Cepticismo: A Falácia e a Importância do Argumento

Hoje apresentamos um texto de uma autora convidada. Vera Santos realizou uma apresentação no mês passado sobre o recurso a falácias durante a argumentação, salientando a importância do cepticismo e do pensamento crítico quando se debate.

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O anti-intelectualismo tem sido uma ameaça constante a imiscuir-se na nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que “a minha ignorância é tão boa quanto o teu conhecimento“. — Isaac Asimov.

O séc. XXI, que aparentava ser de vasto conhecimento científico para as massas em oposição às elites abastadas, uma vez que a taxa de analfabetismo tem vindo a decrescer, assiste, em contrapartida, a um pulular de desinformação, muita dela facilitada pela globalização, pela facilidade dos meios de comunicação e pela falsa noção de que, se de alguma forma a ideia se torna pública, é porque deve ser verdade. Assim, o sonho que alimentávamos sobre a “autoestrada da informação” ser um veículo de conhecimento, tornou-se numa estrada de curvas e contracurvas, à espera de acidentes iminentes. No entanto, podemos à mesma navegar na internet sem que para isso tenhamos de andar à deriva nas Fake News e nesta contra informação que nos assalta, seja num comum blog, na televisão nacional ou, ainda mais grave, no próprio parlamento.

Sendo mais concreta no objectivo deste texto, e sem querer ferir susceptibilidades de vária ordem, pois reconheço que a via espiritual, para muita gente é uma mais-valia, venho demonstrar como e para quê o cepticismo é importante. Até porque, da mesma maneira que existem crenças inofensivas, existem outras que são perigosas. Enquanto que a crença de que se partimos um espelho temos 7 anos de azar não traz mal ao mundo, não vacinar as crianças porque se acredita piamente num estudo obsoleto, viciado e desmentido, coloca em perigo a saúde pública. Há poucos meses, inclusive, chegou-nos a notícia de que apareceu o primeiro caso de tétano, nos EUA, em 30 anos, numa criança cujos pais se recusaram a vaciná-la. Para cúmulo, a criança esteve em perigo de vida com internamento em cuidados intensivos e, mesmo assim, os pais queriam proibir a administração de vacinação. Então, como travar este novo extremismo assente na ignorância e na pseudociência? Só vejo uma solução, a educação com rigor científico e o reconhecimento de falácias no discurso dos vendedores de “banha de cobra”. Aqui é que o cepticismo entra como aliado da retórica e do discurso lógico.

No entanto, há que tomar em consideração que o cepticismo é diferente de negacionismo. Enquanto que o céptico rejeita à partida ideias que lhe parecem rebuscadas e/ou fantasiosas mediante o conhecimento científico que já possui, mas simultaneamente está aberto à dúvida para que lhe apresentem provas, já o negacionista rejeita as ideias, mesmo que estas sejam provadas pelo método científico. Podemos observar o fenómeno do negacionismo em vários exemplos: pôr-se em causa a ida do homem à lua, ou afirmar que a terra é plana mesmo quando os factos e cálculos apontam para o óbvio, que a Terra é redonda com um ligeiro achatamento nos polos. Este negacionismo, e outro tipo de teorias da conspiração, tem fácil explicação para a sua existência. O ser humano, engenhoso e imaginativo por excelência, nunca se contentou com factos, com a realidade das coisas, pois a realidade é, normalmente, chata. Então, há como que um romantizar da realidade e torná-la mais fantástica, mais deslumbrante.

A ideia é bonita, no entanto não é real. Vejamos o caso do assassinato de J. F. Kennedy. A realidade é que o assassino chamava-se Lee Harvey Oswald. A fantasia são as teorias que daí surgiram, tais como: foi a CIA, foram os soviéticos, não foi o Oswald por causa da trajectória das balas, etc.. Acontece que estas conspirações vendem jornais, vendem documentários, dão audiência televisiva, tudo porque o ser humano aprecia um bom enredo.

Há que reconhecer que a linha que separa os mitos e a pseudociência da ciência e do método científico é por vezes tão ténue que se confundem, uma vez que a pseudociência douta-se do mesmo jargão e léxico que os cientistas, tornando a tarefa difícil. Assim, quem padecer de alguma iliteracia científica ou simplesmente se deixe manipular nas inúmeras falácias e no jogo retórico do charlatão, facilmente cai na esparrela.

                                                   Fonte: Free-Photos por Pixabay

Portanto, para que de futuro olhemos para a ciência como uma amiga que nos pode poupar quer seja dinheiro ou a própria vida, é com prazer que apresento algumas das falácias lógicas e manipulação recorrendo à retórica, com que vulgarmente nos deparamos.

Começo então por declarar que, profissionalmente, trabalho na área comercial do ramo da dermocosmética, tendo a cargo uma equipa de vendedores dos quais faço a gestão. Nesse âmbito, fiz várias formações e em muitas delas adquiri o conhecimento de como usar da manipulação pela retórica, também para poder orientar a minha equipa. Devo esclarecer também que o discurso do vendedor é muito semelhante ao dos tarólogos, videntes, e demais “conselheiros espirituais” que dizem possuir a panaceia para os males da alma e para os concretos também, claro, a troco de uma quantia um tanto ou quanto considerável. Então, revelo aqui o segredo. Elogia-se sempre o receptor de alguma forma, para se ganhar a empatia. Depois, deixamos que a pessoa fale e apanhamos umas quantas palavras-chave do discurso da pessoa. Então, orientamos todo o nosso discurso em torno dessas informações para que nos digam mais sobre elas próprias e assim fazemos um diagnóstico sumário do perfil mental da pessoa para manipularmos à vontade. No caso do vendedor, muitas vezes ouvimos redondos “nãos” – e não estamos a enganar, estamos só a ser comerciais legítimos. No caso dos Profs. Videntes cujo panfleto recebemos periodicamente no correio, o facto de a pessoa ir predisposta a ouvir e/ou a ir consultar já numa fase de desespero, permite a manipulação e a burla.

Assim, os Profs. Doutores Videntes e grandes Mestres das artes Ocultas da Magia ancestral e africana recorrem a várias falácias argumentativas, sendo a mais evidente, neste meu irónico parágrafo, a falácia da autoridade. Portanto, esta falácia não é nada mais que o empregar de um título honorífico que lhe dê mais credibilidade. O mal maior é quando esta falácia da autoridade é usada por doutores a sério, que há muito abandonaram a ética profissional e se dedicam a espalhar desinformação ou pseudociência. É o caso gritante de Andrew Wakefield, o médico que conduziu o estudo fraudulento, e mais que desmentido pela comunidade científica, de que as vacinas causariam autismo. Esta fraude é hoje a causa do retorno de doenças infectocontagiosas, que praticamente já tinham sido erradicadas e que estão a causar mortes em pessoas que se encontram em grupos de risco, tudo porque a imunidade de grupo está a descer.

Outra falácia muito usada é a do apelo ao natural. Na minha área é muito comum ver-se o uso desta como manobra de marketing. Ou seja, um champô com extractos de côco ou um champô cheio daqueles nomes feios e “químicos” como Lauriléter Sulfato de Sódio são exactamente a mesma coisa, pois cumprem exactamente mesma função e este sulfato ocorre naturalmente no côco. Algo bom a reter para nos ajudar nesta demanda contra o engano é que tudo nesta vida é composto de químicos. Isto aprende-se no 7º ano de escolaridade. Não há químicos bons nem químicos maus. Parafraseando Paracelso, “a dose faz o veneno”.

Muito comum de se observar, em conjunto com esta falácia, é a do apelo à antiguidade. De alguma forma, há um certo charme nas expressões “tratamento milenar” ou “esta planta já era usada pelos Shamans da América Central no tratamento contra as enxaquecas crónicas”. Soa bem, certo? Este exemplo inventei-o eu a título demonstrativo. No entanto, a planta existe: trata-se de um cacto conhecido por Peiote que contém uma substância química bastante concentrada, que é uma droga alucinogénica, viciante e ilegal chamada mescalina. É certo que nos vai curar as enxaquecas, mas a que custo? É, portanto, preciso ter muito cuidado com as plantas, porque as plantas “são” químicos. Ao mesmo tempo não nos devemos afligir pelo facto do tomate ter nicotina ou as pêras terem uma fonte de formaldeído. Outros tratamentos da antiguidade que estão completamente obsoletos, e não causam melhoria nenhuma ao paciente, estão estranhamente de volta numa altura que, graças aos avanços medicina a sério, temos uma esperança de vida maior – e no entanto as pessoas utilizam-nos por medo dos malfadados químicos. Posso citar alguns exemplos, como as ventosas ou a aplicação de sanguessugas. É um facto que para alívio da dor moderada, estes tratamentos mirabolantes ou massagens terapêuticas baseadas nessas civilizações antigas podem melhorar os sintomas às pessoas que a esses tratamentos recorrem, seja pelo efeito placebo, seja pela acção manual na função músculo-esquelética da pessoa. Eu própria me confesso adepta das massagens relaxantes como forma de reduzir a dor nas costas e da aromaterapia para a minha ansiedade. No entanto, quando é necessário não tenho medo nem do médico nem dos químicos.

O problema grave chega quando os pseudoterapeutas prometem tratar doenças oncológicas ou infectocontagiosas com água cara (o caso da homeopatia) ou com outras balelas similares, só porque têm uma descrição mimosa por trás. Mais grave o é quando se abandona totalmente a medicina, aconselhado pelos pseudo doutores, e quando essa loucura se arrasta às crianças.

Existem muitas e muitas falácias argumentativas. O apelo à emoção é usado muito na televisão. De certeza que todos nós já vimos e ouvimos dos apresentadores (figuras da autoridade) pedirem para ligar para “o número 707… se quer ver os seus sonhos realizados. São 10.000€ em cartão e podem ser seus”.

Portanto, o que havemos nós de fazer, enquanto cidadãos do mundo, perante o perigo de sermos enganados constantemente? Discutir na internet não resulta, pois podemos correr o risco de sermos indelicados e usarmos nós de outro argumento falacioso, o ad hominem, utilizado como contra argumentação, em que em vez de se discutir o argumento, ataca-se a pessoa que argumentou. E isto tanto acontece se a pessoa que proferiu o argumento tem razão ou não. Pessoalmente, já ouvi muitos destes, e passo a citar os que tenho mais presentes em memória: “não tens formação académica, logo não podes discutir este assunto”, “porque é que eu havia de dar ouvidos a uma vendedora de perfumes” ou ainda “a menina é de Cascais logo não pode entender o que é o socialismo”. Esta última confesso que ainda hoje me faz rir.

Então, o que nos resta é insistir na educação das pessoas. Estar atento aos sinais que as falácias lógicas nos dão. Para tal, forneço no fim do texto um link com a lista de todas elas para quem tiver interesse.

Educarmo-nos sempre a nós próprios. O conhecimento é poder e neste caso poupa-nos o dinheiro e a saúde. Devemos sempre rejeitar ideias que parecem rebuscadas ou boas demais para serem verdade. E, por fim, lembrar sempre que a ciência não é uma questão de crença. Não se acredita na ciência pois não há nada para acreditar. A ciência é simplesmente um método e uma ferramenta importante que usamos para percebermos a realidade do universo. A ciência não está contra religiões nem outras crenças, precisamente porque a ciência trata do que é material. Ao longo da história da humanidade muitas foram as descobertas científicas, desde Newton a Darwin, desde Arquimedes a Marie Curie, desde Hedy Lamarr a Alan Turing, todos estes homens e mulheres nos deram o dom de irmos mais além. Atenção às teorias da conspiração. Não apontemos o dedo à indústria farmacêutica de nos querer impingir medicamentos, que até são muitos deles comparticipados, quando os comprimidos homeopáticos vêm de laboratórios que fabricam “açúcar caro”. A medicina não nos quer matar, pelo contrário, quer-nos saudáveis e com longevidade.

Vera Medeiros dos Santos
Lisboa, 24 de Maio de 2019

A lista das falácias argumentativas conhecidas pode ser encontrada neste link.

2 Responstas a “Cepticismo: A Falácia e a Importância do Argumento

  • Há aqui um problema de descrédito: quem vem falar de ciência e de falácias não é cientista, mas assume-se como detentor da verdade. Mas a sua verdade é baseada em notícias que, como tida a gente, leu na internet, não as produziu nem as investigou. O problema disto tudo é que quem vem desconstruir as falácias não tem autoridade para tal porque apenas apresenta a sua versão dos factos e não a sua investigação no terreno, porque, à semelhança de toda a gente, não percebe nada do assunto!. E isto não é uma falácia, são factos!!

    • Não é necessário ser-se cientista para valorizar a ciência e debatê-la. Defender essa atitude é ser elitista.
      A COMCEPT entende que está nas mãos dos cidadãos e cidadãs, independentemente da sua formação, poderem ter acesso a informação fiável e, sim, debater e argumentar sobre ela.

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