Correlação não implica necessariamente causalidade

Texto: Marco Filipe

A confusão entre a correlação e causalidade está na base de muitas concepções erradas. Daí que se torna imperativo falar sobre este assunto em maior profundidade. Os nossos cérebros são autênticas máquinas de reconhecimento de padrões, mas este processo está longe de ser perfeito, o que resulta na detecção de padrões que não existem de verdade.

A correlação, isto é, a ligação entre dois eventos, não implica necessariamente uma relação de causalidade, ou seja, que um dos eventos tenha causado a ocorrência do outro. A correlação pode no entanto indicar possíveis causas ou áreas para um estudo mais aprofundado, ou por outras palavras, a correlação pode ser uma pista.

A ideia oposta, de que correlação prova automaticamente causalidade, é uma falácia lógica denominadacum hoc ergo propter hoc” (do latim “com isto, logo por causa disto”). Obviamente, dois eventos que possuam de facto uma relação da causalidade deverão apresentar também uma correlação. O que constitui a falácia é o salto imediato para a conclusão de causalidade, sem que esta seja devidamente demonstrada.

Só porque (A) acontece juntamente com (B) não significa que (A) causa (B). Determinar se existe de facto uma relação de causalidade requer  investigação adicional pois podem acontecer cinco situações:

  1. (A) causa realmente (B);
  2. (B) pode ser a causa de (A);
  3. Um terceiro factor (C) pode ser causa tanto de (A) como de (B);
  4. Pode ser uma combinação das três situações anteriores. Por exemplo, (A) causa (B) e ao mesmo tempo (B) causa também (A);
  5. A correlação pode ser apenas uma coincidência, ou seja, os dois eventos não têm qualquer relação para além do facto de ocorrerem ao mesmo tempo. (Se estivermos a falar de um estudo científico, utilizar uma amostra grande ajuda a reduzir a probabilidade de coincidência).

Exemplo geral: “Quanto maiores são os pés de uma criança, maior a capacidade para resolver problemas de matemática. Portanto, ter pés grandes faz ter melhores notas a matemática”. Apesar de existir uma correlação, esta linha de pensamento comete uma falácia ao assumir de imediato que o tamanho dos pés é a causa primária, pois existem outros factores envolvidos que não são tidos em conta. O tamanho dos pés possui uma correlação positiva com muitas outras alterações no desenvolvimento. À medida que as crianças crescem, o mesmo acontece com os pés, assim como a sua capacidade de raciocínio, quantidade de conhecimentos adquiridos e muitas outras características. A idade é a verdadeira causa comum tanto do tamanho dos pés como da capacidade de resolver problemas de matemática.

Exemplo real: Vários estudos apontavam inicialmente que as mulheres em menopausa que recebiam terapia de substituição hormonal (TSH) tinham também um menor risco de doença coronária, o que levou à ideia de que a TSH conferia protecção contra a doença coronária. No entanto, estudos controlados e randomizados (mais rigorosos), feitos posteriormente, mostraram que a TSH causava na verdade um pequeno mas significativo aumento do risco de doença coronária. Uma reanálise dos estudos revelou que as mulheres que recebiam a TSH tinham também uma maior probabilidade de pertencer a uma classe socioeconómica superior, com melhor dieta e hábitos de exercício. A utilização da TSH e a baixa incidência de doença coronária não eram causa e efeito, mas o fruto de uma causa comum – os benefícios associados a um estatuto socioeconómico elevado. (Informação detalhada aqui)

Nos seguintes slides podem ver mais alguns exemplos de falácias do mesmo tipo.

Outra falácia semelhante, mas mais específica, é a post hoc ergo propter hoc” (do latim “depois disto, logo por causa disto”) ou simplesmente “post hoc”. Ao contrário da primeira falácia, aqui a sequência temporal dos eventos já é significativa. Baseia-se na ideia de que tendo o evento (B) sucedido ao evento (A), que o evento (A) deve ter causado o evento (B). Mais uma vez, o evento (A) pode realmente ter causado o evento (B), o que constitui a falácia é o salto imediato para a conclusão de causalidade baseando-se apenas na ordem dos eventos, em vez de se ter em conta outros factores que possam excluir a conexão observadaEsta falácia é especialmente importante na medida em que está na base de grande parte das crenças supersticiosas, ou ainda, da aceitação de algumas práticas terapêuticas de eficácia duvidosa.

autismo cectic

Exemplos gerais: “Eu tive uma constipação, por isso comi canja de galinha, duas semanas depois a constipação desapareceu. Portanto, a canja de galinha cura a constipação”. “Eu entrei com o pé direito na sala de aula, nesse dia o teste de matemática correu mesmo bem. Portanto, entrar como o pé direito na sala de aula antes dos testes dá sorte”. “Um Viking observa um eclipse solar. Acreditando que o Sol está a ser devorado por um lobo gigante, começa a gritar para o afugentar. Momentos depois o Sol regressa à normalidade. Acaba por concluir portanto, que gritar durante um eclipse faz o lobo cuspir o Sol de volta”. Em todos estes exemplos assume-se, de uma forma muito simplista, que uma acção (A) é o agente causador uma vez que ocorreu antes do efeito (B). Tanto a constipação como o eclipse acabariam por desaparecer independentemente da acção tomada. Já o teste pode ter corrido bem porque o aluno estudou afincadamente a matéria, não estava nervoso ou o teste era relativamente fácil.

Exemplo real: Em 1998 um médico britânico, Andrew Wakefield, publicou um estudo onde revelava uma correlação entre o autismo e a vacina anti-sarampo, parotidite e rubéola (VASPR). Seguiu-se uma onda de pânico que levou muitos pais a deixarem de vacinar os seus filhos e, como resultado, começaram a surgir novamente focos de sarampo um pouco por todo o mundo. O facto de o autismo ser normalmente diagnosticado depois da criança ter tomado a vacina VASPR, levou muitos pais a ficarem convencidos da veracidade da causalidade. Vários outros investigadores tentaram também confirmar a ligação, mas nenhum teve sucesso. O estudo de Wakefield acabou por se revelar nada mais do que uma fraude, tendo sido retraído pela revista onde foi publicado. Wakefield tinha recebido dinheiro para provar a ligação entre o autismo e a VASPR e preparava ainda uma vacina concorrente que apenas conseguiria vender se a confiança na VASPR fosse abalada. Apesar desta descoberta, o estrago já tinha sido feito. Por causa de uma fraude e de paranóias irracionais, muitas vidas foram e continuam a ser colocadas em risco. Wakefield mudou-se para os EUA, onde é suportado por celebridades e visto como um mártir do movimento anti-vacinação. (Mais informação sobre o caso Wakefield aqui)

É de notar que as confusões entre correlação e causalidade estão ainda muitas vezes ligadas a outros fenómenos como vieses de confirmação (a pessoa apenas se recorda dos eventos que confirmam a sua crença e ignora os contraditórios). E é preciso ter cuidado para não usar estas falácias como desculpa para não investigar uma determinada correlação.

Então como se determina a causalidade?

Depende sobretudo da complexidade do problema, mas a verdade é que a causalidade dificilmente poderá ser determinada com certeza absoluta. Daí que em ciência já está subentendido que não existem verdades absolutas e que todas as teorias estão abertas a revisão face a novas evidências. No entanto, muitos erros podem ser evitados se tivermos mais cuidado com as conclusões precipitadas. Utilizando o método científico é possível muitas vezes estabelecer uma relação de causa-efeito com uma segurança confortável. O que acaba por ter mais importância no final é a reprodutibilidade da relação causa-efeito e a possibilidade de fazer previsões correctas sobre eventos futuros (Mais pormenores aqui). A indústria do tabaco não pode continuar a alegar que a correlação entre o tabaco e o cancro do pulmão não implica necessariamente causalidade porque existe uma montanha de evidências científicas a favor da relação causa-efeito. Já o movimento anti-vacinação não possui quaisquer evidências credíveis que suportem a afirmação de que as vacinas causam autismo. É aí que reside a diferença fundamental.

 

6 Responstas a “Correlação não implica necessariamente causalidade

  • As vacinas, tal como outros medicamentos, causam problemas que dificilmente podem ser reportados como reações adversas pelo simples fato de que não existe uma classificação para “reações adversas das vacinas” na classificação internacional de doenças. Desta forma não é possivel “causalizar” nada. Mas se a simples vacina da gripe admite o sindrome de Guilan-Barré como reação adversa e já não tem etilmercúrio, dizem os produtores, então o que poderá provocar ainda esse Sindrome neurológico de tão alta gravidade? A água bidestilada? Os fragmentos dos virus da gripe? Se a vacina é aplicada e logo aparece a reação adversa, ainda assim o acaso pode ser a causa do evento, mas se a reação adversa surge dias , semanas ou meses depois, seguramente que a vacina está isenta de qualquer culpa. E assim se escondem reações adversas que de outra forma marcariam negativamente a atuação das vacinas e poriam uma nódoa negra na imunidade radiosa das inocentes vacinas. Quando não se tem resposta à altura, primeiro confronta-se, depois ridiculariza-se e finalmente agride-se. A todos os amigos das vacinas deixo um repto para que as tomem todas, as repitam se necessário for, mas que saibam o que estão a meter no corpo antes de falarem mal dos que não as querem tomar talvez porque saibam mais de vacinas que muitos dos profissionais que as recomendam.

    • Se “não existe uma classificação para reações adversas das vacinas” acho estranho existirem sistemas de aviso em funcionamento na maioria dos países onde se pode relatar possíveis efeitos adversos de vacinas e outros medicamentos. A própria Organização Mundial de Saúde diz que a síndrome de Guillain-Barré pode ser um dos efeitos secundários da vacina trivalente inactivada da gripe, com uma possível ocorrência por cada milhão de vacinas (aqui). Ora bem, em teoria, de uma forma grosseira e assumindo que a associação representa causalidade, se dermos a vacina a 1 milhão de pessoas, apenas uma corre o risco de desenvolver a síndrome, mas entretanto cerca de 81 mil pessoas terão sobrevivido à gripe, isto baseado na percentagem máxima de mortes entre idosos na Grã-Bretanha segundo o mesmo relatório. Nos países em vias de desenvolvimento será ainda pior, só que não temos dados, e ainda faltam outras faixas etárias. Continua a parecer racional ter medo das vacinas?

      Nada é perfeito nesta vida, o oxigénio que o mantém vivo está também a oxidar e envelhecer lentamente as suas células. Temos sempre de pesar os prós e contras. Se alguém lhe quiser vender um medicamento sem efeitos secundários até pode estar a dizer a verdade, mas é provável que esse medicamento também não tenha qualquer efeito primário (terapêutico) e que não passe portanto de banha-de-cobra. Tomar a vacina contra uma doença mortal como a gripe, porque é realmente mortal, especialmente na terceira idade, sobrepõe-se claramente a não tomar a vacina pela remota possibilidade de possuir um perfil genético que predispõe para efeitos adversos. Fazê-lo é tão irracional como não andar de avião porque já houve aviões que caíram, quando as estatísticas indicam claramente que é o meio de transporte mais seguro. Nos casos em que é possível saber quem é mais predisposto a desenvolver efeitos secundários perigosos, o que se faz é recomendar que não a tome. O que não faz sentido é todos pararem de tomar a vacina com base em generalizações falaciosas. Quem procura certezas absolutas acaba muitas vezes enganado, temos de saber viver num mundo cheio de incertezas mas também de muitas probabilidades calculáveis. Se os estudos que existem não lhe agradam pelas limitações relativas ao estabelecimento da causalidade, não há muito que se possa fazer, pois essas limitações são inerentes à própria condição humana. Se não lhe agradam simplesmente as conclusões, tenho-lhe a dizer que está simplesmente errado.

      Cumprimentos

    • É sempre curioso que hajam uns “iluminados” que sabem mais sobre certos e determinados temas que aqueles que os estudam e que trabalham com eles durante anos e anos (para além de todos os dados numéricos associados e provenientes de diversas entidades independentes).
      Se o leitor quiser colocar em causa o método de fabrico e a fiabilidade de uma vacina como a da Gripe A, até posso chegar a concordar consigo nalguns aspectos.
      Agora, vir aqui incitar à não vacinação contra doenças mortais roça o criminoso.
      As vacinas foram um dos maiores avanços da medicina no século XX e salvaram (e salvam) milhões de vidas por ano. A sua eficácia e segurança estão comprovadas cientificamente, sendo certo que a vacina da Gripe é um caso especial porque todos os anos deve ser alterada tendo em conta previsões feitas em relação à estirpe vírica prevalecente (i.e., um caso em que há certo um grau de incerteza associado e, consequentemente, risco de um menor grau de imunização).

Trackbacks & Pings

%d bloggers like this: