Evidência anedótica.

Traduzido à letra da língua inglesa a partir de “anecdotal evidence”, evidência anedótica é o tipo de prova que se resume a historietas difíceis de verificar, difíceis de conhecer o contexto em que aconteceram (ou acontecem), difíceis de avaliar quantitativamente quanto a efeito ou frequência, etc. Em resumo, difíceis de averiguar a veracidade.  É o caso do “diz que disse” ou “comigo funcionou”.

Valem a pena a sua menção, mas não mais do que isso. Por vezes não é preciso mais nada. Evidência anedótica pode ser o suficiente como resposta para uma série de circunstâncias. Tipo “onde está o meu casaco?” Ou “Está a chover lá fora?”. A plausibilidade de uma afirmação dita a força das evidências que são precisas para a justificar, por um lado, por outro nem sempre a falta de rigor pode ser pertinente. Pode ser razoável aceitar evidência anedótica, mas não esquecendo que é sempre uma forma fraca de evidência. Pode, como procurei ilustrar, não ser preciso mais. Mas, para formar conhecimento sólido, capaz de proporcionar que se construa algo em cima, é. Afinal a ciência arrancou quando começámos a querer testar as coisas e a fazê-lo de um modo sistemático e metódico.

A evidência anedótica, até pode estar certa. Só que isso nós não sabemos. Por isso, por si só, não serve de prova quando queremos construir conhecimento de um modo consistente em que tudo tem de estar bem confirmado.

Volto a insistir no esclarecimento acerca deste tipo de justificação porque, embora em ciência a evidência anedótica esteja no seu devido lugar – não vale mais que a sua menção – no senso comum ela é tão poderosa (ou quase) como qualquer outra forma de evidência. E isso é usado e abusado na publicidade, na disseminação de pseudociências, em argumentos de café,  etc. Coisas que de um modo ou de outro acabam por influenciar as nossas escolhas. Muitas vezes, erradamente.

De um modo geral, as razões mais frequentes pelas quais a evidência anedótica é anedótica são:

  • Generalização falaciosa – porque normalmente apresenta poucos casos para depois generalizar para todos os outros, assumindo que o que temos é uma amostra válida. É uma tentação em que todos podemos cair para valorizar a nossa experiência pessoal ou falta de conhecimento. Houve uma altura em que não podíamos contar com muito mais do que amostras pequenas e isso terá ficado marcado no nosso cérebro ao longo da evolução. É extremamente tentador generalizar a partir de poucos dados, mas não tem desculpa quando há melhor. Quando não há é preciso prudência na mesma.
  • Cherry picking” – conscientemente ou não há uma tendência para “escolher as cerejas”, ou seja, escolher e apresentar apenas aqueles casos que satisfazem aquilo que queremos defender. Se não apresentarmos os casos todos (e trabalhamos com um sistema de observação que possa garantir que estamos a apresentar os casos todos) nem podemos saber se há cherry picking ou não. É preciso ver a relação entre positivos e negativos, por exemplo.
  • Tendência para a confirmação e de relembrar apenas os positivos (confirmation bias) – é a tendência universal para encontrar o que se procura e de negligenciar o que não concorre para o foco da procura por não parecer relevante. Por outro lado, se já temos uma ideia pré-formada é sempre mais fácil ver os erros em raciocínios que não concluem o que nós acreditamos do que naqueles que concluem aquilo em que estamos de acordo. A tendência para a confirmação engloba também aquelas observações que mostram que nos lembramos mais facilmente de resultados verdadeiros do que dos errados. Por exemplo é o que sucede quando os pretendentes a médiuns lançam várias hipóteses para o ar a ver se alguma pega e as pessoas no fim só se lembram dos “hits”.  Assim que é dita uma palavra certa, a “tendência para a confirmação” como que sinaliza um resultado positivo que marca toda a experiência. Poderíamos talvez enquadrar aqui também o cherry picking que é muito parecido,  mas na tendência para a confirmação, mais do que estar a escolher os casos é considerar um caso positivo quando ele não é.
  • Falhas de atenção / percepção – a atenção tem um foco muito pequeno que não permite registar tudo o que se passa. No entanto o cérebro não é “avisado” de tudo o que não estava a ser processado e tende a considerar que o que não observou se mantém como esperado. Por outro lado o cérebro tem uma tendência para preencher o que não sabe ou o que não percebe com o que acha que deve ser.  Tende a repetir padrões e até a identifica-los onde eles não estão (pareidolia, aparência de desígnio, ilusões de contornos – ver referencia (a) e (b) para exemplos).
  • Falácia post hoc ergo propter hoc – é a tendência para julgar haver uma relação causa efeito entre dois fenómenos  consecutivos no tempo. Por exemplo,  o caso em que A antecede B e se considera que A causou B. Por exemplo os chineses acreditavam que o eclipse do sol se devia ao facto de este estar a ser engolido por um dragão. Por isso era preciso fazer barulho para assustar o dragão de modo a que ele devolvesse o Sol – funcionava sempre. Para os mais curiosos, o problema filosófico de saber quando é que podemos dizer que há causa-efeito é chamado de problema de indução de Hume e é resolvido com graus de certeza e não com certezas absolutas. No entanto precisa de avaliação sistemática e justificação teórica.
  • Interesse pessoal / conflito de interesses – bias / fraude (esta claro que não é válida na primeira pessoa…)

Alguns destes problemas são pertinentes em todo o tipo de investigação. Vários investigadores têm mostrado que a tendenciosidade é um problema na ciência também . A questão é que sem metodologia e sistematização nem sequer conseguimos avaliar independentemente se há um confirmation bias ou cherry picking, para além de que a amostra pequena o sugere fortemente. Conseguir uma amostra significativa com um ou dois casos é virtualmente impossível para muita coisa.

Estas são também questões  que afectam a maneira como interpretamos as nossas próprias observações. Mesmo que a sejamos nós a testemunhar, na primeira pessoa, temos de ter cuidado para não cair em nenhum destes erros. Se a nossa observação pessoal vai contra a observação sistemática e teorias cientificas, o melhor é começarmos a tentar perceber onde é que nos enganamos.

Não obstante tudo o que foi escrito, toda a evidencia e observação deve ser avaliada e julgada no contexto teórico em que se insere.  Uma evidencia que não seja forte o suficiente para estabelecer uma teoria ou facto pode ser forte o suficiente para justificar uma observação compatível com uma teoria.

Em todo o caso a observação sistemática estará sempre acima de observação não sistemática, e há vários níveis de qualidade mesmo para a observação sistemática. No topo temos a observação repetida sistematicamente com números grandes  e verificada independentemente por vários observadores – senão nunca poderíamos derrubar teorias –  ao fim e ao cabo a autoridade máxima  na ciência é a evidencia empírica e não a teoria. Tem é de ser bem colhida e de modo a minimizar os problemas acima.

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