Vamos abolir as lareiras?

Serve este estranho título para introduzir um tema que causou grande agitação na imprensa e redes sociais na passada semana: a inclusão do herbicida glifosato na lista de compostos “provavelmente carcinogénicos para os seres humanos (Grupo 2A)” da Agência Internacional para a Investigação em Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS).

IARC - logotipo

Para perceber o que é que isto implica, há que começar pelo princípio e responder com seriedade a várias perguntas:

1) Como é que esta lista é organizada e que outros compostos/actividades lá podemos encontrar?

A IARC é uma agência da OMS especializada no tema do cancro. Como está explicado na sua página oficial, o objectivo da IARC é a promoção da colaboração internacional no estudo do cancro. Dão também particular ênfase ao estudo dos factores de risco ambientais e de estilo de vida. A IARC não interfere directamente na implementação de medidas de controlo destes agentes, não faz investigação nem tratamento de cancro.

Periodicamente, publicam as “Monografias sobre a Avaliação do Risco Carcinogénico para Humanos”. Nestas monografias, são identificados os factores ambientais (compostos químicos, actividades humanas, etc.) que possam aumentar o risco de cancro em seres humanos. Estes factores são classificados em cinco categorias:

  • Grupo 1: o agente é carcinogénico para os seres humanos.
    Neste grupo estão incluídos os agentes para os quais a IARC considera que existem provas suficientes de carcinogenicidade em seres humanos. Inclui, por exemplo, as bebidas alcoólicas, o ácido aristolóquico (já aqui mencionado), o amianto, a queima de carvão dentro de casa, o formaldeído (formol), o tabaco ou a radiação gama.
  • Grupo 2Ao agente é provavelmente carcinogénico para os seres humanos.
    Este é o grupo em causa nesta notícia e inclui agentes para os quais as provas são limitadas para os seres humanos, mas consideradas suficientes em modelos animais. Para além do famigerado glifosato, inclui a acrilamida, os esteróides anabólicos, a queima de lenha dentro de casa (lareiras!), a profissão de cabeleireiro ou barbeiro, a malária, o chá mate ou o trabalho por turnos.
  • Grupo 2Bo agente é possivelmente carcinogénico para os seres humanos.
    Neste grupo encontramos agentes para os quais as provas são limitadas para os seres humanos e insuficientes em modelos animais São exemplo alguns insecticidas, o extracto das plantas Aloe vera e Ginkgo biloba (!!), a aplicação de betumes, o VIH ou o café.
  • Grupo 3: o agente não pode ser classificado quanto à sua carcinogenicidade para os seres humanos.
    Nesta categoria estão agentes para os quais as provas são inadequadas ou muito limitadas. Inclui os fármacos aciclovir (usado no tratamento de herpes labial), diazepam e paracetamol, o colesterol, o pó de carvão, os campos eléctricos estáticos, a manufactura de vidro, a luz fluorescente ou a tinta de impressora.
  • Grupo 4: o agente provavelmente não é carcinogénico para os seres humanos.
    Aqui são incluídos os agentes para os quais existem provas que sugerem que estes não são carcinogénicos (tanto em seres humanos como em modelos animais). Este grupo é muito limitado, uma vez que é muito difícil encontrar estas provas e nele apenas encontramos a caprolactama (composto orgânico derivado do ácido hexanóico e precursor do nylon 6).

Para chegar a esta classificação, a IARC analisa estudos disponíveis tanto em seres humanos como em modelos animais e classifica-os em distintas categorias. Não fazem uma avaliação de risco, não estabelecem nenhum modo de acção específico. Emitem uma opinião sobre a potencialidade de um factor causar cancro, mas sem um cálculo de probabilidade. A conclusão é, portanto, conservadora e precaucionária.

Podem consultar a lista completa neste link.

No Volume 112 das Monografias foram incluídos cinco novos compostos na lista: o herbicida glifosato e os insecticidas malationa e diazinona (grupo 2A); os insecticidas tetraclorvinfos e parationa (Grupo 2B)

 

2) O que é o glifosato?

O glifosato [N-(fosfonometil)glicina] é um herbicida não selectivo e sistémico, ou seja, que é transportado aos diferentes órgãos da planta, sendo eficiente no combate a plantas perenes, embora tenha uma acção mais lenta do que outros herbicidas. É muito usado em culturas comerciais em todo o mundo, incluindo Portugal, onde alegadamente é o herbicida mais vendido. Foi introduzido no mercado na década de 1970 pela empresa agroquímica Monsanto (como ingrediente activo do Roundup), mas a sua patente já expirou, pelo que é vendido hoje por diversas empresas. Em Portugal, está autorizada a venda pela Sygenta, Cheminova, Monsanto, Bayer, Dow, Arysta, Makhteshim, Nufarm, Afrasa, e Lainco, sob diversas formas. A sua utilização aumentou a nível mundial quando a Monsanto introduziu no mercado culturas transgénicas resistentes a este herbicida (como soja e milho Roundup ready). O glifosato actua inibindo uma enzima relacionada com a produção de alguns aminoácidos, sendo apenas efectivo durante o crescimento da planta.

 

3) O que é que dizem outros cientistas e relatórios sobre o glifosfato?

Na página do Science Media Center poderão encontrar uma compilação das reacções de vários cientistas a esta nova classificação. As reacções são maioritariamente cautelosas, com algumas vozes a dizerem que a classificação não foi muito correcta porque não existem provas claras (os estudos são contraditórios e tendencialmente concluem pela não-carcinogenicidade). Chamam também à atenção para as conclusões a tirar, tendo em conta os muitos outros agentes que são identificados nesta lista (ver acima).

Podem aqui consultar o documento da Environmental Protection Agency (dos EUA) relativo ao glifosato, onde se afirma que o “glifosato tem toxicidade oral e dérmica relativamente baixa”. Contudo, este documento data de 1994.

E a União Europeia? Na União Europeia, o glifosato está autorizado como produto fitofarmacêutico pela Directiva 2001/99/EC de 20 de Novembro de 2001 (que emenda a Directiva 91/414/EEC de 15 de Julho de 1991). O Regulamento N.º 540/2011 de 25 de Maio de 2011 diz que só pode ser usado como herbicida e alerta para que os Estados-Membros estejam atentos à “protecção das águas subterrâneas em zonas vulneráveis, nomeadamente no que respeita às utilizações não agrícolas”. O relatório global da Comissão Europeia (que podem descarregar aqui) é expectável que os produtos fitofarmacêuticos que contenham glifosato cumpram com os requerimentos de segurança do Art.º 5  da Directiva 91/414/EEC. Conclui ainda que, no que diz respeito aos resíduos resultantes do uso autorizado, se a aplicação for consistente com boas práticas, não existirão efeitos nefastos para a saúde humana ou animal. Não prevê efeitos ambientais inaceitáveis mas admite que os trabalhadores devem recorrer a medidas de segurança durante a aplicação. Segundo um relatório científico de 2014 apresentado à EFSA, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (European Food Safety Authority),  ainda não foi emitida uma opinião global em relação aos resíduos de glifosfato nos alimentos.

Segundo o Instituto Federal para a Avaliação de Risco alemão (Bundesinstitut für Risikobewertung) a classificação agora feita pela IARC não tem base científica e estará baseada em muito poucos estudos, alguns dos quais indicam uma correlação entre a exposição ao glifosato e o risco de linfomas não-Hodgkin e outros são de modelos animais.

 

Conclusão

Quer isto dizer que o glifosato e outros herbicidas ou pesticidas são inócuos? Não, de todo! Quer dizer que os pesticidas são potencialmente perigosos, tal como muitas outros agentes presentes no nosso dia-a-dia, dependendo da dose e da duração da exposição. A toxicidade (e carcinegenicidade, se for o caso) de um determinado agente depende fundamentalmente da dose: a botulina (a neurotoxina usada no comum botox) é tóxica a doses muito baixas enquanto que a Vitamina D é tóxica quando em doses elevadas.

O que não é justificável é o alarmismo e o sensacionalismo que rodearam esta inclusão e, sobretudo, há que frisar que nada disto tem a ver com a segurança dos alimentos transgénicos (tema para um outro post…ou vários).

Por isso, tendo em conta títulos como este no jornal Público e o acima exposto, eu pergunto: devemos abolir as lareiras?

 

Por fim, aconselho este pequeno vídeo do projecto Risk Bites (em inglês) onde poderão encontrar mais algumas explicações de uma forma simples e animada!

 

Imagem de destaque: Mike Mozart – Flickr

5 Responstas a “Vamos abolir as lareiras?

Trackbacks & Pings

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

%d bloggers like this: