Escrito na Pedra II – Fantasia nos livros de História

O intuito do primeiro post “Escrito na Pedra  foi focar a importância e a crença quase desmedida que muitas pessoas conferem à palavra escrita, em especial à palavra impressa. O exemplo então referido, a Bíblia, não é, no entanto, único e insere-se num plano de crença mais vasto que ultrapassa a atitude face à palavra escrita, atingindo o conhecimento básico que temos acerca do funcionamento do mundo.

Num patamar com algumas semelhanças com os dogmas religiosos, a construção identitária dos povos está intimamente relacionada com a construção e propagação do discurso histórico. No entanto, esta construção encontra-se condicionada pelas especificidades inerentes à História enquanto ciência social, entre as quais saliento a distância temporal entre o historiador e os acontecimentos que ele estuda, que, por norma, é proporcionalmente inversa à existência de dados sólidos acerca dos mesmos. Por outro lado, como, numa perspectiva lata, o objecto de estudo da História, assim como da Arqueologia, é o ser humano, a multiplicidade de planos que compõem as suas acções e as suas formas de organização está sujeita a diversas interpretações. O enquadramento social e ideológico do historiador têm um papel fundamental na construção do seu discurso, tal como o debate em torno da obra de Rui Ramos o demonstrou no final do passado ano de 2012[1]. No final, os discursos históricos assumem-se como reflexo de um tempo. Do mesmo modo, devido ao seu papel na construção identitária dos povos, o discurso histórico constitui-se como um veículo de inculcação ideológica. Neste âmbito, não devemos confundir o espaço que é deixado à interpretação com a pura invenção de dados. São coisas bem diferentes.

Na apresentação efectuada na primeira ComceptCon tentei demonstrar como alguns mitos da nossa História foram e são ainda propagados em muitos meios escritos (e.g. livros e jornais impressos), em especial a ideia de que Viriato teria nascido e vivido na Serra da Estrela. Esta ideia não tem fundamento nas fontes documentais antigas e vários autores[2] têm salientado, de forma bastante clara, como esta ideia foi fabricada de modo a construir uma imagem apologética do povo português e do seu líder – Oliveira Salazar – ao mesmo tempo que fomentava uma visão de heroísmo estreitamente ligado a um modo de vida estoico (numa visão filosófica) ou miserável (numa visão mais social) que se pretendia disseminar.

JHS e Viriato

À esquerda, J. H. Saraiva; à direita, estátua de Viriato, em Zamora, Espanha

Um factor determinante para a disseminação e manutenção de vários mitos relacionados com Viriato, ainda bastante fortes hoje em dia na identidade histórica portuguesa, é a sua proliferação escrita nos meios que citei acima, aos quais acresce com grande pujança, a internet. Estes meios, como não podia deixar de ser, citam-se uns aos outros. A partir do momento que muitas ideias sem fundamento factual ganham inúmeras referências bibliográficas (várias são mesmo livros de História escritos por historiadores conceituados no seu tempo), elas entram no sistema de referência cultural dos leitores. No caso dos muitos mitos em torno da figura de Viriato, estes entraram nos manuais escolares, na toponímia e na arte, por via politica e ideológica [2], o que torna mais difícil inverter o processo. Não é, na verdade, o único mito a ter este percurso. A título de exemplo, a vida de D. Afonso Henriques (e.g. apontando Guimarães como local do seu nascimento) ou as invasões bárbaras no final do Império Romano são temas tratados numa base mais mitológica do que histórica. Ainda que possa ter o condão de cativar leitores para o estudo da História, podemos questionar de que modo as visões apologéticas fantasiosas dos acontecimentos do passado, disseminadas em meios pedagógicos e de entretenimento contribuem para o descrédito das ciências sociais.

Um exemplo evidente diz respeito à “História de Portugal”, coordenada por José Hermano Saraiva [3], nomeadamente na forma como são caracterizados os Lusitanos e Viriato. Como demos já a entender, os mitos em torno de Viriato estão razoavelmente tratados pela historiografia portuguesa e espanhola, surgindo na maioria das obras académicas mais recentes em modelos bastante distintos daqueles que eram patentes durante o Estado Novo. No entanto, a obra coordenada por José Hermano Saraiva, nomeadamente o seu primeiro volume, datado de 2004 e da autoria de Ângelo Ribeiro, apresenta Viriato com todos os estereótipos de há 70 e 80 nos atrás. Para os leitores menos atentos – aqueles que não leem os prefácios antes de comprar um livro – passará despercebido o facto de Ângelo Ribeiro ter falecido em 1936 e que o texto apresentado tem já muitas décadas. O único local do livro que menciona este facto é o prefácio de J.H. Saraiva, que nunca chega a dizer qual a verdadeira data da obra original. Enfim, compra-se um livro com data de 2004 que foi escrito 70 anos antes. Os comentários de J. H. Saraiva no final de cada capítulo, nos quais o autor deveria fazer uma actualização dos conhecimentos, nunca fornece ao leitor uma visão mais actual da questão.

Este é um exemplo dos enganos que pode provocar a leitura menos atenta da palavra impressa.

A palavra escrita, principalmente quando é impressa em forma de livro, assume-se para muitos como um valor absoluto mas, na verdade, existem muitos cuidados a ter na sua interpretação. A Comcept tem alertado para esta questão em vários posts. A escrita constituiu-se como um desenvolvimento crucial na civilização humana como meio de organização social e propagação de conhecimentos, entre muitas outras coisas. No entanto, no caso das ciências sociais (nas quais se enquadra a História e a Economia) a falta de conhecimentos de base por parte dos leitores, aliada à falta de uma atitude crítica torna-os facilmente instrumentalizados, com consequências que a História europeia do Século XX bem demonstra.


[1] A título de exemplo (mas há muito mais para ler em inúmeros blogues):

http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/278307.html

http://blasfemias.net/2012/08/21/rui-ramos-responde-a-artigo-difamatorio/

http://aventar.eu/2012/08/30/manuel-loff-responde-a-rui-ramos/

http://aventar.eu/2012/09/06/a-historia-de-rui-ramos-desculpabiliza-o-estado-novo/

http://corporacoes.blogspot.pt/2013/02/ainda-historia-de-portugal-de-rui-ramos.html

[2] A título de exemplo:

Guerra, A., Fabião, C., 1992. Viriato: Geneologia de um Mito, Penélope – Fazer e Desfazer a História 8, 9-23.

Pastor Muñoz, M., 2006. Viriato. O herói lusitano que lutou pela liberdade do seu povo. A Esfera dos Livros.

[3] Saraiva, J.H. (Coord.), 2004. História de Portugal. Vol. 1, A formação do território – da Lusitânia ao Alargamento do País. Matosinhos: QuidNovi.

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