Montagnier regressa às polémicas – agora o coronavírus

Luc Montagnier é um virologista que teve um papel relevante no estudo do HIV, o que acabou por valer-lhe um Prémio Nobel da Fisiologia e da Medicina em 2008. Porém, nos últimos anos esteve envolvidos em várias polémicas, sendo a mais recente a alegação de que o novo coronavírus fora criado em laboratório.

O virologista Luc Montagnier foi entrevistado para o canal CNEWS em Abril e voltou a fazer afirmações polémicas. Desta vez alegou que o novo coronavírus apresentava resultados de manipulação e que a sua dispersão teria como origem uma fuga acidental de um laboratório.

Para fazer tal afirmação, apoiou-se num trabalho do seu colega Jean-Claude Perez que teria identificado uma sequência genética de HIV-1 no genoma do coronavírus. A partir daí postulou que essa sequência não era natural, pelo que teria sido adicionada artificialmente, revelando um trabalho profissional de biólogos moleculares. Ao jornalista disse ainda que não fazia investigação laboratorial, apenas tratamento de dados.

O que poderia ser uma potencial alegação bombástica descamba a partir daqui. Na continuação da entrevista, Montagnier não menciona quem fez a alegada manipulação nem porquê, apenas sugere que “eles” queriam trabalhar numa vacina contra a SIDA. Quando confrontado com o facto de isso serem rumores, ele diz que há uma tentativa de silenciar esta hipótese, e que ele enquanto investigador sénior e Prémio Nobel tem autonomia, estando imune a pressões que outros colegas mais novos estariam a sentir. Entramos no campo da teoria da conspiração, quando Montagnier sugere que há uma entidade indefinida “eles” a querem ocultar uma suposta verdade.

Esta opinião valeu-lhe ser convidado a outros programas como o podcast Pourquoi Docteur, onde aí já acusa os chineses. As alegações de Montagnier têm sido desmentidas em público por outros cientistas, incluindo alguns colegas seus, como por exemplo aqui.

Porque é que Montagnier está errado?

O virologista apoia-se no artigo de Jean-Claude Perez intitulado Wuhan COVID-19 Synthetic Origins and Evolution, publicado na revista científica International Journal of Research Granthaalayah.

O que aparenta ser um processo normal, na realidade tem vários problemas: trata-se de uma revista não-indexada, sem revisão por pares – o que se verifica na maneira como está escrita e por não seguir a estrutura normal de um artigo científico – e as referências bibliográficas que sustentam o artigo não são credíveis (cita artigos ainda não publicados ou de revistas não indexadas e artigos de índole especulativa como a sequência de Fibonacci no material genético).

Mas não só a publicação que sustenta a opinião de Montagnier é de fraca qualidade, como a investigação entretanto produzida aponta na direção contrária: um artigo publicado na Nature Medicine, intitulado The proximal origin of SARS-CoV-2 indica que o novo coronavírus tem uma origem natural, e outro artigo aponta para a origem antiga dos vírus do tipo corona, conforme o artigo A case for the ancient origin of the coronaviruses, publicado no Journal of Virology.

Além disso, um artigo publicado na revista científica Emerging Microbes and Infections indica que o HIV-1 não contribuiu para o genoma de 2019-nCoV – 2019-nCoV (novel CoronaVirus de 2019) era o nome anteriormente dado ao SARS-CoV-2. Na realidade, as sequências semelhantes às do HIV-1 que Montagnier afirma terem sido criadas agora em laboratório, já são conhecidas desde pelo menos 2005, como se pode ver no artigo Coronavirus Genome Structure and Replication, publicado na revista científica Current Topics in Microbiology and Immunology.

As outras polémicas de Luc Montagnier

Apoio à homeopatia

Apesar do seu percurso científico relevante nas décadas de 1980 e 1990, em 2009 apresentou um estudo em que sugeria que o ADN diluído de bactérias e vírus seria capaz de emitir ondas rádio que estariam associadas às nano-estruturas da solução e que poderiam recriar o patogénio (agente causador da doença). Supostamente, os patogénios conseguiriam ser identificados por detecção electromagnética após as amostras terem sido altamente diluídas e agitadas. Quando no ano seguinte apresentou estes resultados perante uma assistência de cientistas e outros prémios Nobel, as conclusões foram recebidas com perplexidade e rejeição. Por outro lado, os homeopatas encontraram aqui uma “prova” científica a favor da homeopatia. A verdade é que o seu artigo não tinha sido revisto por pares e os resultados não conseguiram ser replicados até hoje. O artigo fora submetido a 3 de Janeiro de 2009 e aceite para publicação apenas 3 dias depois (normalmente este processo demora meses ou anos). E quem fazia parte da Comissão Editorial? O próprio autor, Luc Montagnier.

O Teletransporte de ADN

Em 2010 escreveu um artigo, DNA Waves and water, em que sugeria que moléculas de ADN se poderiam teletransportar entre tubos de ensaio através de fenómenos quânticos. Por motivos óbvios, o artigo nunca chegou a ser publicado numa revista científica, continuando em preprint. Neste artigo ele chega mesmo a afirmar que os sinais eletromagnéticos foram identificados num conjunto variado de doenças como Alzheimer, Parkinson, Esclerose Múltipla, artrite reumatoide, entre outras.

Aplicação ao autismo

Em 2012 esteve presente na conferência Autism One 2012, organizada por Jenny McCarthy, onde usou o mesmo artigo para dizer que os sinais eletromagnéticos também identificam autismo em crianças.

Resistência ao HIV e a Antivacinação

Um texto publicado no Le Figaro, intitulado o lento naufrágio científico do Prof Luc Montagnier, lembra-nos outras polémicas.

Num documentário de 2009 afirmou que se uma pessoa tivesse o sistema imunitário fortalecido conseguiria combater o HIV, sendo para isso apenas necessário uma boa alimentação e suplementos.

Em 2017 fez uma alocução em que novamente deixou os seus pares boquiabertos ao proferir afirmações anti-vacinação e participou no Vaxxed, um “documentário” que promove desinformação e teorias da conspiração contra vacinas. [Fonte]

A Doença do Nobel

É sabido que em ciência não há autoridades, o que interessa são os argumentos e as provas científicas. Em boa verdade é possível acontecer que cientistas que deram contributos válidos e cujo trabalho acabou por ser reconhecido pela comunidade científica passem a defender ideias que não são apoiadas por provas. Errar é humano e ninguém está imune a isso, nem mesmo os Prémios Nobel. Por essa razão deu-se a designação da Doença do Nobel aos cientistas a quem foi atribuído este prémio e que mais tarde na vida defenderam pseudociências ou banha-da-cobra.

Um dos exemplos é o Linus Pauling, vencedor de dois Prémios Nobel (o da Química e o da Paz), que no final da sua vida defendeu que elevadas doses de vitamina C curavam o cancro e constipações e aderiu à medicina ortomolecular. Louis Ignarro, vencedor do Prémio Nobel da Medicina defendia que o óxido nítrico poderia prevenir e reverter doenças cardíacas. Nikolaas Tinbergen defendeu que as mães emocionalmente frias eram a causa de autismo. Mas existem muitos outros exemplos, como se pode ler aqui e aqui.

Luc Montagnier por ser dos cientistas premiados que mais defende ideias contrárias à ciência, é um exemplo paradigmático do que aqui se apresentou como Doença do Nobel.

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