Chemtrails III – Responsabilização

Está na altura de responsabilizar os promotores de teorias da conspiração pelas consequências das suas mensagens?

Já aqui muito se falou sobre a teoria da conspiração dos “chemtrails” (primeiro neste post e, depois, neste). Já explicámos do que se trata, por que é que o documentário mais difundido não tem credibilidade e respondemos aos comentários dos nossos leitores. No entanto, e apesar de tudo, eis que este tema volta a surgir na opinião pública em duas situações distintas: uma suposta confissão no site Tugaleaks, e uma notícia preocupante num periódico australiano.

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US Navy Blue Angels
Aviões a jacto em formação – “Blue Angels” da Marinha Americana

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No Tugaleaks 

O site Tugaleaks publicou um comunicado em que parece dar a entender que uma entidade do Governo Português assume a existência de “chemtrails” – o título é dúbio. O que, de facto, essa entidade diz, é o mesmo que nós aqui já dissemos: ou seja, que os “chemtrails” não são reconhecidos pela ciência e que os rastos dos aviões são, na realidade, contrails (rastos de condensação). Já agora, a entidade em causa pertence ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a explicação que dá no comunicado é bastante clara quanto ao que diz.

Apesar desta explicação de uma entidade oficial, o Tugaleaks continuou a dar voz aos teóricos da conspiração, através de um Carlos, de uma activista não identificada do Algarve e de uma alegada denúncia por parte de Edward Snowden. Neste último caso, o Tugaleaks não cita a fonte, como deveria ter feito. Apesar disso, fiz uma pesquisa no Google que me remete para uma notícia com o título “Snowden uncovers shocking truth behind Chemtrails” (“Snowden revela a verdade chocante por trás dos Chemtrails”), do jornal The Internet Chronicle. Acontece que, se lermos a secção “About” (Sobre) deste site, ficamos a saber que se trata de um jornal que escreve sátiras, ao jeito do The Onion ou d’ O Inimigo Público.

Quanto aos teóricos da conspiração, repito a pergunta: onde estão as evidências de que os rastos dos aviões são mais do que isso? Já fizeram análises quantitativas à atmosfera  à água e ao solo? E, caso os resultados derem positivo, conseguem estabelecer, sem sombra de dúvida, uma relação causa-efeito? Pois é, enquanto não conseguirem, tudo isto não passa de uma crença infundada, pura especulação.

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Notícias vindas da Austrália

Esta notícia, apesar de ser de Novembro de 2012, recupera a sua actualidade atendendo às afirmações agora feitas pelo Tugaleaks. Segundo o que é noticiado, os pilotos de aviões na Austrália têm sofrido várias ameaças por parte de activistas anti-“chemtrails”. Estes activistas, para além de ameaças, pretendem confrontar directamente as tripulações dos aviões, para saberem porque é que eles estão coniventes com a pulverização global com o intuito de envenenar as pessoas, segundo crêem. Quando os proponentes destas ameaças foram questionados sobre que provas possuíam que os levasse a crer na existência dos “chemtrails”, a resposta foi que as evidências são esmagadoras e podem ser encontradas nos vídeos do céu no YouTube (!!). Quando a um teórico da conspiração perguntaram se tinham alguma prática em ciência que lhe conferisse autoridade, a resposta foi que tal não era preciso pois “ele tinha aberto os olhos e visto no céu. Os seus olhos não mentiam”. Bom, ainda alguém me há-de explicar como é que apenas olhando para o céu se consegue identificar a presença ou ausência de certos químicos.

Mas o mais grave disto tudo, como se percebe pela notícia, é que parece que estamos perante uma alucinação que rapidamente se aproxima de uma histeria colectiva e começa a ter consequências preocupantes. Admitamos, diz-nos o bom senso que quando chegamos a um nível em que se fazem ameaças graves a outras pessoas, o assunto torna-se muito sério. Por isso, acho que está na altura de ver os promotores das teorias da conspiração, ou das pseudo-ciências, a serem, de algum modo, responsabilizadas quando prejudicam os outros.

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