Disparates virais – ciclo de 823 anos dá dinheiro?

Os e-mails ou mensagens em corrente são um exemplo fascinante da forma como a desinformação se propaga naquela que, ironicamente, é chamada “a era da informação”. Estas mensagens dividem-se geralmente em duas categorias: as fraudes, em que alguém tenta extorquir dinheiro ou informações das suas vítimas; e depois os chamados “mitos urbanos”, que se vão difundindo através do apelo à compaixão, medo ou deslumbre de quem os recebe. Estes últimos normalmente não passam de uma “chatice” que temos de aturar por parte de alguns dos nossos amigos menos críticos, mas ainda assim a questão daquilo que leva alguém a iniciar uma mensagem em corrente é algo que sempre me fascinou. Quantos terão começado por credulidade, isto é, por alguém ter tropeçado num fragmento de desinformação que considerou genuíno e importante para partilhar com os seus amigos? E quantos terão começado por simples brincadeira para ver até onde vai a credulidade do próximo?

A “era da informação”

Com a chegada do Facebook a disseminação destas mensagens tornou-se ainda mais fácil, basta clicar em “partilhar” após a fracção de segundo de atenção a que cada post tem direito. Aliás, a nossa atenção no mundo dos estímulos constantes da Internet é tão reduzida, que é possível formar uma interpretação completamente errada até mesmo a partir de informações correctas. Eu próprio cheguei a fazer a experiência com os leitores de um texto da minha autoria.

Mas uma das características mais interessantes de algumas destas mensagens é a sua tendência para reencarnarem em novas versões ligeiramente diferentes, o que permite que continuem a disseminar-se indefinidamente. No livro O Gene Egoísta, o biólogo evolutivo Richard Dawkins cunhou o conceito de meme – uma ideia ou comportamento que, por analogia aos genes, replica-se, sofre mutações e é alvo de pressões selectivas. E, apesar de esta ser uma hipótese ainda envolta em controvérsia, parece que as mensagens em corrente se comportam de forma idêntica, ainda que, a analogia tenha as suas limitações (nos “memes” da Internet não existe uma tendência para a preservação da informação, estes são deliberadamente “mutados” pelos internautas, ao contrário do que acontece com os genes e com os memes propostos por Dawkins). A mensagem que se segue, retirada do Facebook, é um bom exemplo dessas múltiplas encarnações.

O Feng Shui de um disparate

Mensagem em corrente do Facebook.

Mensagem em corrente do Facebook. Clicar para aumentar.

É-nos dito que o mês de Agosto terá este ano 5 sextas-feiras, 5 sábados e 5 domingos (o que é verdade), que este é um evento que acontece apenas uma vez a cada 823 anos (o que é falso) e que este é um fenómeno que de alguma forma é especial (altamente duvidoso). E tal como nas mensagens clássicas, o internauta é incitado a continuar a corrente com uma mistura de aliciamento (dinheiro) e temor (castigo). De facto, o apelo à superstição parece marcar presença em muitas destas mensagens, geralmente referências de sorte e azar ou, neste caso específico, o Feng Shui.

Agosto terá 5 sextas-feiras, 5 sábados e 5 domingos sempre que o mês comece por uma sexta-feira. O mesmo acontece com qualquer mês que possua 31 dias. Consultando um calendário, é fácil comprovar que a última vez que isto aconteceu foi em 2008 e que a próxima será em 2025, o que demonstra que o ciclo de 823 anos simplesmente não pode corresponder à verdade. Na realidade, este é um fenómeno que segue um padrão de 6-5-6-11, ou seja, quando o mês de Agosto começa com uma sexta-feira, esse evento ocorre novamente daí a 6 anos, depois 5 anos mais tarde, depois 6 anos e finalmente 11 anos, após o que, o ciclo se repete. Tendo este facto em mente e com a ajuda de uma folha de cálculo, é possível prever que durante os próximos 823 anos irão existir 118 meses de Agosto com 5 sextas-feiras, 5 sábados e 5 domingos.

Exemplo do padrão de 6-5-6-11 anos.

Exemplo do padrão de 6-5-6-11 anos.

A essência da mensagem permaneceu relativamente inalterada ao longo de várias versões e traduções, inclusive o alegado ciclo de 823 anos, mas os meses e os dias da semana vão mudando à medida que os anos passam. Existem versões que falam de Julho ou Outubro em vez de Agosto (uma vez que também têm 31 dias), outras falam de uma sequência de 5 sábados, 5 domingos e 5 segundas-feiras, enquanto outras de 5 domingos, 5 segundas-feiras e 5 terças-feiras. Mas a versão mais caricata que encontrei (a menos preocupada em parecer real), foi a que falava das 5 sextas-feiras, 5 sábados e 5 domingos que Julho de 2012 iria ter, quando na verdade, esse mês só tinha 4 sextas-feiras e 4 sábados  alguém pegou no calendário de 2011 e mudou simplesmente o ano. Ainda assim, o padrão repetitivo de 6-5-6-11 acaba por se aplicar a todas estas versões.

Será que o Universo sabe código binário?

Mesmo que fosse real, por que razão teria o ciclo de 823 anos alguma propriedade especial?! Quanto muito seria uma simples curiosidade. Há quem acredite que os números têm um significado especial, que são uma espécie de mensagem do Universo ou de alguma entidade superior, uma superstição que é sistematizada pela numerologia. Mas tanto os calendários como o nosso sistema numérico não passam de convenções humanas. Se utilizássemos antes o calendário maia e o seu sistema de numérico de base 20, uma boa parte das interpretações numerológicas teriam um resultado diferente. E se os 365 dias do ano fossem divididos apenas em dois meses? E se vivêssemos noutro planeta com uma órbita diferente e, por extensão, um número de horas por dia e dias por ano diferentes? O Universo adaptaria as suas mensagens?

Seja por superstição ou falta de atenção, a verdade é que esta mensagem vai continuar a circular e muito provavelmente ressurgir para o ano que vem com um mês alternativo, sendo até possível prever quais são os potenciais candidatos – os meses com 31 dias:

Janeiro de 2015: 5 quintas-feiras, 5 sextas-feiras e 5 sábados;
Março de 2015: 5 domingos, 5 segundas-feiras e 5 terças-feiras;
Maio de 2015: 5 sextas-feiras, 5 sábados e 5 domingos;
Julho de 2015: 5 quartas-feiras, 5 quintas-feiras e 5 sextas-feiras;
Agosto de 2015: 5 sábados, 5 domingos e 5 segundas-feiras;
Outubro de 2015: 5 quintas-feiras, 5 sextas-feiras e 5 sábados;
Dezembro de 2015: 5 terças-feiras, 5 quartas-feiras e 5 quintas-feiras;

Como virar o jogo?

Os mais supersticiosos estarão naturalmente inclinados a aceitar uma mensagem que reforça ainda mais o seu sistema de crenças. Basta pensar que tudo o que bastava para detectar a mentira era consultar o calendário do computador, o que leva menos de um minuto. A única forma de separar o trigo do joio é treinar o pensamento crítico. Mas como se pode introduzir o pensamento crítico a quem está habituado a ser crédulo? Depois de usar o meu “dom” de adivinhação para prever a próxima versão desta mensagem, dei comigo a pensar – será possível disseminar o pensamento crítico, ainda que parcialmente, utilizando alguns dos factores que contribuem para propagação das mensagens em corrente? Uma espécie de cavalo de tróia do cepticismo… Não sei se irá funcionar, mas aqui fica a minha ideia para quem quiser tentar:

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Marco Filipe

Licenciado em Genética e Biotecnologia e mestre em Biotecnologia para as Ciências da Saúde. É colaborador da COMCEPT desde o início e o repórter n.º1 da PetaNews – a melhor agência de jornalismo alternativo e complementar do Universo. Nutre um particular interesse pelos temas da pseudociência e do negacionismo de ciência, sobretudo, pelos perigos que representam para a sociedade.

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