“Sem Limites” ou “Com Mazelas”?

Este texto de opinião foi previamente publicado no jornal Público, a 5 de Julho de 2022.

Autor: Paulo Jorge de Sousa Pinto

Historiador: CHAM, NOVA-FCSH

Uma tarefa a que dedico algum tempo e que me concede um especial prazer é a de mostrar e debater com os meus alunos alguns excertos de obras cinematográficas do género “ficção histórica”; não exatamente para aferir erros ou anacronismos mas para contextualizar diferentes perspetivas e olhares da História, isto é, a forma como vemos a nossa e a alheia e como outros (nomeadamente asiáticos) o fazem em relação a nós próprios. Estes olhares cruzados “em espelho” sobre o passado são pertinentes porque permitem questionar os padrões do nosso imaginário sobre o passado, tantas vezes povoado de imagens tão heroicas quanto irreais. Khorfakkan (Emirados Árabes Unidos, 2020) ou Marakkar: Lion of the Arabian Sea (Índia, 2021) são alguns exemplos recentes de filmes asiáticos sobre contextos históricos do século XVI onde os portugueses são os vilões da estória e da História. A sua visualização provoca-nos sorrisos e esgares perante os anacronismos e a forma caricatural e grosseira como os portugueses ali são retratados. Mas haverá grande diferença com o que se faz por cá?


Estreou-se há semanas Sin Límites / Boundless, a nova série espanhola sobre a expedição de Magalhães-Elcano, a primeira viagem de circum-navegação do globo. É uma produção de meios abundantes, guarda-roupa apurado, CGI eficaz, excelente fotografia, melhor genérico e devidamente apimentada com espadeirada e ação q.b. É uma série de ficção, não um documentário, pelo que a omissão e invenção de eventos e simplificação do enredo são inevitáveis. Esperava, contudo, alguma contenção, sobretudo quando as séries televisivas se tornaram um espaço privilegiado de construção de tramas e personagens complexos, como provou o sucesso de A Guerra dos Tronos. O que se passa nesta série é o oposto. O ponto de partida é o “plano” visionário de Fernão de Magalhães para encontrar uma “passagem” que permitiria o acesso a “imensos tesouros”. Não há contexto histórico: o quadro político-diplomático da Península Ibérica, da Europa ou na Ásia, o tratado de Tordesilhas, a relação entre as casas de Avis e Habsburgo, a presença portuguesa no Índico e no Sueste Asiático estão completamente omissos.


Os portugueses são, naturalmente, os vilões da trama. Atacam desajeitadamente a armada pouco depois da sua partida, introduzem um traidor na expedição e são esclavagistas, manhosos e pouco espertos. Já Magalhães, o herói providencial e atormentado, fala de “rotas” mas navega sem bússola, astrolábio ou tabelas de declinação; é visto, fugazmente, a manusear uma balestilha. O mais importante é mostrar a amizade que trava com o outro (inevitável) herói da série, Sebastián Elcano, a quem salva da cadeia, mantém perto de si e coloca a pilotar o seu próprio navio. Elcano é, desde o primeiro momento, o homem de honra por excelência, parceiro e fiel continuador de Magalhães. Liberdades ficcionais, em suma.


A consultoria histórica de Sín Límites é deficiente em aspetos fundamentais. Deixo dois exemplos apenas: o primeiro é o valor muito exagerado atribuído ao cravo-da-Índia (a especiaria que constituiu o alvo do plano de Magalhães), sendo afirmado que “vale mais do que ouro”, disparate que pode ser detetado, aliás, noutras produções espanholas sobre o assunto. O segundo é uma das frases de “balanço” que encerram o último episódio, que faz pasmar qualquer estudante de História: “Com esta nova rota para Ocidente, Espanha controlou o comércio das especiarias durante décadas”. Na realidade, os espanhóis não só nunca controlaram o comércio de qualquer especiaria asiática como demoraram mais de 40 anos a estabelecer uma rota segura de travessia do Pacífico.


Não é, contudo, no campo da fiabilidade histórica ou da hipersimplificação dramática que a série colapsa e fracassa. Afinal, trata-se de uma produção espanhola com o objetivo de coincidir com os 500 anos da chegada de Elcano. A deceção de Sín Límites decorre, pelo contrário, da forma como reproduz velhos estereótipos e caricaturas – que julgava há muito arredados das produções de ficção histórica – sobre tudo o que não é europeu. Refiro-me especificamente aos eventos que ocorreram em Limasawa, em Samar e, em especial, em Cebu e em Mactán, nas atuais Filipinas. Nada é mostrado sobre as sociedades locais e os seus traços distintivos ou, sequer, a sua localização exata, muito menos sobre as redes de comércio que ligavam a região ao efervescente mundo marítimo da Ásia do século XVI. Em Sín Límites, os cebuanos vivem seminus, habitam em palhotas e acolhem alegremente Magalhães. A conversão ao catolicismo ou a vassalagem ao rei de Espanha são omitidos. Rajah Humabon, o rei de Cebu, é simplório, depois medroso, finalmente traiçoeiro. Já Lapu-Lapu, o chefe de Mactán (que, na realidade, Magalhães atacou porque recusara a submissão ao rei de Espanha), é um “selvagem” de olhos esbugalhados que intima Humabon a expulsar os “demónios” estrangeiros e que ameaça matar os homens e violar as mulheres de Cebu se não fosse obedecido. Humabon treme e vacila mas lá está o amigo e protetor Magalhães para salvá-lo, atacando os selvagens após mais uma atrocidade cometida por estes. Na batalha de Mactán, onde Magalhães morreu, Lapu-Lapu e os seus guerreiros desgrenhados urram como feras e lutam com paus afiados e com os próprios punhos. Alguém profere, após o confronto, o veredito que separa os espanhóis dos inimigos: “nós não somos selvagens, somos homens de honra”.


A chegada a Tidore (uma das ilhas Molucas) é a pincelada final nesta composição: um silêncio total acerca deste sultanato (ou do de Ternate, o vizinho e rival onde os portugueses se haviam fixado) e da produção do cobiçado cravo que era exportado havia séculos para a China e para o Índico. Os habitantes (um misto exótico de índios e orientais), limitam-se a receber e a tocar em Elcano e nos seus companheiros com espanto e reverência. São meros nativos como os cebuanos ou os ameríndios do Brasil num episódio anterior, figuras vazias de uma Ásia inerte e passiva que aguarda a intervenção dos europeus, os verdadeiros atores da História.


Tudo isto não causaria espanto num filme de Hollywood da década de 1930. Contudo, numa produção de 2022 dedicada a evocar e reconstituir a primeira viagem que colocou em contacto três continentes, demonstra, afinal, quão enraizadas permanecem as linhas-mestras da velha cartilha feita de imagens estereotipadas acerca do “Outro”. Sín Límites está, portanto, ao mesmo nível – ainda que consideremos o seu olhar como “o nosso” – e presta-se ao mesmo grau de dissecação e de debate que os filmes asiáticos onde os portugueses são caricaturas grosseiras da História e sinónimo de opressão e de ganância, os tais que mostro aos meus alunos como forma de promover a reflexão crítica sobre a História, a nossa e a alheia.

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