Vacinas, Mercúrio e Autismo

"Casos de autismo baixam radicalmente com a retirada do mercúrio das vacinas" - Um mito da propaganda anti-vacinação em análise.

O oncologista e blogger norte-americano David Gorski tem uma expressão para o ressurgimento de velhos mitos que ressuscitam após largos anos de obscuridade: Meme-Zombie.

O mesmo parece suceder com uma página na internet que regularmente ressuscita textos  escritos por outrem naquilo a que chama “uma aproximação quântica à informação”. Na passada 3ª feira, foi publicado um desses textos, “Casos de autismo baixam radicalmente com a retirada do mercúrio das vacinas“, uma tradução de outro, escrito em inglês. Como o texto original de 2006 indicava que se tratava da notícia sobre um estudo recente, não coube na cabeça de quem copiou e traduziu o texto fazer sequer uma alusão à data do estudo, dando a ideia que se tratava realmente algo recente*.

Não é, no entanto, a data da “notícia” que é o mais importante. O que realmente interessa é que este tipo de artigo só serve para provocar medo, espalhar mentiras e falsidades e incitar à não vacinação.

A “notícia” dá-nos conta que um estudo publicado numa revista científica demonstra que, ao contrário do que tem sido veiculado pelas entidades oficiais, o índice de autismo tem diminuído após a retirada do timerosal das vacinas.

Durante os anos 90 começou a circular nos Estados Unidos a ideia que as vacinas que continham o conservante timerosal causavam danos neurológicos nas crianças e que seria essa a causa do Transtorno do Espectro Autista. Após um longo debate, por decisão política, o timerosal foi retirado da maioria das vacinas (hoje em dia algumas vacinas contra a gripe continuam a usar este conservante, embora existam outras variantes sem esta substância).

O uso deste conservante nas vacinas é necessário para os casos em que as vacinas sejam armazenadas em recipientes multi-doses. Nestes casos, o acesso regular a estes recipientes podem constituir fontes de contaminação e daí que seja necessário um conservante de maneira a matar bactérias que possam contaminar as vacinas.[1] 

O timerosal é degradado no organismo em etilmercúrio – um derivado menos tóxico do mercúrio – e outra substância, o tiosalicilato. Antes da introdução nas vacinas este conservante foi testado várias vezes em animais e depois em adultos e com doses bastante superiores daquelas usadas nas vacinas. Após a introdução de timerosal nas vacinas, as infecções causadas por contaminação de vacinas diminuíram drasticamente. [1] [2]

No entanto, o número de vacinas nos planos nacionais de vacinação aumentou e com isso, aumentou também a quantidade de timerosal que as crianças recebiam. As normas de segurança que estabeleciam o que era uma dose aceitável de mercúrio reportavam-se ao metilmercúrio (o mercúrio existente, por exemplo, em várias espécies de peixe). 

Paul Offit esclarece a diferença, aparentemente insignificante de único grupo metil, através de uma analogia com o metanol – “a sua dose letal é de 0,07 gramas por Kg de massa corporal, o que quer dizer que meia colher de sopa de metanol é suficiente para provocar a morte de um indivíduo de 60 kg” – e o álcool etílico ou etanol – capaz de provocar ressacas.

Tendo em conta os perigos da contaminação por mercúrio e sem estudos, na altura, que pudessem avaliar o impacto do etilmercúrio dado a crianças, optou-se por uma medida de precaução, com suporte unicamente teórico e sem evidência de risco: retirar do mercado todas as vacinas que continham timerosal. 

Não foi uma decisão isenta de polémica, já que foi uma medida tomada apenas com base numa hipótese e parecia confirmar que as vacinas não eram seguras. Na altura representantes do CDC (centro de controlo e prevenção de doenças dos EUA) alertaram: “É possivel que muitas crianças nascidas nos anos 90 e que tenham desordens neurológicas de causa desconhecida, venham agora culpar o mercúrio nas vacinas pela sua doença.”[1]

Se o etilmercúrio fosse a causa da síndrome do autismo, seria de esperar, então, que a retirada deste conservante das vacinas tivesse impacto no número de diagnósticos de crianças com autismo. Mas tal não aconteceu. Os números da incidência de autismo têm continuado a aumentar, mesmo sem timerosal. Alguns dos estudos que analisaram esta questão podem ser consultados na lista de referências. 

E então este estudo de 2006 que diz exactamente o contrário? 

Para avaliarem o índice de ocorrência de autismo, Mark e David Geier recorreram aos dados da VAERS – Vaccine Adverse Event Reporting System – É um sistema que permite a recolha de informação de possíveis reacções adversas da vacinação.  É especialmente importante para monotorizar posíveis efeitos secundários e, após investigação desses casos, tomar as medidas necessárias para a minimização desses efeitos (que podem chegar à retirada do mercado de uma determinada vacina). Esta informação é fornecida voluntariamente por qualquer pessoa. E qualquer pessoa pode reportar qualquer incidente sem que haja pre-requisitos ou seja submetido a qualquer avaliação.

O sistema admite qualquer informação, até as mais absurdas, como por exemplo, um relatório indicando que uma vacina tinha transformado a pessoa no Incrível Hulk ou que outra tenha transformado uma menina na Mulher-Maravilha. [3]

É por essas razões que na página para aceder à informação esteja o seguinte alerta:

É importante notar que nenhuma relação de causa-efeito foi estabelecida em qualquer dos relatórios. A VAERS recolhe dados de qualquer incidente adverso acontecido após a vacinação independentemente de ser uma coincidência ou um verdadeiro efeito causado por uma vacina. Uma submissão de um incidente adverso não é sinónimo de documentação que a vacina causou esse incidente. [4]

No entanto, os autores ignoraram totalmente a recomendação desta entidade mencionando explicitamente que os dados deste sistema demonstram que a toma de vacinas com o conservante timerosal estão associados a um significante aumento de risco de perturbações no desenvolvimento. O que é errado, pois o facto de alguém reportar um incidente não é sinónimo que haja uma real relação.

O uso do sistema VAERS como suporte para pedidos de indemnizações por alegados efeitos das vacinas tem uma longa história [5] e será ser ingénuo demais julgar que essa situação era desconhecida dos autores, já que estes por várias vezes estiveram presentes nesses tribunais como consultores das famílias [6]. Quantos casos de famílias investidas em alcançar uma indemnização reportaram ao VAERS a incidência de problemas neurológicos após uma vacina?

Os autores usam também a diminuição das submissões de incidentes que ligam o autismo às vacinas como prova que houve uma quebra de reais efeitos neurológicos nas crianças. Uma outra hipótese, ignorada convenientemente pelos autores, poderia ser a retirada do timerosal das vacinas que teve o efeito de refrear os pais na atribuição da causa do autismo às vacinas.

A outra fonte usada pelos Geier é o CDDS – California Department of Developmental Services – um instituto estatal que proporciona serviço e apoio a indivíduos com deficiências de desenvolvimento. Essas deficiências incluem entre outras, autismo.

No relatório desta entidade de 2003 e no posterior de 2007 está explícito que a informação apresentada não deve ser usada para retirar conclusões válidas e científicas sobre a incidência ou prevalência do síndrome de Autismo na Califórnia. Os números de pessoas diagnosticadas com autismo reflectem contagens de casos e não constituem estudos epidemológicos.  As contagens destes casos são totais, ou seja, não é feita uma distinção entre casos antigos e novos casos. [7]

As análises estatísticas feitas pela dupla Geier, cruzando as duas bases de dados, são amplamente analisadas neste e neste post. É importante referir, que em todo o relatório, há contínuas referências ao aumento de casos de autismo reportados.

Os autores do estudo, Mark e David Geier, uma dupla de pai e filho são bem conhecidos do movimento anti-vacinação dos Estados Unidos, tendo ambos participado como consultores e testemunhas em casos judiciais que procuravam estabelecer uma ligação entre vacinas e danos neurológicos. Nem este é o único estudo que os Geier desenvolveram para tentar provar que essa relação é real. [8] 

O que talvez valha a pena mencionar é que ambos foram os primeiros a sugerir a terapia de Quelatação para curar o autismo, uma terapia potencialmente perigosa.  Esta dupla de médicos abriu diversas clínicas nos Estados Unidos com o intuito de promover tratamentos para o autismo, não só com quelatação, mas também usando doses altas de um inibidor hormonal que é, por vezes, usado para castrar criminosos sexuais. [9] [10]

Não é por isso de surpreender que Mark Geier tenha perdido a sua licença de médico em vários Estados Norte-americanos. [11]

O estudo foi publicado numa revista em open access e que não está indexada no PubMed, o que é, logo à partida, um sinal de alarme. Uma procura na internet dá-nos conta que esta revista pertence a Association of of American Physicians and Surgeons, uma associação ultra conservadora norte-americana que defende, entre outras coisas, a não intervenção do Estado em várias áreas da sociedade, entre elas na medicina, por exemplo. A revista é também conhecida pela publicação de estudos duvidosos, como por exemplo, que o aborto aumenta o risco de cancro na mama e que imigrantes ilegais introduziram doenças nos Estados Unidos. [12]

Chamo a atenção para a imagem aqui reproduzida. Nos finais do século XVIII e início do século XIX não havia maneira de espalhar desinformação e medo através de páginas na internet, nem facebook onde todos pudessem ter acesso à propaganda anti-vacinação. O método mais eficaz era através da sátira e de panfletos distribuídos de mão em mão. Notem que esta imagem critica a inoculação contra a varíola, um dos vírus mais mortíferos da nossa história e que desapareceu graças às vacinas.

James Gillray, The Cow-Pock—or—the Wonderful Effects of the New Inoculation! (1802)
James Gillray, The Cow-Pock—or—the Wonderful Effects of the New Inoculation! (1802)

A desinformação é perigosa e neste caso, irresponsável.

As vacinas salvam vidas.

*Após uma troca de comentários na página do Portugal Mundial no facebook, nos quais foram criticados o conteúdo e a forma como o artigo apresenta o estudo como sendo recente, o artigo foi alterado para surgir agora apenas a expressão “estudo” e não “novo estudo”. Contudo nos feeds ainda surge a versão original. (os comentários críticos na página do facebook foram apagados logo em seguida). 

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Críticas ao estudo:

Fontes

[1] OFFIT, Paul, Autism False Prophets, Kindle Edition, Columbia University Press, 2010

[2] Mercury, Vaccines, and Autism

[3] The Incredible Hulk Vaccine Side Effect: Or, Understanding VAERS

[4] VAERS – Guide to Interpreting VAERS Case Report Information

[5] How vaccine litigation distorts the VAERS database

[6] Patente na declaração de conflito de interesses no Estudo Early Downward Trends in Neurodevelopmental Disorders Following Removal of Thimerosal-Containing Vaccines

[7] AUTISTIC SPECTRUM DISORDERS – Changes In The California Caseload. An Update: 1999 Through 2002, p. 4 Caixa “Note To Readers”

[7a] AUTISTIC SPECTRUM DISORDERS – Changes in the California Caseload. An Update: June 1987 – June 2007

[8] New Study on Thimerosal and Neurodevelopmental Disorders: I. Scientific Fraud or Just Playing with Data?

[9] Chemical castration for autism: After three years, the mainstream media finally notices

[10] Mercury, Autism, and Chelation: A Recipe for Risk

[11] Controversial autism doctor Mark Geier loses licenses in Missouri, Illinois

[12] Vocal Physicians Group Renews Health Law Fight

Estudos sobre o Timerosal 

Vaccines and Autism: A Tale of Shifting Hypotheses – Revisão de vários estudos.

Thimerosal and the occurrence of autism: negative ecological evidence from Danish population-based data.

Thimerosal Exposure in Infants and Developmental Disorders: A Retrospective Cohort Study in the United Kingdom Does Not Support a Causal Association

Informação adicional em fontes portuguesas

Parecer sobre Vacinação – Ordem dos Enfermeiros
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