Estratégia: Confundir para reinar

A estratégia é essencial para quando se quer atingir um determinado fim. Consoante a situação – seja ela militar, política, empresarial ou comunicacional – e consoante o contexto, aplicam-se diferentes estratégias. Uma das mais conhecidas é a estratégia de “dividir para reinar”, em que se divide internamente o adversário para o enfraquecer. Mas outra estratégia é a de “confundir para reinar”: na natureza poderia traduzir-se por “confundir para sobreviver”. Exemplo dessas estratégias são o mimetismo (características de um organismo que os confunde com outros grupos de organismos) ou a camuflagem (capacidade de um organismo se manter indistinguível do meio que o rodeia), por exemplo. Também no marketing se pode utilizar esta última estratégia, a da confusão.

A pseudociência pode ser definida como a tentativa de algo passar-se por ciência sem o ser: por exemplo, uma terapia possuir todo um jargão aparentemente técnico, tentar passar pelo método científico e ver os resultados dos ensaios publicados em revistas alegadamente académicas, mas, vai-se a ver e o palavreado não tem significado real, o desenho experimental está mal feito e as revistas não estavam sujeitas a revisão por pares, nem os resultados foram colocados sob escrutínio científico. Isto no meio académico. Mas, como temos vindo a falar, o mesmo acontece quando se tenta passar a informação para o público, com a publicação de livros ou documentários que dizem apoiar-se na ciência (porque esta tem credibilidade) para tentar passar ideias falsas ou fantasiosas (veja-se o exemplo dos astronautas antigos ou ancient aliens, teorias da conspiração como a dos chemtrails, ou a mediunidade). Depois da escrita e publicação, vem a parte da distribuição, ou seja, como o produto chega ao cliente final. Um dos exemplos que se pode encontrar nas papelarias é o das revistas de popularização de ciência, como o exemplo abaixo que nos foi enviado por um leitor.

Science et vie

Créditos: João Joyce

 

Olhando para a imagem, vemos à esquerda a conhecida revista Science & Vie (Ciência e Vida) e à direita a revista Science & Au-Delà (Ciência e Além). Ambas são muito semelhantes: as duas estão escritas em francês, com um grafismo e aspecto muito parecidos e com várias referências à ciência. Além disso, estavam dispostas uma ao lado da outra, numa espécie de mimetismo literário. O objetivo é claro: confundir o leitor, dando a entender que são publicações semelhantes, de modo a conquistar  a sua atenção e, em último caso, a aquisição. O leitor menos atento, embora curioso, poderá acreditar que a ciência sustenta muitas das alegações ali feitas (vida após a morte, existência de espíritos, confissões de caçadores de fantasmas)… e assim se espalha a desinformação e alimentam-se crenças infundadas (não é só nas redes sociais*). Deste modo, deixamos aqui este alerta para que estejamos todos atentos ao que está exposto, antes de comprar, e propomos que se contacte o vendedor sugerindo que se separem convenientemente as revistas, colocando as de ciência num lado e as de espiritismo/misticismo noutro, em áreas devidamente catalogadas.

 

* A propósito de redes sociais, uma pequena nota: a página de facebook da revista da direita, promoveu outras revistas idênticas: Santé Quantique Psycho Quantum (Saúde Quântica e Quantum Psíquico).

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