Esta é uma análise crítica ao documentário What in the world are they spraying? (Com que raios estão a pulverizar o mundo?). – Poderá assistir no final deste texto.

Afinal o que são os chemtrails? Devemos preocupar-nos? Estão a esconder-nos algo? Porque é que ninguém fala disto? Estas são algumas das questões levantadas por quem viu o documentário sobre os chemtrails, que tem sido popularizado com recurso à Internet  Este assunto já foi abordado no nosso site, onde tentámos lançar alguma luz sobre o tema (saber mais).

Resumidamente, os proponentes desta ideia defendem que os rastos dos aviões estão a libertar substâncias químicas como Alumínio (Al), Bário (Ba) e Estrôncio (Sr) com o intuito de envenenar a população, tornando-a doente e estéril, com o objectivo final de a controlar. Contudo, isto não passa de afirmações vãs, sem provas, e os rastos que todos vemos no céu são contrails, ou seja, vulgares rastos de condensação. Em suma, os chemtrails não existem, são uma teoria da conspiração.

Mas e as provas apresentadas no documentário? – Pode perguntar quem assistiu.
Na realidade, não são apresentadas quaisquer provas. Apenas assistimos a afirmações sem sustentação, uma astuciosa montagem associando o que está a ser dito com imagens que não estão relacionadas, e um mau uso da ciência. Irei demonstrar o que estou a dizer.

Parte I – As premissas
Este documentário assenta nas seguintes premissas: a) existem chemtrails, b) estão a ser libertados químicos para a atmosfera, c) já foram medidos os valores desses químicos no solo e na água. Daí vem a conclusão de que os químicos identificados já estão a prejudicar o ambiente e a saúde.
Acontece que as três premissas apresentadas são falsas, logo, a conclusão é inválida.

Parte II – As alegadas provas
Nos dois primeiros minutos é mencionada a existência dos chemtrails. Repare-se, no entanto, em dois aspectos: são apenas afirmações sem provas; e essa informação não é transmitida por especialistas, mas por cidadãos e repórteres.

O encontro com os cientistas, jornalistas e legisladores dá-se logo a seguir, na conferência da American Association for the Advancement of Science (Associação Americana para o Avanço da Ciência), em San Diego, Califórnia. Um dos tópicos debatidos era a alteração artificial do clima, com recurso à geoengenharia, para prevenir o aquecimento global. Desta parte até aos cerca de 15 minutos apercebemo-nos de muita coisa: segundo os cientistas, a geoengenharia está em fase de testes em locais específicos, ou seja, está-se a fazer investigação e não é algo que esteja a ser implementado globalmente em grande escala; reparamos também que as afirmações dos cientistas estão “truncadas”, isto é, foram seleccionadas e posteriormente retiradas do contexto. Quando os promotores dos chemtrails se reuniram numa mesa para sintetizar as ideias da conferência, aproveitaram o que os cientistas mencionaram da geoengenharia e misturaram com ideias próprias de teorias da conspiração, sobre despopulação e controlo das pessoas, algo que nunca foi falado, e que eles não provaram, para passar a sensação ao espectador de que os assuntos estão relacionados. Esta sensação é reforçada com imagens de aviões deixando rastos[1]. 

– Entrevista com G. Edward Griffin (aos cerca de 15 minutos)
Griffin é apresentado como autor de vários livros. Logo aqui temos duas situações que nos pedem cautela: a) muitas das suas obras estão no âmbito das teorias da conspiração, nomeadamente o livro World Without Cancer, que já foi refutado pela comunidade médica; b) para além de escritor, deveriam tê-lo também apresentado como realizador do próprio documentário, pois ao omitirem este facto revelam desonestidade intelectual.
Griffin também não avança com muitas explicações. Esclarece que cresceu junto de um aeroporto e por isso sabe detectar as diferenças entre contrails e chemtrails, e essa diferença está na intensidade e duração dos rastos (só não explica que essas diferenças se devem às condições atmosféricas, e ambos os casos correspondem a contrails).
Pouco depois diz:

É preciso ter a mente aberta para chegar à conclusão que alguém está disposto a gastar muito dinheiro e esforço para pulverizar o planeta. A questão é porquê? Eu tenho as minhas teorias mas espero que haja bons repórteres que vão por aí e que nos dêem as respostas.

– o meu comentário é que não é preciso ter a mente aberta se querem que este assunto seja levado a sério, são precisas provas. Provas que mais uma vez não são apresentadas.
Já no final diz que os chemtrails também são vistos noutros países, que são um fenómeno internacional. Claro que é, são rastos de aviões.

– Entrevista a Dane Wigington (aos cerca dos 22 minutos)
Já tinha surgido no início do documentário. Para colocar alguma credibilidade no que vai afirmar, usa da falácia apelo à autoridade, salientando que é perito em energia solar, e mostrando que a sua casa já foi capa de uma revista de eficiência energética [2]. Isto faz dele, aparentemente, uma autoridade em análises químicas [3]. O seu objectivo é alertar a população sobre a grande quantidade de tóxicos que estão a cair sobre as pessoas. Infelizmente, os dados e análises que apresenta ou estão errados ou foram mal interpretados. É o risco que se corre quando se aborda uma área que não é da especialidade. As correcções às afirmações de Wigington podem ser consultadas aqui

– Entrevista a Francis Mangels (aos cerca de 25 minutos)
Um dos erros foi medir o pH do solo com uma fita medidora de pH que tem a indicação que só deve ser usada em testes in vitro. Aliás, este modelo em particular é utilizado para análises de pH de saliva e urina. Para além disso, as análises ao solo têm um procedimento laboratorial, não se recorre a fita medidora de pH. 

Figura 1 -imagem do documentário referente ao uso da fita de pH que deveria ser usada apenas para análises in vitro (daqui)

Mangels diz que as colheitas diminuíram, mas os dados oficiais indicam que aumentaram. 
Por esta altura (dos 29 aos 31 minutos), mostram os resultados das análises químicas e salientam os resultados do alumínio que, segundo eles, ultrapassam em muito os valores normais. Contudo, na realidade cometem um erro crasso com as unidades: confundem partes por milhão (p.p.m.) com micrograma por litro (µg/L), quando na realidade 1 p.p.m. = 1000 µg/L.
Por exemplo, cerca dos 30 minutos, aparece a imagem dos resultados do Al com uma concentração de 375.000 µg/l, a que eles se referem como p.p.m., quando na realidade são apenas 375 p.p.m. Portanto, a afirmação de que estamos em contacto com uma concentração de metais milhares de vezes elevada são se verifica.
Quando são apresentados dados com valores tão desconcertantes, devemos ficar de sobreaviso. Mas mesmo que a concentração fosse a mencionada, não é possível estabelecer uma relação causa-efeito directa entre poluição da água e alegadas pulverizações atmosféricas, principalmente quando poderá haver outras causas mais prováveis.
Outras refutações podem ser consultadas aqui

– Entrevista ao Dr. Lenny Thyme (cerca de 31 minutos)
Eu acho o resultado desta entrevista muito estranho. Thyme é cientista na área da química, mas diz no documentário que o óxido de alumínio é tóxico e prejudicial à vida, e que é acumulativo. Isto não é totalmente verdade. De facto, o Al encontra-se na natureza no estado oxidado, e o ser humano possui uma dose semanal tolerável de cerca 1 mg por kg de massa corporal, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Outro facto que me causa estranheza é as afirmações dele serem contraditórias com uma entrevista dada a Jay Reynolds, do site metabunk.org.

– Na entrevista à Dra. Tammy L. Born ela afirma que não se devem colocar toxinas no ambiente, referindo-se ao Al. No entanto ele faz parte da natureza: 7% da crosta terrestre é composta por esse metal.

– Wigington surge novamente para dizer que é inegável que o alumínio está a cair sobre nós, que não é especulação. (cerca 33 minutos) Mas até agora não foi apresentada nenhuma prova convicente.

Entrevista a Karen Johnson – antiga senadora do Estado de Arizona (cerca de 37 minutos) 
Tem um discurso alarmista sobre a pulverização aérea de Al, defende que essa é a causa do aumento da doença de Alzheimer, defende que existe uma conspiração global para adoecer deliberadamente as pessoas, e que são os “donos do mundo” que estão por de trás disso. Claro que não apresenta nenhuma prova para qualquer destas afirmações mirabolantes.

– Viagem para o Hawai (cerca dos 45 minutos)
Quando chegam ao Hawai dirigem-se a uma quinta orgânica num local remoto do Maui, onde as casas recorrem a energias renováveis. Toda aquela parte da ilha pretende simbolizar um local paradisíaco.
Segundo o entrevistado, os chemtrails são dispersos ao largo da costa e devido aos ventos, os químicos são levados para terra.
Perscrutando o céu, um dos habitantes entrevistado diz que os rastos dos aviões escureceram o céu azul conferindo-lhe uma cor prateada e que os impossibilita de verem as estrelas à noite. Curiosamente, o que a câmara regista são nuvens normais, como, aliás, já fez mais vezes ao longo do documentário.
O que preocupa o habitante é o facto de o tronco dos coqueiros estar mole, mostrando que a casca sai facilmente, algo que acha que não é normal. Para estabelecerem uma relação entre a alegada doença da árvore e os chemtrails voltam a filmar o céu, onde se vêem, novamente, nuvens normais. Assumindo que a árvore tem um problema, é mais provável que sejam outras as causas do que os químicos dos rastos dos aviões dos quais não há provas. Como causas alternativas, posso apontar insectos parasitas, fungos, alterações químicas do solo devido à agricultura, entre outras.

Uma rapariga residente na quinta orgânica do Maui (cerca dos 49 minutos) influenciada pelos amigos pediu uma análise ao cabelo da filha, e os resultados demonstraram grandes concentrações de Al.
Eles próprios dizem que estão num paraíso: com uma quinta orgânica e sem nunca ter tomado vacinas, a menina deveria estar saudável, logo o Al só pode ter vindo das nuvens. Só vou comentar esta parte para dizer que se a mãe nunca vacinou a filha, isso diz muito do tipo de filosofia daquela comunidade, ou seja, que têm uma postura anti-científica. Talvez por essa razão aceitam de ânimo leve estas ideias dos chemtrails.

Daqui até ao final, assistimos a uma catadupa de entrevistados que são teóricos da conspiração, senão vejamos:

a) Peter Vereeke (59:50) – antigo Presidente de Câmara, Evergem, da Bélgica 
Para além de falar muito de si, diz que há provas científicas a favor dos chemtrails. No entanto, uma vez mais, não diz quais são essas provas, e as imagens que passam são de aviões deixando os seus rastos normais de condensação;
b) Desiree Rover, uma jornalista de medicina, defensora do movimento anti-vacinas e que afirma que a pandemia de gripe foi uma conspiração judaica, diz que estamos a ficar estupidificados, mais doentes e inférteis. Eu discordo: há cada vez mais pessoas licenciadas, o conhecimento e a tecnologia aumentaram, a esperança média de vida aumentou, assim como a população mundial;
c) Coen Vermeeren, professor na Universidade de Tecnologia de Delft, e defensor da existência de ovnis, vai falando para depois dizer que não sabe explicar.

Por volta da 1h 12min,telefona ao amigo Jeremy Rothe-Kushel que lhe diz que em Washington os políticos vão dizer que não sabem nada do assunto. Esta informação é corroborada por Griffin, que espera que os políticos criem dificuldades no acesso à informação e que são inimigos. Deste modo, contribui para uma sensação de conspiração governamental.
Obviamente que no congresso os deputados não lhes prestaram atenção, e os que decidiram falar refutaram a afirmação de que havia provas abundantes a favor dos chemtrails. Adoptaram a postura correcta, que foi mostrar cepticismo sobre o que estava a ser dito até poderem examinar dados e provas. Mesmo assim, como a montagem do documentário foi feita continua a passar a ideia de conspiração governamental.

Conclusão
Num texto anterior expliquei porque é implausível a ideia dos chemtrails. Neste texto, abordei o documentário que está a ser visto por milhares de pessoas e demonstrei que não é credível por falta de provas, apoiando-se apenas em afirmações injustificadas e em jogos de montagem que cruzam o que está a ser dito com imagens independentes.

Deixo aqui a versão legendada em português. A versão original pode ser consultada aqui e já conta com mais de 940 mil visitas.

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[1] – Nota curiosa: alegadamente os chemtrails duram várias horas, repare-se então na imagem, cerca de 13 minutos, em que o rasto é de curta duração.

[2] – Apesar de ele não escrever para a revista.

[3] – A revista é: https://homepower.com/experts-directory

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