Preferir conversar com os amigos e familiares pessoalmente do que ao telemóvel 😀

Texto escrito por: João Monteiro (COMCEPT) e João Júlio Cerqueira (SciMed)

 

NOTAS:

[1] – COMCEPT, Não se deixe enganar, Contraponto Editores, 2017, p.155

[2] – No original: “The limitations of our study result from the limitations of the individual case-control studies, particularly those related to exposure assessment and long latency of the intracranial tumors.”

[3] – No original: “The most important drawback in case-control studies relates to the difficulty of obtaining reliable information about an individual’s exposure status over time. Case-control studies are therefore placed low in the hierarchy of evidence.

[4] – No original: “High heterogeneity was detected across estimates of glioma and acoustic neuroma risk in long term users, with cRRs ranging between 1.19 (95% CI 0.86-1.64) and 1.40 (0.96-2.04), and from 1.14 (0.65-1.99) to 1.33 (0.65-2.73), respectively. A meta-regression of primary studies showed that the methodological differences embedded in the variable “study-group” explained most of the overall heterogeneity in results. Summary risk estimates based on heterogeneous findings should not be over-interpreted.”

[5] – No original: “EMF can affect the body via electrostimulation (up to about 20 MHz), electroporation (when EMF energy is focused as contact currents), and heating (EMF causes molecules to vibrate more rapidly, which causes friction and generates heat). However, heating is the only known interaction mechanism within the frequencies and magnitudes relevant to mobile telecommunications. Due to this, current international exposure guidelines (such as those set by the International Commission on Non-Ionizing Radiation Protection, ICNIRP) set restrictions based primarily on thermal interactions and effects. However, there is now substantiated evidence that low-level RF-EMF has an impact on the electroencephalogram (EEG, a measure of brain electrical activity), with the mechanism for this effect, as well as any potential functional consequences of it, unknown. As there is currently no strong evidence of nonthermal mechanisms, it is assumed that a thermal mechanism must underlie these effects. However, the possibility of a nonthermal mechanism cannot be discarded, and brings into question the claimed assurance of protection provided by current guidelines. A major focus of ACEBR research is thus whether low-level effects can be explained by thermal mechanisms, and whether there are additional nonthermal interaction mechanisms.

JLM
João L. Monteiro

Fez a licenciatura em Biologia e mestrado em Biologia do Desenvolvimento. Actualmente é doutorando em História da Ciência.
Vice-Presidente da Direcção da COMCEPT.

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