VACINAÇÃO – A verdade não oculta

Propaganda, mentiras e vídeo. O movimento anti-vacinação em análise

Em Portugal parece não existir um movimento anti-vacinação organizado como noutros países. É preciso pesquisar muito na Internet para encontrar alguém que se oponha oficialmente às vacinas pelos alegados efeitos secundários e perigosos. Existem, no entanto, vestígios discretos deste pensamento, por vezes escondidos nas caixas de comentários de jornais online, ou mesmo aqui na COMCEPT ou mais declarados em alguns artigos ou páginas web.

Mesmo sem existir um movimento com uma presença sistemática na Internet em Portugal, uma procura básica por “Perigos das vacinas” trás à luz uma série de links para blogs e artigos vindos do Brasil onde o movimento anti-vacinação parece ter mais força.

E talvez seja por isso que no mês passado, um blog português tenha rebuscado um vídeo de 1998 e traduzido para português do Brasil para fazer uma advertência: “Convém ouvir os dois lados….”

E o que o outro lado nos diz é terrível. Fomos enganados durante anos a fio. Os documentos, as frases sinistras, a grande conspiração, aquilo que eles não querem que se saiba, está tudo encerrado num vídeo do Youtube e se está no Youtube é porque é verdade!

http://www.youtube.com/watch?v=H4bhwgXsbzA&feature=share&list=PLGUYmDxyn_JBk24eJ7Iy5KrKaeifGNdAd

Vacinação: a verdade oculta (em inglês, The Hidden Truth) é o título perfeito. É  preciso perder horas e dias, paciência e ter muita habilidade para tentar descodificar o que é dito, procurar e cruzar referências para encontrar a verdade. Este post é, no entanto, apenas uma selecção de alguns casos mais flagrantes, não uma análise intensiva de tudo o que é dito (na grande maioria sem suporte documental). 

Mesmo não sendo recente, este documentário serve como paradigma da propaganda e desinformação irresponsável que circula pela Internet. Foi produzido por uma organização anti-vacinação australiana e, passados 15 anos, os argumentos não sofreram grandes alterações.

O formato não difere muito de outros documentários. São pequenas entrevistas a várias pessoas, quase todas com currículos nas áreas das terapias não convencionais e não faltam os casos pessoais para apelar à emoção. O vídeo pretende responder e “esclarecer” as seguintes questões:

O que é a vacinação?
1. É eficaz?
2. Mecanismos e ingredientes
3. Efeitos reais
4. Porque continua
5. Direitos legais
6. Enfrentando os danos
7. Verdadeiro caminho para a imunidade

O movimento anti-vacinação tem dificuldades em ultrapassar o sucesso das vacinas. Por isso, uma das técnicas mais recorrentes para introduzir a dúvida é, primeiro, minar a ideia que as vacinas são responsáveis pela eliminação de doenças graves; segundo, minimizar os efeitos das doenças que as vacinas eliminaram ou reduziram.

As vacinas são responsáveis pela redução de doenças infecto-contagiosas?

Numa série de comentários, os vários entrevistados vão relatando vários casos que parecem indicar que as doenças como sarampo, rubéola, papeira, tosse convulsa e difteria estavam a desaparecer antes de qualquer vacina ter sido introduzida.

Mortes devido a complicações por doenças como sarampo, rubéola, papeira, tosse convulsa, difteria  caíram 90% antes de qualquer vacina ter sido introduzida.” Viera Scheibner Parte 1

As mortes causadas por algumas destas doenças infecto-contagiosas parecem realmente ter diminuído antes da introdução das vacinas. Note-se no termo, as mortes, não a incidência da doença. A melhoria geral das condições de vida, de higiene e saneamento e acima de tudo, os avanços da medicina, a introdução de antibióticos e outros tratamentos, tudo isto contribuiu para a diminuição das mortes derivadas de complicações por estas doenças.[1] [2]

Mas, quando observamos a incidência de doenças infecto-contagiosas após a introdução das vacinas, é bastante evidente. Veja-se os casos da difteria, tosse convulsa (ou pertussis) ou sarampo nos Estados Unidos. 

A incidência de Hib (meningite por Haemophilus influenza) em crianças menores de 1 ano estava a diminuir antes da introdução da vacina para esta idade.”  Viera Scheibner – parte 2

Imagem captada do vídeo - Vacinação: A verdade Oculta
Imagem captada do vídeo – Vacinação: A verdade Oculta

O gráfico mostra-nos claramente que a incidência da doença por Haemophilus influenzae começa a diminuir após a introdução da vacina. Esta diminuição não pode ser explicada por outros factores como nutrição ou melhores condições de saneamento e higiene porque não houve assim tantas diferenças entre as décadas de 80 e 90. Então há que provocar a dúvida quanto à incidência da doença entre crianças com menos de um ano de idade (as mais susceptíveis de sofrer com a doença).

O risco de uma doença infecto-contagiosa depende da probabilidade de exposição à bactéria ou vírus. E as crianças em fase pré-escolar são as mais susceptíveis de contrair esta bactéria. Segundo dados do CDC a doença não é comum após os 5 anos de idade, supondo-se que a imunidade à doença aumenta com a idade. Assim, se existe um maior número de crianças vacinadas a partir dos 2 anos é natural que o número de crianças com menos de um ano de idade reduzam igualmente. [3]

Há 3 momentos indicados no gráfico que mereciam uma explicação se este “documentário” tivesse a intenção de ser honesto. As primeiras vacinas contra a Hib, foram licenciadas nos EUA em 1985. Esta vacina não era apropriada para crianças com menos de 18 meses de idade. 5 A primeira vacina conjugada e passível de ser administrada a crianças com menor idade foi licenciada no final de 1987, mas só a partir dos inícios dos anos 90 a vacinação para crianças com 2 meses começou a ser recomendada.[4]

O sarampo, por exemplo, estava quase extinto na Europa quando começaram os programas de vacinação.  Os casos aumentaram novamente.” Pauline Rose – parte 2

Measles incidence England and Wales 1940-2007 Fonte: WikiCommons
Measles incidence England and Wales 1940-2007
Fonte: WikiCommons

As doenças infecto-contagiosas têm picos de actividade. E como este gráfico mostra, a incidência de sarampo em Inglaterra e no País de Gales, diminui com a introdução da vacina e os picos desaparecem com a introdução da vacina tríplice. É claro, que nunca se fala no realmente sucede quando há uma quebra na vacinação.

As vacinas são eficazes?

“Epidemias em populações eficazmente vacinadas são a regra não a excepção.” Viera Scheibner – parte 2

Afirma-se que as pessoas vacinadas não estão mais protegidas que aquelas que não foram vacinadas. Não sabendo explicar o que é a imunidade de grupo dá-se o exemplo de um surto de sarampo numa comunidade no Texas, Corpus Christi na primavera de 1985, mesmo sendo a vacinação obrigatória. Note-se a menção de percentagens de vacinados, não há menção de quantas pessoas foram realmente infectadas.

Antes de mais, um surto é diferente de uma epidemia. Por outro lado, o facto da vacinação ser obrigatória não significa que toda a gente está vacinada. Existem isenções médicas, religiosas e filosóficas nos EUA.

Apesar das vacinas serem eficazes, nem todos os indivíduos respondem da mesma maneira à vacinação, não criando anticorpos capazes de combater a infecção. Por esse motivo e porque existem pessoas com o sistema imunitário comprometido, é recomendado manter os níveis de vacinação de uma população acima dos 95%, de modo a conter um possível surto. A isto chama-se imunidade de grupo (Herd immunity)

O estudo que Viera Scheibner cita deve ser este. Como seria de esperar, cita só a parte que lhe interessa. Só tenho acesso ao resumo, mas é suficiente para este caso servir de exemplo a favor da vacinação do maior número de pessoas e não do contrário.

Neste caso específico, a grande maioria dos estudantes das duas escolas estava realmente vacinada (99%), mas dos 1806 estudantes, 74 não tinham criado anticorpos contra o sarampo apesar de terem sido vacinados. Desses 74, apenas 14 contraíram a doença. Nenhum dos 1732 que desenvolveram anticorpos contra o sarampo contraiu a doença. [5]

Caso da comunidade Amish – que recusa a vacinação por razões religiosas – não reportou nenhum caso de sarampo entre 1970 e 1988.” Viera Scheibner – parte 2

A comunidade Amish nos Estados Unidos é uma comunidade extremamente isolada e reduzida. Não sei até que ponto será de esperar que a comunidade reporte casos de sarampo ou de qualquer outra doença às autoridades. Por outro lado, o facto de estar relativamente isolada e mesmo tendo contacto com populações vizinhas (estando estas imunizadas), a probabilidade surgir um surto de uma doença infecto-contagiosa será menor que outra que tenha uma maior mobilidade.

De qualquer maneira, um relatório sobre políticas de vacinação indica que durante o período de 1985-1994 houve surtos de sarampo em grupos religiosos que se opõem à vacinação. Surtos de poliomielite  (nos anos 70), tosse convulsa, rubéola foram detectados entre comunidades Amish.[6]

Scheibner não indica qualquer razão para o período 1970 – 1988, mas tenho a certeza que o limite se prende porque existe um caso que destrói o seu argumento.

Houve uma grande epidemia de varíola nas filipinas (…) Foi claramente demonstrado que as únicas pessoas que contraíram varíola duas vezes foram as que tinha sido vacinadas. Dr. Archie Kalokerinos 2ª parte

Não há qualquer indicação da data e como poderemos consultar as estatísticas que Kalokerinos afirma que podem ser consultadas. As referências que encontrei apontam para sites anti-vacinação e depois de alguma insistência encontrei uma refutação ao movimento anti-vacinação de 1922 e que faz alusão à campanha de vacinação nas Filipinas.

Redução de 99% da incidência das 3 doenças foi acompanhada por uma taxa crescente de diagnósticos “falsos positivos” (…) As crianças continuaram a contrair as doenças, mas foram diagnosticadas como “falsos positivos”. Viera Scheibner – parte 4

Segundo o vídeo, a razão pela qual as vacinas aparentam ter muito sucesso tem a ver, acima de tudo, com alterações de significado das palavras e de diagnóstico. Num dos exemplos, o estudo citado por Scheibner apresenta os resultados na eliminação de sarampo, papeira e rubéola na Finlândia. A frase citada é retirada do resumo e Scheibner não percebe o que são “Falsos positivos”.

O que se pode ler é que após o programa de vacinação apenas 0.8% dos casos clinicamente diagnosticados foram confirmados serologicamente. Ou seja, todos os restantes casos eram falsos positivos, casos de doenças que se assemelhavam ao sarampo, mas não eram sarampo. [7] O mais irónico é que, um pouco mais à frente, um dos intervenientes atribui a culpa aos novos surtos de doenças a falsos casos que não são confirmados em laboratório. 

Em 1975 Japão parou de vacinar crianças com menos de 3 anos de idade – passou do 17º lugar para o país com mais baixo índice de mortalidade infantil do mundo. 13 anos mais tarde a idade mínima baixou para 3 meses  e a tendência imediatamente retrocedeu” Bronwyn Hancock – Parte 5

Tenho muitas dúvidas quanto a esta afirmação, já que uma procura neste sítio e num período entre 1988 e 2004, a tendência descendente tem sido constante até à actualidade.

Fonte: Trading Economics
MORTALITY RATE; UNDER-5 (PER 1;000) IN JAPAN
Fonte: Trading Economics

Pelo que consegui averiguar, houve uma interrupção na vacina contra a tosse convulsa (pertussis), não contra todas as vacinas. Não se menciona obviamente o resultado desse abandono: uma epidemia de pertussis em 1979 com mais de 13000 casos e 41 mortes. O Japão retomou a vacinação contra a tosse convulsa em 1981.[8]

Tosse convulsa, sarampo, papeira, rubéola, varicela – são doenças perigosas?

Em 1978-79 84% das crianças suecas que contraíram a pertussis tinham sido vacinadas, (…)por isso, a vacina foi suspensa. Durante os 10 anos seguintes, não houve incidência abaixo da idade de 6 meses. 90% dos casos ocorreu entre os 2 e 10 anos, onde não é fatal.” Viera Scheibner

Neste estudo percebemos que as coisas não são assim tão simples.  Na introdução podemos ler que a vacinação na Suécia contra a tosse convulsa foi introduzida nos anos 40. Durante a década de 60, grande parte da população (90%) estava vacinada e a incidência da doença era rara. Nos finais dos anos 70 houve realmente um surto de tosse convulsa que parece estar relacionado com uma alterações na produção da vacina e com suspeitas de falta de eficácia.[9]

Não consegui encontrar o gráfico ou o estudo que é mencionado no vídeo. Mas não deixa de ser surpreendente que se opte por ocultar o resultado dos surtos de tosse convulsa em 1983 e 1985, após o abandono da vacinação. Entre 1981-1983 mais de 2000 pacientes foram hospitalizados e destes, 48% eram crianças com menos de 1 ano. 4% tiveram complicações neurológicas e 14% pneumonia. 11 crianças receberam ventilação assistida e 3 crianças morreram. [10]

Scheibner diz que a Tosse convulsa “só é uma doença potencialmente desagradável abaixo dos seis meses de idade”. A morte é potencialmente desagradável… 

Outras doenças [11] com consequências desagradáveis: 

Poliomielite – Sintomas não específicos ligeiros tais como febre, dor de garganta, dores musculares, diminuição do apetite, mal-estar, náuseas, vómitos, dor abdominal, obstipação ou diarreia; • Poliomielite não-paralítica com meningite asséptica: Após os sintomas iniciais de doença menor, ocorre inflamação das meninges com queixa de dores de cabeça, vómitos, dores no pescoço, costas, membros inferiores e rigidez da nuca; Poliomielite paralítica ou doença maior: destruição de neurónios motores, o que resulta em paralisia flácida aguda dos músculos por eles inervados. Pode afectar um ou vários músculos. Na poliomielite espinhal há dor muscular intensa, seguida de fraqueza e paralisia que é habitualmente assimétrica.

Papeira – A manifestação mais comum é o “inchaço” da parótida, que usualmente é unilateral no início da doença, mas que se pode tornar bilateral em 70% dos casos. Esta doença pode complicar-se por infecção de outros órgãos, principalmente envolvimento do testículo e do sistema nervoso central, causando orquite, meningite e encefalite.

Sarampo –  Otite média aguda;  Pneumonia – A pneumonia pode ser uma complicação grave e até mortal, principalmente se má-nutrição e nos extremos da vida. Pode ser grave e por vezes mortal; Encefalite – A encefalite é uma complicação rara (1 caso por 1000), mas associada a elevada morbilidade e mortalidade; Panencefalite esclerosante subaguda – É uma encefalite lenta que surge 1 caso em 1 milhão de casos de Sarampo, meses ou anos após a fase aguda do sarampo. Numa primeira fase surgem alterações do comportamento e intelectuais e após surgem alterações motoras, convulsões, coma e morte.

De todas as declarações, esta é mais desonesta e irresponsável. Dizer que estas doenças fortalecem o sistema imunitário e que devem fazer parte do desenvolvimento normal de uma criança é ridicularizar as milhares de crianças que sofreram ou morreram ao longo da história. No final do vídeo ainda há tempo para oferecer os serviços de terapias não comprovadas – mas a que curiosamente praticamente todos os intervenientes estão ligados profissionalmente. O caso da homeopatia é gritante.

Depois de ter passado alguns dias a tentar encontrar os documentos que são mencionados, percebo porque é que estes vídeos de propaganda têm tanto sucesso. A maioria das pessoas não se dá ao trabalho de analisar tudo o que se diz, especialmente porque este formato não é o ideal para incluir referências (mas não é impossível). E para o público-alvo, a imagem aparente de um “especialista”, umas meias-verdades, e uns quantos gráficos mal interpretados, é suficiente. Nem é preciso pensar muito, basta olhar.

Fica muito por dizer, nomeadamente quanto a alegados efeitos secundários graves e aos ingredientes das vacinas. Ficará para um próximo episódio.

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FONTES

[1] Vaccines didn’t save us” (a.k.a. “vaccines don’t work”): Intellectual dishonesty at its most naked

[2] Diseases had already begun to disappear before vaccines were introduced, because of better hygiene and sanitation.

[3] Epidemiology and Prevention of Vaccine-Preventable Diseases: Hib

[4] Vaccine-Preventable Diseases and Immunization Coverage in California 2001-2006 – PDF

[5] Measles outbreak in a fully immunized secondary-school population

[6] Vaccination Mandates: The Public Health Imperative and Individual Rights – PDF

[7] The Elimination of Indigenous Measles, Mumps, and Rubella from Finland by a 12-Year, Two-Dose Vaccination Program

[8] Impact of anti-vaccine movements on pertussis control: the untold story

[9] Whooping cough in adults – PDF

[10] Pertussis in Sweden after the cessation of general immunization in 1979.

[11] Vacinas – em português

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