Burlas Nigerianas

Parabéns! Se estiver a ler esta mensagem significa que é o visitante número 10 000 da COMCEPT e que acabou de ganhar um fabuloso prémio! Tudo o que tem de fazer é enviar-nos 100 euros para tratarmos de todas as burocracias e darmos início ao processo de transferência do prémio. Convencido? Não?! Bem, tinha de tentar…

Mas se lhe disser que o prémio é de 50 mil milhões de dólares? Cerca de 40,2 mil milhões de euros. Quase tanto quanto a fortuna de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, segundo uma avaliação de 2017. Se calhar ficaria mais receptivo à possibilidade de enviar os 100 euros ou, no mínimo, ficaria estupefacto com o valor da recompensa. E estupefacto deve ter sido como se sentiu o bancário que em 2009 foi abordado por uma mulher que, enganada por uma «burla nigeriana», pretendia transferir 50 mil milhões de dólares dos EUA para Portugal.

As burlas nigerianas são uma designação genérica para uma série de esquemas em que um burlão apela à ganância da vítima com a promessa de uma grande soma de dinheiro que lhe será entregue na condição de esta lhe enviar antecipadamente uma quantia relativamente menor, supostamente, para pagar alguma taxa ou custo legal. «Como é que obtiveram o meu contacto? Porque é que me escolheram a mim? Porque tenho de ser eu a pagar as taxas? Que garantias existem de que vou receber a recompensa?» Todas estas perguntas se esfumam perante a possibilidade de se ficar rico. E o único dinheiro que existe é aquele que o burlão consegue subtrair à vítima.

O nome advém do facto de a Nigéria ter a fama de ser o local de origem deste tipo de fraude. Mas os burlões podem estar hoje em qualquer parte do mundo. O nome está também associado à icónica história do príncipe da Nigéria que, após um golpe de estado, procura um bom samaritano que o ajude a transferir o tesouro real para um sítio seguro.

Hoje em dia a burla é feita sobretudo através da Internet, mas também pode acontecer por carta. O burlão começa para expor o seu problema ou proposta de negócio, de seguida, pede dados e documentos pessoais à vítima (que podem ser posteriormente usados noutras fraudes) e, eventualmente, pede o envio de dinheiro por meios que dificultem a sua identificação, por exemplo, através de empresas de transferências internacionais. A Western Union e a MoneyGram possuem até páginas que alertam para as várias fraudes que fazem uso dos seus serviços.

Os pormenores da história variam, assumindo por vezes a forma de enredos dignos de um romance de espionagem. Mas o objectivo é sempre o mesmo: convencer a vítima de que, por qualquer motivo, precisa de enviar dinheiro para ter acesso a uma recompensa substancialmente superior. Estas são algumas das variantes:

  • Um membro de um governo corrupto ou deposto precisa de transferir uma grande quantia de dinheiro para uma conta no exterior, pede para utilizar a conta bancária da vítima e também algum dinheiro para acelerar o processo;
  • Uma oferta de crédito com condições especiais ou o testemunho de alguém que recorreu ao tal crédito, mas em que para aceder ao mesmo é preciso pagar primeiro várias taxas burocráticas;
  • Uma herança de um familiar desconhecido ou de alguém que, por algum motivo, não tem a quem mais deixar os seus bens. Bens que se encontram bloqueados até que todas as custas sejam liquidadas;
  • Um bancário à procura de um parceiro de crime para dividir o conteúdo de uma conta bancária esquecida, tudo o que é preciso é uma conta bancária no exterior e algum dinheiro para transferir os fundos;
  • Uma oferta de emprego numa grande empresa internacional em que para ter acesso à posição ou ao primeiro salário é necessário pagar uma taxa;
  • A notícia de que se ganhou um prémio ou uma lotaria cujo montante, mais uma vez, só se torna acessível pagando antecipadamente algum imposto.
Exemplo de uma burla nigeriana no Facebook. O perfil em causa pode ser falso ou ter sido roubado a uma pessoa real.

Exemplo de uma burla nigeriana no Facebook. O perfil em causa pode ser falso ou ter sido roubado a uma pessoa real.

Outra característica quase universal das burlas nigerianas é que as mensagens possuem diversos erros de gramática. De acordo com Cormac Herley, investigador da Microsoft, estes erros são propositados e servem para reduzir o número de «falsos positivos», ou seja, indivíduos que custam tempo e esforço aos burlões, mas que não chegam a enviar dinheiro. Os burlões, supostamente, preferem alguém ingénuo o suficiente para acreditar na legitimidade de uma mensagem com erros de gramática. É uma hipótese plausível, ainda que os burlões operem geralmente a partir do estrangeiro e, por isso, podem simplesmente não dominar o idioma. Tempo é dinheiro porque o burlão tem de manter várias conversas distintas em simultâneo. Talvez a pior coisa que se pode fazer a um destes burlões é gastar o seu precioso tempo. E foi isso que o comediante James Veitch fez ao produzir a hilariante série de vídeos Scamalot onde relata as trocas de mensagens que manteve com vários burlões. Veitch foi também convidado para uma palestra TED em 2016:

É difícil saber ao certo quantas pessoas são afectadas por este tipo de burla. O sentimento de vergonha leva a que algumas não façam sequer queixa às autoridades. As vítimas temem a exposição e os julgamentos negativos acerca da sua inteligência e moralidade – não só por se terem deixado levar pela cobiça, mas também, por casos em que a burla envolve propostas de natureza ilegal. Em 2004, por exemplo, o Correio da Manhã relatava o caso de duzentas pessoas vítimas de uma burla nigeriana, entre as quais se incluíam até engenheiros, médicos e advogados. E é seguro assumir que continua a não existir falta de vítimas, caso contrário, os burlões não se dariam ao trabalho de distribuir mensagens pelas nossas contas de e-mail e redes sociais.

Talvez a pior postura que se pode ter perante este tipo de burla é pensar que é algo que só acontece aos outros. Ou que apenas pessoas muito ingénuas se deixam levar pela conversa. Todos passamos por momentos de fragilidade e, por vezes, basta aparecer uma mensagem que diga aquilo que queremos desesperadamente ouvir.  É preciso cuidado com mensagens de origem desconhecida e não deixar de fazer as perguntas certas. Se parece bom demais para ser verdade é porque provavelmente é mesmo.

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