Ainda há uns tempos a ciência dizia isto, agora diz aquilo…

Investigação científica. Crédito: ErAnger, Pixabay

Investigação científica. Crédito: ErAnger, Pixabay

Pois é. A ciência evolui. Vive de discussões cerradas de especialistas (1) que se preocupam com os mais ínfimos pormenores mas que regularmente chegam a consensos. Às vezes até consensos de que teorias que competem em determinados aspectos têm de ser provisoriamente aceites como o melhor que há. 

E a ciência é realmente isso. A procura do melhor que há para explicar as coisas. Não é um conjunto de certezas absolutas, nem a última das verdades a que aspiram os religiosos. Para a ciência, a verdade é apenas uma atribuição de valor a uma afirmação conforme ela se adequa à realidade ou não. E a realidade é aquilo que está lá para além daquilo que nós acreditamos ou não. Certezas é algo que quase de certeza sabemos que nunca teremos. 

Por duas razões. Primeiro pelo problema da indução que não tem solução racional completa e provavelmente nunca terá. David Hume apontou que o conhecimento por indução, ou seja, partir da observação de grandes números e fazer uma generalização teórica, tem sempre o problema de não termos acesso a todo o universo observável. Deu como exemplo o facto de todos os naturalistas aceitarem que os cisnes eram brancos e nem sequer pensar duas vezes nisso, mas quando chegamos à Austrália encontrámos lá cisnes negros. Se dizemos que a gravidade é uma força atractiva é por indução e as fórmulas que criamos para a descrever são baseadas no que observamos por indução. Mas será que será sempre assim e em todo o lado? Por acaso até parece que não, pois há dados novos que sugerem isso e muito mais. Este problema estende-se a todo o conhecimento empírico. Afinal tudo o que valida a indução é a própria indução. E isto é mau sinal, normalmente quando chegamos a regressões infinitas é porque é um beco sem saída. 

A outra razão que nos leva a ter uma confiança razoável de que nunca vamos saber tudo é o Teorema de Godel. Este senhor provou matematicamente que nenhum sistema matemático pode ser completo e consistente ao mesmo tempo. Ou há coisas que o sistema matemático não abrange ou há contradições dentro dele próprio. E como a nossa ciência se baseia na matemática para descrever a realidade, sabemos que vai haver limitações. O mapa nunca passará a ser o território…

Agora isto não significa que não podemos saber nada. Alguma coisa parece que que podemos saber. E a primeira resposta bem-sucedida (bem-sucedida mas não definitiva, isso não temos) ao problema da indução de Hume veio de Karl Popper, muito inspirado nas ideias de Einstein sobre a ciência. Popper disse que podíamos ter conhecimento científico se as nossas teorias fossem capazes de fazer previsões acertadas sobre coisas relacionadas. Se falhassem essas previsões não seriam ciência. Se acertassem, embora não ultrapassassem completamente o problema de Hume, teríamos uma justificação forte para confiarmos nessas teorias. Porque isso mostra, ou no mínimo sugere fortemente, que mais do que conhecer a regra, temos algum conhecimento sobre o porquê dela existir. 

Mas havia ainda alguns problemas acerca da filosofia da ciência de Popper e ele passou os últimos dias da sua vida a tentar resolvê-los. A questão é que o tipo de previsões que as teorias teriam de fazer não estava tão bem definido como ele queria, uma vez que outro filósofo notou que o que se testava muitas vezes eram realmente condições acessórias. Por outro lado, uma previsão que desse mau resultado poderia levar a uma melhor teoria, depois de corrigida, e seria ingénuo deitá-la fora ao primeiro revés. O falsificacionismo, o nome desta abordagem de Popper, não foi completamente abandonado e ainda é uma característica da ciência mas agora sabemos mais sobre ele. Hoje além disso procuramos a consistência na ciência através do tipo de consequências que uma teoria tem. Se faz muitas previsões testáveis – novas hipóteses – que levem até à descoberta de novos dados e por último a novas teorias que se articulam com a original, formando um plano progressivo de investigação. Ou se por outro lado, leva a um programa degenerativo de investigação em que é preciso estar sempre a fazer alterações ad-hoc à teoria para ela funcionar. Lakatos foi quem pegou nas ideias de Popper e nos deu a filosofia da ciência moderna. Filosofia da ciência é o que tenta explicar o que é e como funciona a ciência e porque ela é tão bem sucedida. 

Por curiosidade, nem todos os grandes cientistas eram filósofos da ciência. Newton era, descreveu o que andava a fazer e apresentou o seu método. Einstein idem, aliás está na base das ideias que levam a Popper. Feynman dizia que a filosofia da ciência era tão importante para os cientistas como a ornitologia era para os pássaros. Mas para nós, que estamos a tentar perceber porque devemos confiar na ciência, a filosofia da ciência é tão importante como a própria ciência com que se confunde.

Em suma, uma teoria científica tem de estar em conformidade com tudo o resto que se sabe, explicar a parte que lhe compete e fazer previsões impensáveis antes de essa teoria aparecer – e ainda fazê-lo sistematicamente. Este é o elevado nível de exigência que tem de ter uma teoria científica para ser aceite como tal. É a nossa garantia que estamos a fazer o melhor que podemos para ter conhecimento. Resolve todos os problemas epistémicos? Não, mas é o melhor que conseguimos. São tantas as exigências a favor de consistência em detrimento de um conhecimento mais completo que podemos confiar que o que sabemos, não sendo garantidamente para sempre, é o melhor que se pode fazer em cada momento.

E essa é a história da ciência. É a história curta mas extraordinária de homens obcecados com saber o máximo possível acerca das coisas mais específicas e da sua incrível capacidade de articular o que sabem uns com os outros (embora por vezes com muito esforço…). E as peças encaixam. Não em tudo, mas na esmagadora maioria das coisas. E conforme se vai sabendo mais, e quantos mais dados temos, melhor vamos poder fazer as nossas teorias. Se isso não acontecesse poderia revelar, por exemplo, falta de abertura a novos dados, ausência de discussão aberta entre cientistas e incapacidade de formar os tais campos de investigação progressiva. Como aliás acontece em outras formas de conhecimento pseudocientífico e na religião – não evoluem quase nada: as discussões são autoritárias, escolhem os dados e teorias que lhes interessam por conformidade a dogmas iniciais e fazem vista grossa aos outros, não procuram criar teorias testáveis e muito menos programas de investigação. Por isso acabam com sistemas cognitivos fossilizados, cheio de inconsistências com tudo o resto que se sabe, e que vivem apenas de serem atraentes emocionalmente.

Ciência vs Fé. Adaptado de WellingtonGrey.net

Ciência vs Fé. Adaptado de WellingtonGrey.net (Clicar para aumentar)

Para além disso, e também por isso, a história da ciência é a história das melhores ideias no seu tempo. Raramente uma ideia científica, desde que a ciência é ciência, foi menos do que o melhor que se podia dizer sobre algo na altura em que essa teoria foi aceite – a história da ciência é a história das melhores ideias possíveis. Mesmo que erradas, ou incompletas, eram o melhor que se podia saber. Tinham, para o que se sabia na época, a melhor justificação e mesmo visto da perspectiva actual, ainda podemos confirmar isso. Excepto raras excepções, como a teimosia em aceitar a deriva dos continentes por exemplo.

Hoje temos, graças ao trabalho conjunto de tantas pessoas, cumprindo critérios extremamente exigentes de método, uma longevidade e uma  liberdade impensáveis. As coisas que podemos fazer e fazemos de facto, seriam consideradas magia por povos mais antigos. A velocidade com que podemos viajar e comunicar, as doenças que conseguimos tratar, as coisas que descobrimos que aconteceram antes de cá estarmos, as previsões que fazemos sobre o que pode acontecer… Foi um grande avanço no conhecimento – e é pena e desastroso não se prestar mais atenção a isso. Em 200.000 de humanidade, quase tudo o que temos, desde carros a computadores, apareceu graças aos últimos 600 anos de progresso científicoNem tínhamos como alimentar tanta gente só com métodos tradicionais – o preço da comida seria altíssimo. É uma história curta, mas extremamente bem-sucedida no contexto da história humana. 

E por tudo isto, é pouco provável que não estejamos a saber nada de nada, ainda que não tenhamos certezas seja do que for. Afinal o conhecimento humano será sempre justificado por conhecimento humano. É quase de certeza impossível fugir às regressões infinitas da autojustificação inicial e resolver o problema de Hume. E o Teorema de Godel continua tão matematicamente provado como quando Kurt Godel era vivo. 

Não ter certezas não quer dizer que vale tudo como sendo uma afirmação verdadeira. Quer dizer que temos de distinguir entre a validade das afirmações através da justificação que têm e escolher as melhores. E a ciência foi a melhor ferramenta que encontrámos. Com todas as suas falhas, ainda é o que realmente funciona melhor. E quando temos de tomar decisões e compreender algo, é melhor ir pelo melhor que se pode fazer. Pelo pior é pior. É escolher critérios epistémicos mais laxos e atirar à sorte.

(1) Na discussão científica estou a incluir não apenas a troca pública e privada de argumentos, mas também no peer-review que é parte importante do método científico e é uma espécie de discussão, ainda que não seja muito directa.

7 Responstas a “Ainda há uns tempos a ciência dizia isto, agora diz aquilo…

  • Fico sempre embasbacado com a facilidade com que uma cultura como a nossa, tão absorvida (e bem) em Ciência, continua sem entender aspectos centrais dela. A única razão para se falar de Hume num texto sobre Ciência só pode ser para vincar o carácter eminentemente anticientífico de Hume. O cepticismo de Hume destrói a ciência, sobretudo quando Hume ataca o princípio inegável da causalidade. A ciência é, sobretudo, o trabalho intelectual de procurar causas. Hume, como muitos outros filósofos do seu tempo, simplesmente nunca entendeu o que era a essência do trabalho científico, que é e sempre foi a procura das causas dos fenómenos naturais. Numa era de Internet, é estranho que João Coutinho não se tenha dado ao trabalho de ler os textos de início de carreira da Galileu para perceber que esse grande cientista tinha uma visão claramente apodítica (probatória) face ao trabalho científico. Galileu nunca duvidou de que fazer ciência era demonstrar coisas, e que havia coisas em ciência (não todas) que eram demonstráveis, ou seja, que tinham carácter apodítico. Depois, é bizarro dizer que a história da ciência é curta. Curta como? Só se for para perpetuar o mito de que a ciência só começa com Galileu. Há alguma dúvida de que Teodorico de Friburgo, no século XIV, demonstrou de forma definitiva (verdade absoluta, e não relativa) que o arco-íris era causado pela luz solar e por gotas de água, tendo inclusive explicado que os dois modos diferentes do percurso dos raios luminosos dentro de uma gota de água explicavam (de forma definitiva) o surgimento do arco-íris primário e do arco-íris secundário? Claro que Teodorico se enganou nos ângulos (Descartes viria a corrigir esses valores), mas quem duvida de que Teodorico deu a explicação certa, verdadeira, científica, para as causas do arco-íris? Cientistas posteriores aperfeiçoaram a precisão dos cálculos de Teodorico, cientistas posteriores, como Maxwell, formularam uma teoria segundo o processo hipotético dedutivo para tentar descrever matematicamente a radiação luminosa, mas Maxwell não refutou a explicação causal de Teodorico. Em ciência, progride-se pela acumulação de explicações causais verdadeiras. E elas começaram a acumular-se, no Ocidente, com os gregos, e depois com os medievais, e assim por diante. Nem vou comentar o boneco sobre Fé, porque tem o estatuto de um “gag”. Intelectualmente, esse boneco é uma coisa inepta. O João Coutinho comete o grave erro em filosofia da ciência de dar crédito às tontices do senhor Hume, uma mente anticientífica incapaz de ver o carácter auto-refutatório da sua própria filosofia. É simples ver o “problema” (pseudo-problema) da indução humeana no ridículo daquele hipotético cientista que teria enormes dúvidas acerca do efeito escaldante do seu bico de Bunsen pelo facto de ele nunca ter observado todos os bicos de Bunsen do planeta. Hume é o coveiro do pensamento científico. Um filósofo que, como ele, ataca o princípio da causalidade é alguém eminentemente perigoso para qualquer actividade científica.
    Há hoje cientistas e amantes da Ciência que ficam muito chocados com a popularidade (entre certos académicos, entenda-se) de filósofos como Latour e Woolgar, que defendem que toda a ciência é construção social. Mas essa gente que se choca com as tontices dos que reduzem a Ciência à sociologia não entendem que não teríamos Latours e Woolgares sem Hume. Hume perdeu de vista o que era a Ciência, e essa miopia humeana gerou descendência, sendo que os “filhos” e “netos” de Hume, desabituados do convívio com a Ciência e com o pensamento realmente científico, se tornaram ainda mais obtusos e opacos ao que é fazer ciência.

    • Bernardo, qual é o problema da afirmação: ” David Hume apontou que o conhecimento por indução, ou seja, partir da observação de grandes números e fazer uma generalização teórica, tem sempre o problema de não termos acesso a todo o universo observável. Deu como exemplo o facto de todos os naturalistas aceitarem que os cisnes eram brancos e nem sequer pensar duas vezes nisso, mas quando chegamos à Austrália encontrámos lá cisnes negros.”

      Para além da tua antipatia pessoal, qual é o erro que está exposto nesta frase? Ainda não percebi.

  • De forma a ser justo com o João Coutinho, gostava de desenrolar este novelo, para destacar o que me parece estar correcto, e o que me parece estar errado:

    “Não é um conjunto de certezas absolutas, nem a última das verdades a que aspiram os religiosos.”

    É muito frequente, nos meios ditos “cépticos” esta estranha e bizarra rejeição das certezas absolutas. Para o auto-intitulado “céptico”, há a certeza absoluta de que não há certezas absolutas. Sempre me intrigou essa descarada contradição. É óbvio que há certezas absolutas. A própria frase “não há certezas absolutas”, se tomada absolutamente, auto-refuta-se.

    Dito isto, é claro que há gradações nas certezas. Mas também há certezas absolutas. Há coisas demonstradas em ciência, e não são nada poucas… Uma demonstração pode ser definitiva, naquilo que foi o seu âmbito, mesmo que trabalho posterior venha refinar a demonstração ou aumentar-lhe o âmbito. Senão, nunca haveria progresso em ciência.

    Estou totalmente de acordo com o João Coutinho quando ele diz que o trabalho científico nunca acabará, e nunca se terá a verdade definitiva sobre tudo. E ele está no caminho certo quando refere Godel, cujos teoremas permitem ter a certeza de que, mesmo que um dia a ciência formulasse uma hipotética teoria de tudo, não haveria forma de provar essa teoria como verdadeira e definitiva.

    (uma achega sobre Godel: Dan Willard (e outros) trabalhou na procura de sistemas formais completos e consistentes, e encontrou-os. São sistemas formais dotados de uma aritmética muito fraca, mas existem)

    Continua o João:

    “Para a ciência, a verdade é apenas uma atribuição de valor a uma afirmação conforme ela se adequa à realidade ou não.”

    Eu não entendo o que ele quer dizer com “atribuição de valor”. Parece-me mais claro definir a verdade da forma como a filosofia clássica (aristotélica, realista) sempre a definiu: a verdade consiste na adequação do intelecto à realidade. Ou seja, uma ideia verdadeira é algo que existe no intelecto e que tem correspondência com a realidade. Mas penso que nisto o João concorda comigo. É mais uma questão de fraseado.

    “E a realidade é aquilo que está lá para além daquilo que nós acreditamos ou não.””

    Sim, concordo, a realidade é objectiva. O que nós acreditamos é subjectivo. Mas é óbvio que, muitas vezes, o que acreditamos é real, no sentido em que se adequa à realidade.

    “Certezas é algo que quase de certeza sabemos que nunca teremos.”

    Discordo totalmente e radicalmente. Há certezas científicas. Sempre houve. É isso que caracteriza real crescimento científico. Se eles fossem vivos, seria interessante ver a reacção de um Galileu, de um Newton, de um Einstein a esta frase do João. Este é o real perigo da infiltração do pensamento humeano (e também do pensamento kantiano, esse outro coveiro da Ciência) no pensamento científico.

    Como já ensinava Aristóteles, a ciência é o trabalho intelectual de procurar as causas. Muitas vezes, um cientista apenas consegue alcançar conhecimento provisório, provável, sobretudo quando usa o método hipotético-dedutivo. Mas há outros métodos de demonstração científica que garantem conhecimento certo e demonstrado. Galileu trabalhou bastante nestas questões no início da sua carreira, quando ensinava em Pisa e em Pádua. Galileu procurava aprofundar, na esteira da tradição aristotélica (que nessa altura ele ainda louvava), o problema da certeza demonstrativa, do carácter apodítico de uma demonstração científica. Nesse trabalho, como mostra a obra de William Wallace, Galileu socorreu-se das notas e dos apontamentos de professores jesuítas do Collegio Romano, em Roma. Mais concretamente, Galileu estudou variantes do método escolástico “ex suppositione”, um método em voga no Collegio Romano, e cujas raízes estão em Aristóteles. Os medievais, como por exemplo São Tomás de Aquino, já escreviam amplamente sobre os vários tipos de métodos demonstrativos, sendo que o método “ex suppositione” foi bastante popular. Este método tem três passos: partir das observações para a causa hipotetizada. Deduzir os efeitos, supondo que a causa hipotetizada é verdadeira, e depois confrontar os efeitos deduzidos com os (reais) efeitos observados. O método é bastante complexo nas várias precauções que são tomadas no seu decorrer para evitar ambiguidades ou tudo o que possa fragilizar o carácter apodítico da demonstração. Usando este método, inúmeros cientistas deram passos imensos em ciência. Foi assim que Galileu demonstrou que Vénus orbitava o Sol pela observação das suas fases. Foi assim que Teodorico demonstrou o mecanismo causal do arco-íris. Foi assim que Newton demonstrou a estrutura da luz visível nas suas experiências com um e dois prismas. E assim por diante.

  • Bernardo:

    As razões pelas quais Hume é importante para a filosofia da ciência estão explicitas no texto. A não ser que tenhas uma solução para o problema Humeano, dizer que ele é anticiencia não é um argumento, não chega, porque continuamos a precisar de resolver esse berbicacho. Também no texto, está a razão pela qual a historia da ciencia é curta – nós estamos cá ha 200.000 anos. Existem casos pontuais de pensamento cientifico desde o Egipto antigo, mas de uma sofisticação menor que o que é hoje o pensamento cientifico e a consciencia que temos dele. Depois, o verificacionismo não é também o que é a ciencia dos dias de hoje. NAturalmente que eu conheço o pensamento de Galileu. Mas desde Darwin que trabalhamos com condições falsificaveis, coisa que os criacionistas gostam de dizer que não é ciencia, que ciencia é só o que faziam os antigos com o verificacionismo. Para além disso a verificação independente, o teste através da exploração de todo o paradigma, o peer-review, são coisas bem actuais, ainda com menos de 600 anos. O que quero dizer é que é curta a historia da ciencia como parte da sociedade, não que não há casos salpicados aqui e ali.

    Quanto ao arco Iris. Não parece haver razão para dizer que isso está errado, mas isso é irrelevante quando estamos a fazer essa afirmação dentro de um quadro que usa uma série de pressupostos. Mas é baseado na induçao e na experiencia empirica sistemática e em muitos outros casos que parecia que estavamos com certezas absolutas, afinal não estavamos correctos – e é sobre isso o post. Afinal ele não sabia porque razão cada cor tomava um angulo diferente por exemplo. Imagina que se pode fazer arcos iris sem agua, ou sem gotas seja do que for e até sem fazer a luz passar através de matéria. E pode. Como sabia ele que todos os arco iris eram como o que ele descrevia? Ou sequer que eram a maioria? E por isso, mais que estar errado ou estar certo a enfase deve ser posta no processo de justificação que temos.

    De modo algum dizer que provavelmente não temos certezas absolutas é autorefutante. Afinal também não tenho a certeza que não possamos ter certezas absolutas. Para já isso parece-me quase de certeza (nota o quase) algo que não podemos ter. Nem o solipsismo tem solução racional nem a regressão infinita de toda a tua razão ser justificada pela tua propria razão. Temos sempre de fazer assumpções iniciais e essas aceitamos que estão certas até certo ponto, mas não de deixam ter certezas de nada. Devias saber isso, já que falas tanto em filosofia. Mesmo se acreditas em deus, estás a confiar em ti para poder dizer que podes confiar na crença em deus.

    O problema de Godel é para tudo o que tenha uma complexidade superior à aritmetica de Piano. Isso é sabido há imenso tempo. Um sistema trivial por exemplo é completo, consistente mas não diz nada sobre nada – é como dizer “tudo é milagre”. Mas isso não interessa. Desculpa não ter mencionado isso no texto mas a verdade é que não é relevante para o que está em questão, pois precisamos de matematica complexa. Depois, a matematica é uma abstração, e temos coisas provadas dentro dos proprios axiomas que criamos. Esses axiomas sendo reduzidos a quadro lógico, como queria Russel, é que não é possivel. Podem portanto estar errados e ter coisas provadas com axiomas errados não serve para nada. Porque sistemas formais há aos pontapés, temos é de ver o que funciona e não funciona. Essas certezas matemáticas não são portanto certezas universais, algo que provavelmente não existe.

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