Quando os testemunhos pessoais também contam

É frequente encontrar na nossa página, e noutras que se debrucem sobre os temas da ciência e da saúde, a afirmação de que “os testemunhos pessoais não contam”. Mas o que quer isso dizer? Vale para todas as situações? Neste texto iremos reflectir sobre o recurso aos testemunhos pessoais no quotidiano, depois sobre o recurso aos mesmos na área científica e por fim a sua utilização pelas terapias alternativas.

Os testemunhos pessoais e a sociedade
Na actividade científica, os testemunhos pessoais têm uma importância limitada ou até nula. Quando muito, podem servir como ponto de partida para uma pesquisa, mas nunca são suficientes para se tirar uma conclusão. São várias as razões que justificam a desvalorização desse tipo de alegações: os testemunhos pessoais podem ser falseados, podem basear-se em observações ou interpretações erradas, podem ser resultados de vieses, ou podem não ser significativos quando fazem parte de uma amostra alargada, entre outros.

No entanto, na actividade comercial esse tipo de testemunhos são de grande importância, ao ponto de os consumidores confiarem mais na opinião de pessoas próximas e de conhecidos, do que em factos ou dados técnicos. Por isso, esse tipo de testemunhos são frequentemente usados em campanhas publicitárias. No entanto, importa saber como esses testemunhos são obtidos: através de testes de percepção (portanto subjectivos), partir de uma amostra reduzida (portanto não-significativos), seleccionados os testemunhos favoráveis (portanto enviesados), ou até inventados (portanto falseados). Entende-se, assim, a fragilidade da tomada de decisões com base em testemunhos pessoais, embora todos nós o façamos diariamente, principalmente em circunstâncias em que temos de tomar decisões rápidas. Embora o resultado final não seja o melhor, é um processo que nos facilita a vida no dia-a-dia. O pior é quando essa maneira de pensar afecta negativamente a nossa saúde.

Os testemunhos pessoais na ciência e na medicina
Nas áreas científicas – e aqui incluo também as humanidades e as ciências sociais – por vezes os testemunhos pessoais são importantes, embora na maioria dos casos sejam não só irrelevantes como não devem sequer ser tidos em conta. Em disciplinas como a História, a Sociologia ou a Antropologia, os relatos são muitas vezes a base de trabalho, seja no caso da história oral, seja na necessidade de entrevistar pessoas relevantes para a investigação, seja ainda através da elaboração de inquéritos – nestes casos, as opiniões, os relatos, as memórias, enfim, os testemunhos contam, sendo clara a necessidade posterior de cruzá-los com outras fontes, complementar se necessário com dados quantitativos e interpretar os dados.

No entanto, quando passamos para as ciências naturais, médicas, físicas ou afins, “os testemunhos pessoais não contam” (excepção feita para a prática clínica em que se ouve o paciente). Mas o que é que os profissionais da ciência e da medicina querem concretamente dizer com isso? O que se quer dizer é que para testar uma hipótese ou a eficácia de um tratamento, há que realizar experimentação, segundo um determinado método, em condições controladas, fazendo alterar apenas uma variável de cada vez, recorrendo a uma amostra de tamanho considerável. No caso da avaliação de eficácia de um tratamento, pode haver cerca de uma dezena de testemunhos a afirmar que o tratamento resultou, mas se atendendo ao universo alargado da amostra tivermos um resultado contrário, então a conclusão será de que o tratamento é ineficaz. As melhorias reportadas por cerca de dezena de pessoas podem ser atribuídas a outros factores e por isso não servem de prova, são estatisticamente irrelevantes.

Em suma, os testemunhos pessoais podem ser úteis na tomada de decisões, mas não servem para a avaliação e validação de tratamentos. No entanto, é nas terapias alternativas que mais se recorre aos testemunhos pessoais para “provar” que funcionam.

Os testemunhos pessoais e as terapias alternativas
É frequente ouvirmos os utilizadores das terapias alternativas afirmarem que “com eles resultou”, ou que “amigos ou familiares experimentaram e melhoraram”, e os terapeutas alternativos defenderem-se dizendo que “os seus pacientes afirmam sentirem-se melhores” ou que “ficaram curados” após a consulta. Contudo, normalmente não se refere que tipo de doença era, ou se para além da terapia alternativa o paciente também estava a ter tratamento médico, não permitindo concluir com propriedade qual a causa da melhoria.

Apesar de tudo isto, não são relatados resultados negativos do recurso às terapias alternativas. Quer isto dizer que elas funcionam e são seguras? Não. Sobre a sua eficácia já escrevemos muito na nossa página e no nosso livro. Sobre a sua segurança a resposta também é negativa: podem causar malefícios directamente (o consumo de chás ou produtos da ervanária podem levar à interacção planta-medicamento ou a acupuntura pode levar ao colapso do pulmão), ou indirectamente, pois ao não recorrer imediatamente ao cuidado especializado de um médico pode atrasar o tratamento, piorando a saúde ou mesmo levar à morte. O website What’s the harm – Qual é o mal – apresenta alguns resultados negativos que advieram do recurso a estas terapias; mas também a imprensa já se dedicou a este tema, como, apenas a título de exemplo, nestes dois textos publicados no jornal online Observador em 2018 (aqui e aqui).

Porque é que não há mais testemunhos pessoais com resultados negativos? São várias as razões, indo desde pressões por parte dos terapeutas para não divulgarem o que correu mal, por pressão de outros utentes principalmente nas redes sociais, porque as pessoas não querem admitir perante terceiros que foram enganadas, ou vergonha por se ter gasto uma elevada maquia para nada e que por vezes pode terminar em dívidas. Aqui, queremos frisar que apesar de os terapeutas colocarem ao paciente um peso de culpa (por não ter força de vontade suficiente, por não ter as energias certas, por não estar focado no tratamento, etc.), a culpa na realidade é de quem oferece estes serviços, nunca pode ser do paciente, que é uma vítima neste processo. Há que compreender que as pessoas aderem a estas terapias por incentivo social (os tais testemunhos) ou em situações de desespero relacionadas com a sua saúde. Isto é verdade tanto para as terapias alternativas como para outras práticas como suplementos alimentares milagrosos, chás curativos ou rezas.

Por tudo isto, temos vindo a defender que mais pessoas deveriam relatar os seus resultados negativos com estas terapias, não só para contrabalançar com as melhorias fantásticas apregoadas pelos terapeutas e utentes, como também para partilharem experiências, de modo a que os utentes percebam que não estão isolados, que na realidade há um número elevado de pessoas que se deram mal com essas terapias tendo, inclusive, originado consequências graves. Deixamos aqui dois exemplos, com a devida autorização para partilha. Se também passou por experiências idênticas, partilhe-as na caixa de comentários.

Relato de Paulo Gomes:
“[Terapia de Bowen] Já fiz. Para mim não funcionou. E cada sessão eram uns 30 euros…sem comparticipação. Para curar uma contractura muscular no trapézio (de longa duração). A Sra terapeuta desesperou quando percebeu a falta de melhorias… Depois evitava passar faturas… E passava o tempo a pedir que eu lhe recomendasse pacientes… Não posso afirmar que seja treta mas para mim não funcionou e saiu caro…
Acupunctura idem. Não funcionou.”

Relato de Vera Gomes (consulte o seu livro):
“Tenho uma Doença Inflamatória do Intestino há mais de 11 anos. Neste tempo, tive fases muito complicadas que me impediam de ter, não uma vida normal, mas simplesmente de ter uma vida!

Confesso que foi nessas fases de sobrevivência e não vida que recorri a terapias não convencionais. Depois de meses sem que conseguisse melhoras significativas (uma pessoa com auto-imunes quer sempre que a medicação funcione tão rápido como uma aspirina para uma dor de cabeça), estava disposta a tudo! Acreditem que quando temos dores 24/7, as perdas de sangue constantes, a enorme perda de peso abrupta, e quando se chega ao ponto de não conseguir sair do wc ou ter que usar fraldas, fazemos tudo o que nos dizem que nos irá ajudar. O desespero deixou-me vulnerável a qualquer recomendação que prometesse um alívio na agonia. Eu não fui excepção à regra: nessas fases, ou por ingenuidade minha, ou por pressão de pessoas próximas, recorri a terapeutas não convencionais. Fiz homeopatia, naturopatia, acupunctura, reflexologia, iridologia, etc. Sempre em sítios e com terapeutas com as melhores recomendações possíveis. Inclusive, um deles dava aulas na Universidade de Medicina Tradicional. Portanto, o que poderia correr mal, certo?

Pois… errado! Das diversas vezes que fui consultada o discurso era sempre o mesmo: ou muito dissimulado e a incutir medo para os “químicos” e o quão nocivos eram para o corpo; ou então muito explícitos que a medicação me deixaria ainda pior e que deveria deixar os medicamentos que o médico me prescrevia o mais rápido possível. O que é que fiz? Quando a doença cedeu aos tratamentos que o gastroenterologista me prescreveu, e acalmou, deixei de tomar a medicação que o gastro me prescreveu. Afinal de contas, e segundo o terapeuta não convencional, conseguiria controlar a doença só com a alimentação e com sessões de acupunctura e pouco mais. Os meus amigos cépticos bem que me avisaram que estava a cometer um erro, mas eu sentia-me melhor e por isso nem os queria ouvir por achar que estavam a ser mentes fechadas a alternativas que também resultavam.

Um anos mais tarde entrei em crise novamente. A pior de sempre!!!! Nem o facto de na primeira vez que recorri a terapias não convencionais ter acrescentado alguns problemas de saúde à minha lista (por exemplo carência grave de vitamina B12 por causa da dieta que me prescreveram); nem o facto de na primeira consulta que tive com o gastroenterologista que me segue desde então me dizer que, com base nos meus sintomas, tinha passado muito tempo sem tratamento adequado, me dissuadiu de aceitar ver um Naturopata/ Homeopata e Iridolgista.

Foi a última consulta que fiz com uma pessoa das terapias não convencionais. Tinha colonoscopia e endoscopia marcada para daí a dois dias, porque o gastroentereologista pediu para avaliar o meu quadro clínico que, com base no meu historial e sintomatologia, era bastante grave. O Naturopata/ Homeopata e Iridologista foi taxativo: recusar fazer o exame! Nem pensar em fazê-lo e que só me iria prejudicar sem trazer algum benefício. E que bastaria seguir as prescrições dele, cujos “medicamentos homeopáticos” a clínica onde dava consulta vendia (e custavam um balúrdio) para que começasse a sentir melhoras rapidamente. E claro, mais uma dieta de restrição que seria compensada com os suplementos nutricionais homeopáticos. Note-se que este senhor, além de conceituado e altamente recomendado, dá consultas em três clínicas diferentes no norte de Portugal. Com tanta clientela e tão boas recomendações não poderia ser mau profissional, certo? Pois. Mais uma vez: errado!

Fiz a colonoscopia e a endoscopia. Ainda bem que fiz. Porque foi graças aos exames de diagnóstico que foi possível ter uma avaliação correcta do meu quadro clínico e, com isso, começar os tratamentos que o gastroenterologista me prescreveu e que me devolveram a vida. Se demorou a funcionarem? Sim! Se tive percalços? Oh se tive! Mas recuperei a minha vida! Os tão mal amados químicos salvaram-me e, hoje, dentro dos meus possíveis, sou mais saudável do que nunca.”

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