Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2021

Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2021

Querido diário, ser um unicórnio voador neste país é cada vez mais difícil. O ano é 2021, mas bem que podia ser 1984. Há quase dois anos que o regime opressor e totalitário instaurado pela fraudemia tenta quebrar o nosso espírito com a inconveniência da máscara, a tirania do certificado e o isolamento forçado nos campos de concentração da DGS. Perdi o emprego no café do Tony por me recusar a lavar as mãos antes de tocar na comida dos clientes. Ainda tentei apelar à razão – «É o meu corpo, a minha escolha» – mas de nada valeu, o homem que um dia fora o meu patrão já não existe, no seu lugar, uma mera sombra de humano, um autómato condicionado pela nova ordem mundial. Felizmente já estava preparado: investi num curso de criptomoedas e de apostas desportivas leccionado por youtubers de sucesso e em breve também eu serei financeiramente independente.

Apanhei o autocarro para casa onde estudei, como de costume, o comportamento submisso das ovelhas que me rodeavam. De repente deu-se um clique e veio até mim uma revelação: a palavra COVID tem 5 letras, o que por si só não quer dizer nada, mas COVID 19 simboliza 5+19 que é igual a 24; 24 também não quer dizer nada, mas se lhe juntarmos o 7 de ómicron já dá 31 e toda a gente sabe que 3+1=4. Ora qual é a 4ª letra do alfabeto?! A letra D! E que palavra começa por D?! DITADURA!!! Eles adoram provocar-me com mensagens ocultas! Apesar do risco, não consegui conter a fúria – «Isto é só covidiotas! A máscara é que faz problemas de saúde ó idiotas!» – gritei do fundo da minha alma – a mulher que estava ao meu lado afastou-se e todos olharam para mim como se fosse um maluco, ou pior, um chalupa… Eu que fui testado na maior clínica de psicoterapia de Portugal que comprovou, sem sombra de dúvida, que sou UM GÉNIO MUITO ESTÁVEL!!!

Quando a revolta passa dou por mim a sentir pena das ovelhas que vivem em medo permanente. Questiono-me como é possível viver assim? Que temor irracional é esse capaz de levar alguém a conspurcar os seus preciosos fluidos corporais com uma vacina experimental? Será que não vêem que pretendem injectar-nos com o gene gay para concretizar o plano de redução da população mundial?! Finalmente chegou a minha última encomenda da internet, comprei um colar quântico para me proteger da radiação 5G doschips detectores de cancro” que o Capitão Iglo anda a implantar. Custou-me largar os 300 paus, mas a segurança não tem preço. Além disso, aproveitei a oportunidade para escrever mensagens subversivas nas notas de euro. O colar fez-me uma ligeira irritação cutânea no pescoço, mas o João do grupo do Telegram, que é cromoterapeuta, diz que é normal e que isso significa que está a fazer efeito.

A resistência montou uma rede de informação nas redes sociais para contrariar a propaganda do “jornalixo” e da doutrinação porno-funk-socialista nas escolas. Criou ainda uma força especial de Komandos Karen dedicada a ataques cirúrgicos contra funcionários colaboracionistas. Na semana passada houve uma nova manifestação contra o apartheid sanitário, decidi ir mesmo sabendo que arriscava a prisão, a execução sumária ou aparecer num episódio do Extremamente Desagradável da Joana Marques. «Abaixo o distanciamento! Arranquem as mordaças!» – berrei até ficar rouco – estive ao lado dos meus heróis e fiquei feliz por fazer parte de um momento histórico. Dias depois comecei a sentir uns sintomas estranhos: tosse, dor de cabeça, nariz entupido e garganta a arder. Suspeito que tenham usado armas químicas, provavelmente chemtrails dispersados pela TAP. Assim que tiver alta do hospital vou tomar um cocktail de hidroxicloroquina e azitromicina pois recuso-me a financiar a indústria farmacêutica! Dêem-me a liberdade ou dêem-me a morte! Só não me dêem nenhuma pica!


O Prémio Unicórnio Voador – um prémio feliz para actuações infelizes – é uma distinção satírica concedida pela COMCEPT, por sugestão dos internautas, às personalidades ou entidades que durante o ano anterior tenham contribuído para a disseminação de pseudociência, superstição e outras formas de desinformação. Porque os unicórnios até podem existir, o difícil de acreditar é que consigam voar!

Os internautas podem votar nos seus nomeados favoritos até ao dia 30 de Março e os vencedores de cada categoria serão revelados, como sempre, no dia 1 de Abril, o Dia das Mentiras. Este ano temos quatro categorias em jogo:

  • Estrela Cadente – Para as estrelas de televisão e do mundo artístico, desportivo ou social.
  • Grafonola: Para os meios de comunicação e os seus agentes (impressa, rádio, televisão).
  • Dom Quixote – Para a afirmação ou teoria mais alienada, para a recusa em encarar a realidade e para a defesa do indefensável.
  • O Rei Vai Nu – Para todos os outros que façam ou contribuam para a propagação de alegações duvidosas sem provas ou contra elas.

Segue-se a apresentação dos nomeados que foram seleccionados para votação. E que ganhe o melhor dos piores!

Estrela Cadente

Katia Aveiro

Depois de ter dito que a pandemia era a “maior fraude” a que já tinha assistido, Katia Aveiro contraiu a COVID-19 e foi internada no hospital do Funchal, no entanto, continua a ser contra as vacinas porque a experiência pessoal do seu grupo de amigos bate qualquer argumento científico. (1, 2, 3)

José Alberto Reis

O cantor e compositor de vários sucessos da música romântica deu-nos a conhecer a sua verdadeira missão no planeta Terra: partilhar connosco o seu conhecimento de astrologia, captação de “energias” e a existência de 363 planetas habitados em 5 universos locais. (1)

Rute Marques

A ex-modelo e apresentadora regressou à televisão para anunciar que ingressou no mundo do auto-ajuda e do biofeedback, uma terapia pseudocientífica que utiliza uma máquina milagrosa que supostamente funciona pelos princípios da física quântica. (1)

Rapper Estraca

O rapper lançou em 2021 o estilo hip-hop QAnon com a música “Jornalixo”, onde veste a pele de um pivot de telejornal que se revolta contra a grande conspiração do COVID que tem por objectivo assustar, controlar e matar toda a gente com vacinas e químicos na comida. (1, 2)

Sandra Celas

A actriz que deu vida à personagem da jornalista Júlia da série “Inspector Max” arruinou as memórias de infância de muitos fãs ao participar numa manifestação de negacionistas. Tentou ainda justificar nas redes sociais a não utilização de máscara. (1, 2, 3)

Grafonola

José Gomes Ferreira

Em 2021 o jornalista e comentador da SIC publicou o livro “Factos Escondidos da História de Portugal”. Tendo como base “fontes directas” encontradas na internet, José Gomes Ferreira alega que a verdadeira História dos descobrimentos está a ser suprimida por uma conspiração do governo português, que a NASA nos está a mentir sobre a cor do planeta Marte e que as alterações climáticas são provocadas pela inversão dos pólos magnéticos. (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7)

Joana Amaral Dias

A psicóloga, comentadora e 2ª tudóloga mais famosa do país (#GoTeamVarela) manifestou por diversas vezes as suas dúvidas e certezas sobre a gravidade da pandemia e a segurança das vacinas. Chegando mesmo a reproduzir o cliché negacionista de comparar o tratamento dos não-vacinados ao das vítimas do holocausto com a publicação de uma storie do Instagram com a estrela de David usada para identificar os judeus. (1, 2, 3, 4, 5)

Canal S+

Canal de TV por subscrição dedicado à saúde deu tempo de antena a terapias pseudocientíficas que vão das “energias” místicas da medicina tradicional chinesa aos ímanes de frigorífico usados pelo biomagnetismo. (1)

Jornal Observador

O jornal online publicou durante o ano de 2021 diversas crónicas que piscam o olho à retórica negacionista de que as medidas de combate ao COVID-19 são na verdade uma conspiração esquerdista para limitar as nossas liberdades individuais. (1, 2, 3, 4)

Dom Quixote

Mafalda Melo, aka «A Senhora do Chalupígrafo»

Mafalda publica vídeos e textos caracterizados por uma criativa amálgama de esoterismo e teorias da conspiração. Tornou-se viral nas redes sociais com a alegação de que as pessoas vacinadas contra a COVID-19 passam a ser um objecto patenteado transgénico e sem direitos legais (1, 2).

Alexandra Santos, aka «A Dama do Açaime»

Promotora de várias teorias da conspiração, trouxe para Portugal a moda das Karens negacionistas que entram em estabelecimentos de telemóvel em punho para assediar e criar conflito com os funcionários. As imagens, muitas vezes transmitidas em directo, são usadas para obter atenção e validação de outros negacionistas nas redes sociais. Ficou conhecida por usar um açaime de cão como paródia às máscaras. (1, 2, 3, 4)

Anabela Seabra, aka «Ana Desirat», aka «A Senhora do Grafeno»

Anabela tornou-se conhecida pela alegação de que as vacinas contra a COVID-19 estão carregadas de grafeno, bem como pelo activismo nas redes sociais e em manifestações onde grita palavras de ordem e insultos com um megafone. Activismo que culminou em ofensas ao Almirante Gouveia e Melo e a Eduardo Ferro Rodrigues, este último, enquanto almoçava com a esposa num restaurante. (1, 2, 3, 4)

Rui Fonseca e Castro, aka «O Juiz Negacionista», aka «O Juiz do MMA»

O ex-juiz fez parte de vários episódios bizarros ao longo do ano. Para além do negacionismo da pandemia – no qual se inclui a alegação de que a perna de um bebé ficou magnética após a vacinação – contam-se, entre outros, o desafio ao director da PSP para um combate de MMA, as provocações à polícia e os insultos aos membros do Conselho Superior de Magistratura que decidiram a favor da sua demissão. Criou a associação “Habeas Corpus” e usa regularmente as redes sociais para publicar teorias da conspiração, acusar governantes de crimes contra a humanidade e apelar à desobediência civil. (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8)

O Rei Vai Nu

Fernando Nobre

O médico e antigo candidato a Presidente da República já tinha proferido declarações erradas sobre os infectados assintomáticos e parece afundar-se cada vez mais no poço sem fundo das teorias negacionistas. Participou em manifestações, colocou em causa a validade dos testes PCR e promoveu ainda a utilização de medicamentos inúteis contra a COVID-19 como a hidroxicloroquina e ivermectina. (1, 2, 3, 4)

Fernando Nogueira aka «Bruxo de Fafe»

Presença habitual na televisão e mundo do futebol português, manifestou-se contra o pagamento de impostos pelos “profissionais” do esotérico argumentando que a bruxaria é um dom e não uma profissão. Após ter sido satirizado na rubrica de rádio Extremamente Desagradável ameaçou ainda a humorista Joana Marques com o Inferno e a “maldição dos mortos-vivos”. (1, 2)

Catarina Maia

Membro da comissão executiva do partido Iniciativa Liberal, Catarina Maia questionou a vacinação das crianças partilhando a opinião de um conhecido negacionista da pandemia – Robert Malone – que gosta de se apresentar falsamente como “o pai das vacinas mRNA”. Recentemente tentou ainda associar a morte de uma criança às vacinas. (1, 2)

João Beles

As posições negacionistas do naturopata e concorrente vitalício ao prémio Unicórnio Voador são já conhecidas. Em 2021, depois de ter sido internado no hospital de Faro com COVID-19, usou as redes sociais para recomendar o alho, a hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina contra a doença, tratamento que de certeza não terá recebido no hospital. (1)

Maria Helena Costa

Um dos rostos do movimento “Deixem as crianças em paz”, publicou vídeos com teorias da conspiração populares entre grupos conservadores que receiam que as escolas estejam a ser usadas para promover a “sexualização” das crianças e doutriná-las no socialismo e na ideia radical de que pessoas LGBT são também seres humanos e cidadãos de pleno direito. (1)

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