O bitoque vai-nos matar?

A semana começou com uma notícia alarmante: comer carnes processadas e carnes vermelhas provoca cancro.

Por detrás desta afirmação está um relatório da IARC – International Agency for Research on Cancer (Agência Internacional para a Investigação em Cancro), um ramo da Organização Mundial de Saúde (OMS), que classificou o consumo de carne processada como carcinogénica para Humanos (Grupo 1) e a carne vermelha como provavelmente carcinogénica para humanos (Grupo 2A).

Compreendo que à primeira vista isto pareça assustador, atendendo a que estas carnes fazem parte da dieta da maioria dos portugueses. Mas, sem alarmismos, vamos tentar perceber o que esta informação realmente quer dizer.

 

A classificação da IARC

Este relatório foi realizado por um grupo de trabalho da IARC constituído por 22 cientistas que se juntaram para analisar um conjunto de estudos científicos (neste caso, mais de 800) previamente publicados, cujos resultados foram publicados na revista Lancet Oncology.

Como já explicámos noutro texto sobre as avaliações da IARC, os produtos ou substâncias analisadas são classificados em 5 grupos, consoante a evidência científica existente:

Grupo 1: o agente é carcinogénico para os seres humanos, onde se inclui o formol, radiação gama, tabaco, amianto, álcool e agora carne processada (bacon, fiambre, salsichas, carnes fumadas).

Grupo 2 A: o agente é provavelmente carcinogénico.

Grupo 2 B: o agente é possivelmente carcinogénico.

Grupo 3: o agente não pode ser classificado quanto à sua carcinogenicidade para os seres humanos.  

Grupo 4: o agente provavelmente não é carcinogénico para os seres humanos.

 

Mas o que é que isto significa afinal?

Para analisar a notícia, é preciso ter em mente que “estas classificações são baseadas na força da evidência e não no grau de risco”. Por outras palavras, “estas classificações não servem para indicar quão perigosa uma coisa é, apenas a quão certos estamos de que algo é perigoso”, como explica Ed Yong num texto publicado na The Atlantic.

Foquemo-nos apenas nos dois grupos em questão, 1 e 2A, e vamos ver o que cada um significa. Yong explica de modo claro:

Grupo 1: o agente é carcinogénico para os seres humanos. Significa: “podemos estar certos de que estas coisas têm o potencial de causar cancro”, (…) “e não que vai definitivamente causar cancro”.

Grupo 2 A: o agente é provavelmente carcinogénico. Significa: “há alguma evidência de que estas coisas podem causar cancro, mas não temos a certeza”.

 

Com um exemplo percebe-se melhor.

Num texto de Casey Dunlop para o blogue do Cancer Research UK, é recuperada uma explicação do professor David Phillips em que este exemplifica através de uma analogia que a “IARC faz identificação de perigo” e não “avaliação de risco”. Nessa analogia, Phillips recorre a cascas de banana:

Definitivamente causam acidentes, mas na prática isto não acontece frequentemente. E o dano causado por escorregar numa casca de banana, normalmente não é tão severo como ter um acidente de carro. Mas num sistema de identificação de perigo como o da IARC, as cascas de banana e os carros estariam na mesma categoria, uma vez que definitivamente causam acidentes.

 

Mas a carne processada está no mesmo grupo do tabaco! Isto não é perigoso?

Esta foi outra fonte de polémica, e de sensacionalismo, em que algumas notícias colocaram as carnes processadas ao mesmo nível do tabaco. Apesar de estes dois produtos estarem no mesmo grupo (porque existem fortes evidências de que causam cancro), não têm o mesmo risco de causar essa doença. Por outras palavras, é muito maior o risco de desenvolver cancro com o consumo de tabaco do que com o consumo destas carnes.

Tabaco vs Carne

Crédito: Cancer Research UK

De acordo com as estatísticas do Reino Unido, 66 em cada 1000 pessoas que comem muita carne vermelha ou processada desenvolverão cancro colo-rectal no seu tempo de vida, em comparação com 56 em cada 1000 que comem muito pouca carne vão desenvolver o mesmo cancro, segundo noticia o The Globe and Mail. Ou seja, a diferença é de 10 pessoas em cada mil, atendendo à diferença de tipo de alimentação.

Para salientar uma vez mais a diferença entre a identificação de perigo realizada pela IARC e a análise de risco, observemos as seguintes estatísticas mundiais que mostram que dentro do Grupo 1 da IARC, há diferentes níveis de risco de contrair cancro através desses agentes carcinogénicos:

Estatísticas a nível mundial (nº de mortes por cancro por ano, devido a agentes do Grupo 1):

Tabaco – cerca 1 milhão de mortes por cancro/ano

Álcool – cerca de 600 mil mortes por cancro/ano

Amianto – mais de 100 mil mortes por cancro/ano

Carnes processadas – cerca de 34 mil mortes por cancro/ano

Fonte: The Globe and Mail

 

Mas o que causa o cancro?

Os mecanismos da causa de cancro através do consumo destas carnes ainda não estão totalmente compreendidos, nem o estudo da IARC pretende responder a essa questão, como já vimos. Contudo, existem algumas hipóteses que pretendem responder a essa pergunta:

Grupos Hemo – são os pigmentos vermelhos constituintes das células sanguíneas (hemácias). Os hemos são encontrados em maior quantidade nas carnes vermelhas e processadas do que em carnes brancas. Estas substâncias podem irritar ou danificar os tecidos dos intestinos, pelo que mais células necessitam de se dividir para compensar esse dano. Quanto mais células se formarem, maior a probabilidade de ocorrerem alterações, i.e. mutações, que poderão originar tumores. Os hemos também podem levar a que as bactérias no nosso trato digestivo produzam compostos azotados, conhecidos como causadores de cancro. 

Nitritos e nitratos – são adicionados artificialmente para preservar as carnes processadas. No intestino, os nitritos são convertidos em compostos azotados. É preciso ter em atenção que o uso destes conservantes é importante, pois previne o crescimento de bactérias, principalmente de Clostridium botulinum, a bactéria causadora de botulismo que origina intoxicações, a maioria das vezes letais. Estes conservantes são utilizados na indústria alimentar em quantidades mínimas – é a dose que faz o veneno. Estamos perante um claro exemplo de uma análise custo-benefício, em que se não recorrêssemos aos nitritos, dificilmente nos poderíamos alimentar com segurança de alheiras, farinheiras, salsichas, entre outros.

Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos – compostos formados quando a carne é cozinhada a altas temperaturas, por exemplo no barbecue, e que também estão associados à causa de cancro.

 

Conclusão

Uma vez mais, verifica-se o que já dissemos muitas vezes: é a dose que faz o veneno. Não há problema em comer carne desde que seja em moderação, até porque é uma boa fonte de nutrientes (sim, alguns desses nutrientes também se encontram noutros alimentos). Por isso, deve evitar-se comer grandes quantidades com muita frequência. A alternativa pode passar por comer porções mais pequenas destas carnes, acompanhadas com feijões e outros legumes e ir substituindo por carne de aves e peixe.

 

Fontes:

Ed Yong, Beefing with the World Health Organization’s cancer warningsin The Atlantic.

Casey Dunlop, Processed meat and cancer – what you need to know, in Cancer Research UK blog

Suzi Gage, Meat and Tobacco: the difference between risk and strength of evidence, in The Guardian

André Picard, Go ahead, have that BLT for lunch, in The Globe and Mail

Diet facts and evidence, in Cancer Research UK blog

Outras notícias

Vera Novais, E agora, temos mesmo que deixar de comer carne?, in Observador

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