Cemitério Marciano nos Açores, parte 2: A vida veio do mar… os marcianos também

Nunca os Açores foram tão badalados! Depois de hipogeus e pirâmides de aborígenes eis que mais um achado mirabolante vem colocar o património açoriano novamente na ordem do dia.

Nunca os Açores foram tão badalados! Depois de hipogeus e pirâmides de aborígenes eis que mais um achado mirabolante vem colocar o património açoriano novamente na ordem do dia.

Um velejador diz ter detectado por leitura batimétrica uma pirâmide submersa com “60 metros de altura e 8 mil metros quadrados de base, perto do Banco D. João de Castro, entre as ilhas Terceira e São Miguel, nos Açores”.

http://youtu.be/-FKG2n-gsRo

Dada a sua perfeição, afirma não poder ser natural e até já faz comparações com as pirâmides egípcias. Mais, o responsável pela descoberta diz ter entregue as coordenadas à Direcção Regional de Cultura dos Açores (DRCA) para que averiguassem o achado. Esta atitude de responsabilidade, mais uma vez, não é acompanhada de uma atitude de cautela: esperar pelo resultado das averiguações para divulgar o achado. Com esta publicidade, imagino que a DRCA não tenha outro remédio que não ir ao fundo do mar, gastando dinheiro de uma área – a cultura – já tão subfinanciada. Imagino que com tantas fantasias exista património açoriano que acaba por ser prejudicado, por falta de verbas para o seu estudo e manutenção. O nosso património português, o nosso prejuízo.

Mas porque é que a ideia de uma pirâmide submersa é tão absurda? Bem, como qualquer estrutura “não-natural”, terá de ter sido construída por alguém (quem?), de determinada forma (como?) e num determinado tempo (quando?). As três questões estão relacionadas entre si. Temos já conhecimentos suficientes acerca da história das sociedades humanas para conseguir colocar no tempo (quando?) o momento em que as comunidades humanas acumularam conhecimento técnico suficiente (como?) para construir tal estrutura. O problema é que esse tempo posiciona-se já em épocas históricas (i.e. em que as comunidades humanas dominavam algum tipo de escrita), ou seja, não é suficientemente recuado para que caia num buraco de desconhecimento tão grande que nos passasse despercebida a possibilidade de tais comunidades terem construído tais estruturas. Por outro lado, a pirâmide teria 60 metros de altura e estaria submersa, a uma profundidade suficiente para a ter ocultado durante tanto tempo, não impossibilitando sequer a circulação marinha. Assumindo que a estrutura não teria sido construída debaixo de água mas sim num período em que a área estaria emersa, o quando e o quem tornam-se verdadeiros mistérios. Na verdade, teríamos de reescrever tudo o que sabemos da história da humanidade. Descobertas extraordinárias existem, de vez em quando, mas com um nível de “extraordinariedade” que não se aproxima assim tanto do absurdo.

Sei que irão criticar a frase que escrevi acima: “Temos já conhecimentos suficientes acerca da história das sociedades humanas…” Irão alegar a nossa (de nós cientistas ou nós seres humanos) ignorância face aos mistérios da humanidade. Para essas pessoas não tenho resposta. Cada um avalia a sua ignorância da forma que quiser. Eu mantenho a frase que escrevi.

Exactamente por não se encaixar em nada que sabemos acerca da história da humanidade é que surgem, de imediato, explicações fantasiosas, para justificar o que é, à partida, uma fantasia. Assim, circula já a ideia de que esta suposta pirâmide poderá ser um testemunho da Atlântida da qual os Açores teriam feito parte. Trata-se, no entanto, de uma ideia já velha com direito a entrada na Wikipedia.

No mapa abaixo, disponível em vários sites e blogues, podem ver como se entende que os Açores poderão ser o remanescente de um continente – a Atlântida – que terá sido submerso por Poseidon ou por uma qualquer catástrofe natural, existem várias versões. Neste site conseguirão ter uma boa perspectiva da discussão (e do absurdo da mesma) que existe em torno deste assunto, demasiado vasto para ser tratado na reacção a uma notícia. Mais uma vez a ciência leva uma chapada na cara e, ao mesmo tempo, é usada para legitimar ideias fantasiosas: supostamente a mesma ciência que “não consegue explicar tudo e que serve o interesse de alguns” prova que terá existido um dilúvio há 15000-10000 anos atrás. O mesmo da Bíblia e o mesmo que terá submerso a Atlântida trazendo o fim catastrófico a mais um ciclo Maia… (pausa para que o leitor recupere o seu fôlego). Que confusão! Chamar dilúvio catastrófico ao lento degelo do fim da última glaciação, e ainda assim com algum erro nas datas!

Atlantis
Mapa da Atlântida, Athanasius Kircher (c. 1669)

Mas não pensem que a descoberta de grandes civilizações submersas é um exclusivo atlântico ou europeu. Já ouviram falar do continente perdido de Lemúria? Façam uma pesquisa rápida e encontrarão imensas referências a esta Atlântida do Oceano Pacifico – sim o seu nome deriva de Lémures. Encontrarão também menções a vestígios que parecem corroborar a sua existência.

Lemure
Lémure. Crédito: Arnaudus

No fundo não interessa vir para aqui dizer que a ciência – mesmo a Arqueologia que é uma ciência social – não se faz sem dados e que “extraordinary claims require extraordinary evidence”. As fantasias terão sempre um grande público, pois muitos de nós gostariam que houvesse algo muito (mas mesmo muito) mais além daquilo que os nossos sentidos e a nossa ciência conseguem detectar. Como se o mundo e a nossa História sem fantasias não fossem suficientemente fascinantes.

Não posso deixar de terminar este post com um lamento acerca da nossa comunicação social, jornais e televisão, que apresentaram esta descoberta dando-lhe a mesma credibilidade que se dá a qualquer descoberta científica bem fundamentada. Na verdade, tomara que as notícias de verdadeiros e deveras fascinantes, embora normais, sítios arqueológicos tivessem tanto destaque. Nós arqueólogos estamos a falhar. Algumas coisa estamos a fazer de errado pois nós arqueólogos vibramos com as emoções das descobertas corriqueiras do passado, mas não conseguimos passar essa emoção para o público.

Para quem desconfiava da ideia exposta no post anterior, já concordam comigo? Não será melhor começar já a falar de marcianos? E se eles tiverem aspecto de lémures? Será mais fácil vender a ideia?

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