Das velas nos ouvidos a Trump: a comunicação de ciência no mundo da pós-verdade

This article was first published in Spokes, the magazine of Ecsite, the European network of science engagement. Issue 27, February 2017. 

Vivemos em tempos estranhos. A humanidade nunca soube tanto sobre tantas coisas e, contudo, nunca discordámos tanto sobre as implicações daquilo que sabemos. Nunca tivemos tanta sede de informação e tanta facilidade de acesso à mesma e, no entanto, nunca tratámos os factos com tão pouco apreço, ou até mesmo com desprezo, como vemos tantos a fazer neste momento. Em 2006, os Dicionários de Inglês da Oxford incluíram formalmente “google” como um verbo, designando o acto cada vez mais comum de procurar informação online; dez anos depois, em 2016, os mesmos Dicionários de Inglês da Oxford consideraram “Pós-Verdade” a palavra do ano, como uma expressão “relacionada com, ou denotando circunstâncias em que factos objectivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais”.

No mundo da pós-verdade os factos já não interessam e a verdade parece irrelevante, especialmente se for contrária às crenças das pessoas, e existem inúmeros exemplos desse comportamento. Alguns são aparentemente inócuos: enfiar velas nos ouvidos é uma prática curiosa em spas da moda, em que uma vela de cera tubular é inserida no canal auditivo externo de uma pessoa deitada de lado e é depois acendida. É dito, e algumas pessoas acreditam, que enquanto a vela arde esta remove a cera dos ouvidos: o ar quente primeiro desce (?) e derrete a cera dos ouvidos, a qual é depois sugada com o ar quente ascendente; todo este procedimento é também suposto relaxar e remover “toxinas” pelos ouvidos. À parte arriscar queimar o cabelo e potenciais danos nos tímpanos, a coisa parece ridícula mas quase inofensiva.

Outras crenças não são tão inócuas: um número crescente de pais está a recusar-se a vacinar as suas crianças com base em alegações de que as vacinas contêm substâncias perigosas e que estão associadas ao autismo, alegações que foram repetidamente demonstradas falsas e absurdas; a França é actualmente o país que lidera esta desconfiança na vacinação e toda esta situação está a tornar-se numa questão de saúde pública mundial. Receitas milagrosas para curar tudo, como as dietas alcalinas para curar o cancro, surgem frequentemente na Internet e fazem com que algumas pessoas renunciem aos tratamentos reais e abracem estas “medicinas alternativas” sem provas, para seu próprio prejuízo.

Outras crenças não comprovadas, falsas ou irracionais tornam-se num sucesso estrondoso, como é o caso das dietas da moda que estão a ficar mais loucas do que alguma vez foram. Existe uma dieta para cada capricho e desejo: detox, anti cancro, superalimentos, sem-açúcar, anti envelhecimento, anti stress, paleodieta, só carne, vegan, sem ovos, só com ovos… O medo e o alarmismo são os novos produtos vendidos nos supermercados e restaurantes: algumas pessoas evitam o glúten a qualquer custo (e os alimentos sem glúten são realmente caros!) mesmo que não tenham a mínima ideia do que é o glúten ou que este nunca lhes tenha criado qualquer problema; muitos rejeitam todas as provas que mostram que o glúten é prejudicial apenas para a pequena percentagem de pessoas com doença celíaca, ou para aqueles que sofrem de sensibilidade não celíaca ao glúten (uma doença ainda controversa), o que não constitui um número de pessoas suficiente para justificar a moda do sem glúten. É um grande negócio: uma breve pesquisa na Amazon revela mais de 12.400 livros sobre dietas sem glúten e é até possível encontrar produtos tão absurdos como champôs e desodorizantes sem glúten.

E é surpreendente como um grande número de pessoas aparentemente razoáveis acredita em teorias da conspiração incríveis: os teóricos da conspiração dos “chemtrails” acreditam que os rastos brancos que se formam no céu atrás dos aviões são na verdade substâncias químicas que os governos mandam pulverizar sobre as populações para as manterem subjugadas e manipuláveis; um grande número de pessoas acredita que a ida à Lua em 1969 foi um embuste, e que aquilo que o mundo inteiro viu entusiasticamente na TV foi uma produção feita em estúdio (curiosamente, nessa altura tínhamos a tecnologia para ir à Lua, mas não aquela necessária para falsificar a emissão de TV).

Rastos de condensação de aviões no céu de Bruxelas – que os teóricos da conspiração dos “chemtrails” alegam ser substâncias que os governos pulverizam para manterem as populações subjugadas. Foto por António Gomes da Costa.

Rastos de condensação de aviões no céu de Bruxelas – que os teóricos da conspiração dos “chemtrails” alegam serem substâncias que os governos pulverizam para manterem as populações subjugadas. Foto por António Gomes da Costa.

É fácil descartar todos estes exemplos (e existem muitos mais) como não sendo muito problemáticos, uma vez que, em última análise, a maior parte do mal acontece àqueles que acreditam em coisas falsas ou não pensam racionalmente. Mas, numa perspetiva global, até as velas nos ouvidos são apenas aparentemente inócuas; de facto, fazem parte de uma tendência preocupante, a da propensão cada vez mais generalizada para desprezar factos, ignorar a lógica e abraçar o pensamento mágico. Esta atitude confunde e envenena toda a discussão sobre assuntos que deviam ser resolvidos através de políticas baseadas em factos, tais como as alterações climáticas, o fracking, as energias renováveis, o declínio da biodiversidade, o investimento na exploração espacial, e muitos outros. É acompanhada por uma rejeição da ciência, considerando-a “apenas” como outra interpretação possível da realidade, como uma “crença” com tanto peso como outra qualquer.

Esta atitude pós-verdade tem consequências terríveis: a democracia pressupõe – exige, na verdade – que as decisões tomadas pelos cidadãos sejam baseadas em factos concretos e em escolhas racionais. As nossas sociedades contemporâneas, o nosso bem-estar, o progresso, a saúde, a economia e a justiça, tudo isto exige que a verdade e os factos e a lógica sejam a base das nossas acções e decisões colectivas. A pós-verdade é uma séria ameaça à democracia.

Se 2016 pode ser chamado o ano da pós-verdade, é por causa do Brexit e de Trump: existe um consenso generalizado de que os factos, a verdade e a lógica tiveram muito pouco a ver com o referendo britânico e com as eleições norte-americanas, e existe um receio crescente de que isto também venha a ser o caso nas próximas eleições e referendos por toda a Europa.

Podemos compreender esta loucura? Podemos encontrar qualquer linha lógica de pensamento que explique as velas nos ouvidos e Trump? Podemos encontrar um curso de acção para consertar as coisas e recuperar o nosso mundo racional?

Sim, podemos. E, como iremos ver, a explicação é dada pela ciência e parte das soluções poderão ter muito a ver com a comunicação de ciência e de como esta é feita.

OS FACTOS ERRADOS

Somos todos muito maus a adquirir os factos de forma correcta. Para começar, os nossos sentidos não são de confiança e, portanto, não podemos depender deles para recolher informação. Até coisas aparentemente simples como determinar a temperatura de um objecto são impossíveis de realizar com qualquer grau de precisão. A experiência bem conhecida de colocar uma mão em água quente e a outra em água fria e depois imergir ambas as mãos em água morna ilustra isso: a mão que estava imersa na água quente parece fria e a mão que estava na água fria agora parece quente. Considerações semelhantes aplicam-se a todos os outros sentidos: não são de confiança, e estão sujeitos a erro e inconsistências como é demonstrado por muitas ilusões ópticas, sonoras e tácteis, ou como é repetidamente sugerido pelos muitos desentendimentos que temos com outras pessoas sobre a forma como percebemos o mundo à nossa volta. E os nossos sentidos são muito limitados: basta pensar na fracção minúscula do espectro electromagnético que os nossos olhos são capazes de ver.

Os nossos cérebros não são de confiança a guardar informações e muito menos a estabelecer ligações entre estas. O que pensamos saber com certeza, o que achamos serem memórias rigorosas de um evento, podem na verdade ser memórias bastante incorrectas ou até falsas. Este parece ser um facto tão desconfortável que escolhemos ignorá-lo como fazemos normalmente com as verdades inconvenientes: um número crescente de evidências mostra que as testemunhas oculares podem estar bastante erradas sobre aquilo que viram, mas os tribunais continuam a condenar pessoas baseando-se em testemunhos oculares, mesmo quando estes vão contra todos os factos recolhidos por outros meios.

Os nossos cérebros evoluíram de um modo que, embora excelente para a nossa sobrevivência, não é bom para determinar o que é verdade. Por exemplo, nós “sofremos” de pareidolia, a inclinação para identificar formas familiares naquilo que são de facto padrões imprecisos e aleatórios: fazemos isso de cada vez que “lemos” um emoji ou vemos uma cara em Marte ou um cisne nas nuvens. A nossa percepção de como o mundo funciona é dificultada pela nossa incrível tendência de confundir correlação (um facto está relacionado com outro) com causalidade (um facto é a causa de outro) e pela nossa terrível percepção das probabilidades [1].

No que toca à obtenção de factos estamos, todos nós, sujeitos a uma série de vieses. A psicologia e a economia comportamental têm descrito um número impressionante de maneiras que nos fazem obter os factos de forma incorrecta ou até distorcê-los involuntariamente. Tomemos como exemplo o efeito de ancoragem (anchoring bias) que nos faz dar demasiada importância a um pedaço de informação, geralmente apenas por ter sido a primeira informação que obtivemos sobre o assunto; ou o efeito da popularidade (bandwagon effect), que designa a nossa forte tendência para pensar que algo está certo apenas porque muitas outras pessoas pensam o mesmo; ou o viés de confirmação (confirmation bias), que nos leva a considerar apenas aqueles factos que confirmam as nossas expectativas e a minimizar a importância de todos os outros; ou a tendência para o estereótipo (stereotyping bias), que nos leva a pensar que um indivíduo deve ter uma característica simplesmente porque ele ou ela pertence a um dado grupo; ou o raciocínio em retrospectiva (hindsight bias), que é a falácia lógica de pensar que “nós sempre soubemos” que um evento ia acontecer, com base em provas obtidas depois do evento acontecer e encontrando a causalidade raciocinando cronologicamente da frente para trás. A lista dos nossos erros é enorme[2][3].

Também não podemos confiar no nosso raciocínio: para além dos nossos problemas comuns em obter factos e determinar a verdade [4], sabemos agora que mesmo quando temos os factos correctos a maneira como os utilizamos para fazer as nossas escolhas está longe de ser lógica e coerente, e estamos sujeitos a uma miríade de influências subconscientes que condicionam as nossas decisões. O que pensamos ser uma opção racional é na verdade muitas vezes uma escolha irracional, ditada por muitas coisas para além da lógica [5]. Manter simultaneamente crenças contraditórias não é incomum, apesar de parecer uma coisa impossível para os seres humanos lógicos e racionais que alegamos ser. Mas muitos de nós parecemos ser especialistas a viver com dissonância cognitiva e em aceitar como verdade duas ou mais visões do mundo logicamente contraditórias [4].

Mas sempre fomos assim: imperfeitos, sujeitos a vieses e com capacidades questionáveis para obter factos, encontrar a verdade e tomar decisões lógicas. Os charlatões existiram ao longo de toda a história e em todas as sociedades, ficando ricos a vender elixires milagrosos. O populismo não é uma invenção recente, e a manipulação das nossas fraquezas, equívocos, vieses e preconceitos tem sido a táctica de muitos ditadores para ascender ao poder. Apesar das nossas insuficiências conseguimos chegar longe e parecia que as sociedades democráticas estavam a ter sucesso em compensar as nossas limitações e vieses individuais. Isso parece já não ser verdade: sempre tivemos charlatões e populistas, mas agora eles nem sequer tentam parecer verdadeiros ou coerentes e, no entanto, estão a obter níveis de popularidade sem precedentes. O que está a acontecer?

Para tentar entendê-lo, temos de enfrentar notícias ainda mais desagradáveis sobre como lidamos com os factos: obtê-los de forma correcta não é suficiente. De facto, confrontar as pessoas com factos pode ter um efeito bastante negativo.

O AUMENTO DO EFEITO DA VISÃO DO MUNDO

Consideremos por um momento as alterações climáticas. Como todos sabemos, este é um tópico politicamente sensível. Como tal, é esperado que pessoas com visões políticas contrárias tenham posições divergentes sobre o assunto, uma vez que as suas opiniões serão fortemente influenciadas pelas suas ideias políticas (o viés da visão do mundo ou worldview bias). A ciência é clara sobre o assunto: as alterações climáticas são reais e a actividade humana é a principal causa. Portanto, seria de esperar que o conhecimento e a literacia científica contrabalançassem as divergências políticas, e seria legítimo esperar que a diferença de opinião entre pessoas politicamente opostas diminuísse com o aumento da compreensão científica. Surpreendentemente, verifica-se o contrário: para membros de grupos políticos diferentes, à medida que aumenta a compreensão da ciência, mais díspares e extremas se tornam as opiniões sobre o perigo das alterações climáticas [6].

Impacto da compreensão de ciência na aceitação do aquecimento global, de Kahn, D.M et al (2016 Preprint): Science Curiosity and Political Information Processing. Advances in Political Psychology.

Impacto da compreensão de ciência na aceitação do aquecimento global, de Kahn, D.M et al (2016 Preprint): Science Curiosity and Political Information Processing. Advances in Political Psychology.

Isto é o que podemos chamar o efeito aumentado da visão do mundo – um resultado que, embora não pareça, é bastante lógico. Quando sabemos muito sobre um determinado tema, a nossa opinião sobre qualquer assunto com ele relacionado é sustentada por muitos factos, raciocínios e razões. Portanto, é de esperar que seja necessário mais do que um facto, um debate, ou uma abordagem diferente, para contestar todo o edifício que sustenta a nossa posição e mudar de opinião. Para além disso, quanto mais sabemos sobre um dado assunto e quanto maior a nossa educação científica, mais fácil se torna seleccionarmos, entre a vasta colecção de factos na nossa posse, aqueles que confirmam as nossas ideias preconcebidas. Quanto maior a nossa formação científica, mais equipados estamos com a lógica e raciocínio necessários para questionar a validade de factos que vão contra as nossas crenças, e maior a capacidade de argumentar contra alguém com opiniões diferentes. Por outras palavras: quanto maior o nosso conhecimento, mais forte é a base em que os nossos vieses se apoiam.

Este aumento do efeito da visão do mundo foi já testado para vários tópicos [6], desde a posse privada de armas aos aditivos alimentares, da nanotecnologia aos alimentos geneticamente modificados. Quando o assunto em causa é politicamente neutro (por exemplo, aditivos alimentares) o efeito aumentado desaparece: um conhecimento crescente sobre um tema altera as opiniões no mesmo sentido, independentemente das visões políticas. Mas quando a posições sobre factos está associada a grupos sociais distintos, as pessoas tendem a seleccionar factos que correspondem à visão do grupo ao qual pertencem.

Exemplo do efeito da visão do mundo. Objecções morais e económicas contra empresas como a Monsanto conduzem frequentemente a uma rejeição cientificamente mal informada da própria tecnologia. Washington DC, 12 de Outubro de 2013. Foto por Stephen Melkisethian.

Exemplo do efeito da visão do mundo. Objecções morais e económicas contra empresas como a Monsanto conduzem frequentemente a uma rejeição cientificamente mal informada da tecnologia da modificação genética. Washington DC, 12 de Outubro de 2013. Foto por Stephen Melkisethian.

A pós-verdade começa agora a fazer sentido. Num mundo em que cada vez mais pessoas têm acesso a cada vez mais informação, mais forte e generalizado se torna o efeito da visão do mundo. Em muitos aspectos, as pessoas estão a tornar-se em “especialistas”, com acesso a todo o tipo de provas para suportar a sua visão do mundo. E, como todos sabemos, é possível encontrar provas na Internet para suportar praticamente qualquer coisa, e é muito difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso.

Acima de tudo, está a tornar-se muito fácil obter apenas os factos e provas que encaixam na nossa visão do mundo. Costumávamos ter fontes de informação comuns e toda a gente era exposta aos mesmos factos; mas agora já não é assim: escolhemos os factos a que temos acesso, seleccionando facilmente os jornais que lemos e os canais de notícias que vemos. Usamos as nossas redes sociais como fonte principal de informação e como plataforma para debater as nossas ideias, mas ao mesmo tempo seleccionamos cuidadosamente os amigos que aceitamos no Facebook e quem seguimos no Twitter. É sempre possível encontrar online uma enorme quantidade de dados que “claramente” suportam as nossas opiniões, e podemos contactar várias pessoas de todo o mundo que pensam como nós. Vivemos numa “bolha” de informação personalizada, permitindo que o efeito da visão do mundo se torne extremo. Será, assim, surpresa que as sociedades estejam profundamente divididas sobre tantos assuntos e que o centro político (em muitos aspectos, o campo político em que várias visões do mundo se encontravam e eram negociadas) esteja a desaparecer e que os extremismos estejam a ser novamente legitimados?

Vários intervenientes estão a desenvolver esforços para contrariar este efeito: a campanha presidencial norte-americana tornou a verificação de factos um elemento comum da comunicação social, o Google incorporou-a, e agora até o Facebook está a pensar rebentar as nossas bolhas de informação. A verificação de factos está a tornar-se rapidamente na palavra de ordem como resposta à pós-verdade.

Mas é possível que não seja o suficiente.

O EFEITO RICOCHETE

Os factos podem ter um papel perverso: quando contradizem as crenças de uma pessoa, os factos podem fazer ricochete (backfire) e tornar a pessoa ainda mais arreigada na sua posição inicial. Este efeito foi descrito pela primeira vez para mal-entendidos de natureza política [7] e mais recentemente demonstrou-se que se aplica também a outros assuntos. Num estudo sobre a eficácia de vários métodos para dissipar ideias erradas de pais que têm opiniões anti vacinação [8], estes foram aleatoriamente distribuídos por grupos: um grupo de controlo e 4 grupos que  corresponderam a quatro maneiras diferentes de explicar e informar sobre os factos ligados à vacina tríplice: foram confrontados com imagens que mostravam os efeitos da papeira, sarampo e rubéola; ou receberam informação factual sobre a inexistência de provas que associem a vacina tríplice ao autismo; ou informação sobre os perigos das doenças que são evitáveis pela vacina; ou um testemunho dramático de um caso real de uma criança que quase morreu com sarampo. Os resultados foram perturbadores: apesar de a refutação das alegações que associam a vacina tríplice ao autismo ter reduzido com sucesso os equívocos dos pais sobre este assunto específico, nenhuma das abordagens aumentou as intenções dos pais em vacinar os seus filhos. Pior que isso, de alguma forma o confronto com imagens de doenças evitáveis pela vacinação aumentou a percepção dos pais de que a vacinação é perigosa e, para alguns pais de todos os grupos, a experiência aumentou a sua determinação em não vacinar os filhos. Os factos fizeram ricochete.

Vários dados começam a confirmar que quando a opinião de alguém se baseia em crenças, os factos que as contrariam são sentidos como uma ameaça, tornando a pessoa mais comprometida com as suas crenças e recorrendo a todas as estratégias possíveis para as reforçar. Existem várias dessas estratégias. Por exemplo, no confronto entre factos e crenças, as teorias da conspiração florescem: alegar que as “grandes farmacêuticas” pagam aos cientistas para esconder a verdade sobre as vacinas e para inventar factos falsos faz com que todos os factos científicos percam o sentido. Ou então, a “ignorância intencional” pode entrar em jogo e ser usada como argumento: “eu não sou cientista” é por vezes utilizado para desprezar as provas científicas sobre o aquecimento global como sendo demasiado complexas, substituindo-as com “provas” do senso comum e dizendo, por exemplo, que o aquecimento global não existe porque estamos a atravessar um dos Invernos mais frios de há décadas. Os direitos democráticos básicos podem ser usados de uma forma abusiva: “eu tenho direito à minha opinião” é utilizado com frequência para terminar qualquer discussão sobre algo que claramente não é uma questão de opinião.

Os truques abundam quando alguém não quer encarar a verdade, mas no mundo da pós-verdade eles estão a tornar-se perversos. Os partidários da pós-verdade encontraram a maneira mais fácil de lidar com factos que se opõem a crenças, sem qualquer necessidade de teorias da conspiração ou raciocínio ilógico: as crenças são agora abertamente aceites como mais importantes do que a verdade, e a verificação de factos é rejeitada como uma “coisa dos media elitistas desligados da realidade”. Melhor ainda, se for necessário não só ignorar os factos, mas também inventar factos que suportem uma opinião, pode-se fazê-lo facilmente: o que costumávamos chamar de mentiras agora chama-se “factos alternativos”. Não há necessidade de debater, discutir ou refutar provas. Se pessoas suficientes disserem que não querem saber da verdade, então os factos e a razão deixam de ter qualquer significado.

ALGUMA LUZ, POR FAVOR

Tudo isto pinta um quadro bastante sombrio. Mas mesmo que o acesso fácil e global à informação e as enormes quantidades de dados sejam parte do problema ao potenciarem o efeito da visão do mundo, não podemos nunca defender o controlo mais apertado da informação ou recomendar a limitação do acesso à mesma. Isto poderia muito bem significar o fim daquilo que estamos precisamente a tentar preservar: para que a verdade e a razão possam prevalecer é vital que exista acesso livre aos factos [9].

E talvez não precisemos de nenhuma medida drástica. Talvez possamos encontrar uma maneira de contornar os nossos defeitos, de compensar o efeito da visão do mundo. Talvez possamos recolher dados por outros meios que não os nossos sentidos e desta forma evitar sermos enganados por estes; talvez possamos imaginar um corpo de conhecimento que apenas aceita algo como verdade se for confirmado por várias pessoas, independentemente das suas religiões, opções políticas e normas sociais, diluindo assim os vieses e o raciocínio individual tendencioso, e cancelando o efeito da visão do mundo; talvez possamos impor como regra que apenas aceitamos factos que possam ser verificados de forma independente e potencialmente demonstrados como errados; talvez possamos fazer questão de permitir que as nossas descobertas sejam permanentemente passíveis de ser testadas tornando-as públicas e descrevendo cuidadosamente como chegámos até elas e qual o nosso raciocínio lógico, permitindo que estes processos sejam replicados por outros; talvez possamos dizer que o único sistema de conhecimento válido é aquele que voluntariamente aceita que tudo pode ser demonstrado como errado e que não faz mal refutar coisas, e que esse é o caminho para seguir em frente e para nos educarmos a nós próprios sobre como contrariar o efeito ricochete.

Sim, provavelmente o leitor já percebeu: já andamos a fazer isso há muito e chama-se ciência. A ciência é de facto o que desenvolvemos para compensar a enorme tendência para nos enganarmos a nós próprios, e desde o Iluminismo que a temos vindo a incorporar progressivamente nas nossas sociedades.

Mas o mundo pós-facto não indica que a ciência falha? Na verdade, não. As coisas sobre as quais as pessoas cientificamente literatas concordam excedem largamente as coisas sobre as quais discordam devido ao efeito da visão do mundo. E, mesmo que demore tempo, as pessoas mudam mesmo de opinião com base em provas científicas robustas – as nossas sociedades evoluíram e as opiniões mudaram com base em provas [10]. Sim, a ciência é bastante sólida e funciona bem contra o efeito da visão do mundo. É por isso que os promotores da pós-verdade estão activamente a cultivar dúvidas sobre a ciência, “perpetuando a noção de que não existe uma verdade real, ou que se existe uma verdade esta não é alcançável, e que para cada problema existem sempre dois pontos de vista igualmente válidos”. A ciência demonstra o contrário e a comunicação de ciência precisa de lutar contra esta destruição da imagem da ciência com toda a determinação necessária.

POR UMA DEFESA FIRME E CLARA DA CIÊNCIA

Sejamos francos: quando escrevi anteriormente que a ciência é o antídoto para o efeito da visão do mundo muitos leitores terão pensado “oh, sim, isso. Nós sabemos, mas…” e depois muitas dúvidas terão surgido. Na verdade, alguns ataques à ciência tornaram-se tão comuns que quase se transformaram em verdades inquestionáveis, permeando o nosso discurso sobre ciência. Isto é perigoso e revela uma tarefa fundamental da comunicação de ciência no mundo da pós-verdade: abordar os ataques mais comuns à ciência. Vejamos alguns deles e a sua respectiva refutação (vai soar um pouco a sermão, mas por favor tenham paciência pois há uma conclusão a tirar).

“A ciência não explica tudo”. Não, não explica, isso é um facto. Na verdade, esse é um dos pontos fortes da ciência: ser bastante exacta e precisa sobre aquilo que não explica. Esse é o princípio de qualquer boa investigação: definir o que se sabe e o que não se sabe.

“Existem artigos científicos que afirmam uma coisa e outros que afirmam o oposto”. É verdade, isso é a ciência em construção. Não significa que existem múltiplas verdades ou dois lados diferentes para uma mesma questão, mas antes que são necessárias muitas provas para que algo seja finalmente aceite como verdade. E, mesmo depois disso acontecer, pode ainda vir a ser demonstrado falso se novas provas surgirem. Isso é frequente na ciência e é assim que o conhecimento aumenta.

“A ciência nunca tem 100% de certeza; por exemplo, os cientistas nunca dizem que algo é 100% seguro”. Sim, é verdade. A ciência reconhece e é bastante honesta sobre as limitações dos seus métodos e a precisão restrita das suas conclusões. Outras abordagens podem reclamar certezas (de facto, a certeza é uma característica das pseudociências) mas não existe garantia de que essas certezas sejam verdade: ou se acredita ou não. Em ciência, não se trata de acreditar.

“Alguns cientistas são criacionistas ou anti vacinação…”. Sim, isso é bem verdade! É até possível encontrar exemplos de comportamentos estranhamente irracionais de cientistas brilhantes, como o facto de Newton ser um místico radical e um alquimista, ou de Linus Pauling defender poderes milagrosos da vitamina C. Mas é exactamente esse o aspecto essencial da ciência: não se trata do que uma pessoa acredita ou diz, mas sim do que uma comunidade mundial reconhece como válido através de múltiplas verificações independentes. Um cientista pode ser anti vacinação, mas a ciência não é anti vacinação.

“Existem falhas graves na forma como é feita ciência, por isso devemos aceitar outras explicações e verdades”. Sim, as falhas da ciência estão bem documentadas: por exemplo, a pressão do “publicar ou perecer” que frequentemente faz com que os cientistas publiquem artigos sem uma verificação cuidadosa ou até mesmo incorrectos, ou o facto de não existirem suficientes replicações de experiências. Mas as principais detecções de fraude científica e os principais avisos sobre as falhas do processo científico provêm do próprio sistema científico. A ciência pode ter grandes problemas, mas é um sistema que tem consciência desses problemas, é sincero sobre os mesmos e contém mecanismos de auto-regulação [11]. E, fundamentalmente, dizer que a ciência tem falhas não valida automaticamente as explicações alternativas.

O objectivo desta lista de ataques à ciência é mostrar que a sua refutação não é realmente uma refutação, mas antes um reconhecimento. As coisas que as pessoas dizem contra a ciência, as características e problemas que as pessoas identificam na ciência como algo negativo, são na verdade características positivas e fundamentais da própria ciência e a razão pela qual esta é tão válida. Que essas características sejam consideradas como aspectos negativos apenas demonstra o quão pouco as pessoas sabem sobre o que é realmente a ciência – e o que ainda é preciso fazer na comunicação de ciência! Neutralizar a pós-verdade é de facto transmitir uma forma de comportamento. Um comportamento científico, por assim dizer. “Não importa apenas aquilo que as pessoas pensam, mas sim a forma como pensam” [12].

O que nos leva a dois aspectos importantes que são frequentemente ignorados quando se comunica ciência. O primeiro é que temos tendência a apresentar especialistas como autoridades num determinado assunto: quantas vezes apresentamos algo como verdade porque “aquele cientista bastante conhecido assim o diz”? Mas, para uma pessoa leiga, um especialista e um charlatão são indistinguíveis e é sempre possível encontrar um “especialista” para cada opinião diferente [13]. Devemos portanto ter cuidado quando recorremos a cientistas como especialistas: nunca devemos apresentar um especialista como uma autoridade, mas antes como uma pessoa que pode fornecer uma série de informações e responder a questões para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões.

E isto leva-nos ao segundo e mais importante aspecto da comunicação de ciência no mundo da pós-verdade: tornar as pessoas conscientes do procedimento de validação especifico da ciência – um processo que é único e que vai contra tudo o que experimentamos ao longo da vida. Desde o nascimento que vivemos num mundo onde a validação é feita por autoridades: primeiro, os pais dizem o que é certo e errado, depois os professores, os padres ou imãs ou outras autoridades religiosas, os líderes políticos, os comentadores de notícias, os profissionais experientes e até a celebridade de cinema que não hesita em dizer o que devemos comer. Crescemos num mundo que é validado através da autoridade. Existe apenas um sistema de conhecimento que não se baseia na autoridade: é a ciência, onde a validação é feita através das provas, e não da autoridade. Esta é uma diferença enorme e fundamental, que devia ser considerada em qualquer análise, debate ou processo de decisão: afirmar que algo está certo ou errado porque “um especialista assim o diz”, significa implicitamente que se deve aceitar a autoridade desse especialista; fazer a mesma afirmação dizendo que “a ciência assim o diz”, significa que existem provas (várias delas), verificáveis por qualquer pessoa,  que claramente o demonstram.

Se os comunicadores de ciência precisarem de escolher apenas uma mensagem que seja necessário garantir que os cidadãos entendem neste mundo da pós-verdade, essa mensagem deve ser a diferença entre a validação baseada na autoridade e a validação baseada na ciência.

RUMO A UM MUNDO CURIOSO

E se existisse algo que nos torne, enquanto indivíduos, protegidos ou, pelo menos, menos susceptíveis ao efeito da visão do mundo e ao efeito ricochete? Pois bem, existe: a curiosidade sobre a ciência. Uma investigação fascinante [14] mostra que, apesar da compreensão de ciência aumentar o efeito da visão do mundo, se substituirmos a compreensão de ciência por curiosidade sobre a ciência e testarmos para os mesmos temas, a intensificação do efeito da visão do mundo desaparece. Continuam a existir diferenças na percepção global, mas quando a curiosidade aumenta as opiniões mudam no mesmo sentido. Melhor ainda: os indivíduos com curiosidade científica mostram uma clara preferência por informação surpreendente, mesmo quando essa informação vai contra as suas disposições políticas: para o curioso, os factos terão pouca tendência a fazer ricochete.

Os respectivos impactos da compreensão de ciência e da curiosidade de ciência na polarização ISRPM, de Kahn, D.M et al (2016 Preprint): Science Curiosity and Political Information Processing. Advances in Political Psychology.

Os respectivos impactos da compreensão de ciência e da curiosidade de ciência na polarização ISRPM, de Kahn, D.M et al (2016 Preprint): Science Curiosity and Political Information Processing. Advances in Political Psychology.

Estes são apenas resultados preliminares, mas devem ser seguidos com atenção pelos comunicadores de ciência. Não podemos dizer que agora nos vamos dedicar a aumentar a curiosidade nas pessoas: vários comunicadores e educadores de ciência têm trabalhando com este propósito e todos sabemos o quanto é difícil. Como é referido pelos autores que descobriram este efeito, em vez de se tentar uma tarefa praticamente impossível (a de promover a curiosidade científica como um antídoto para os efeitos da visão do mundo e ricochete), “é melhor fornecer aos comunicadores de ciência orientações concretas sobre como obter o benefício do pedacinho de curiosidade científica que exista na população em geral”.

Este é aquele momento em que muitos comunicadores de ciência exclamam “nós já estamos a fazer isso!”, mas poderíamos por favor ter cuidado com o raciocínio em retrospectiva e outros vieses? Não estamos a falar sobre como usar a curiosidade de ciência para fazer com que as pessoas aprendam ciência; e recapitulemos: os estudos científicos estão a fornecer provas abundantes de que o problema com a falta de comportamento racional que estamos a testemunhar nas sociedades contemporâneas não se deve simplesmente a uma falta de conhecimentos científicos; esses estudos estão também a demonstrar que compensar o défice de conhecimento com factos científicos e informação científica não funciona e, em alguns casos, pode ser ainda pior. Fazer comunicação de ciência centrada na compensação do défice de literacia científica não vai resolver muita coisa.

Em vez disso, é preciso debater como a investigação sobre os “fenómenos da pós-verdade” deve alterar a nossa acção e objectivos. Precisamos de formação profissional com base nestas descobertas sobre o comportamento humano e de desenvolver novas abordagens. E devemos estar bem conscientes de que a arte, por exemplo, pode ser tão eficaz como esqueletos de dinossauros para despertar a curiosidade científica, por isso não se trata apenas de desenvolver actividades científicas.

Precisamos de agir – o mundo da pós-verdade cria uma necessidade urgente. Precisamos de defender a ciência e a atitude científica. Temos de mudar o nosso foco e discutir como as nossas práticas e instituições devem mudar para contrariar a pós-verdade, como promover a ciência sem activar o efeito da visão do mundo, como expor as pessoas a factos sem arriscar que estes façam ricochete.

“Muitos dos problemas numa comunicação eficaz de ciência são consequência de formas de comunicação que colocam desnecessariamente as pessoas na posição de terem de escolher entre usar a sua razão para serem quem são e usá-la para saber o que é conhecido pela ciência – um dilema que os indivíduos, compreensivelmente, tendem a resolver a favor da primeira hipótese”, avisam os autores do estudo sobre a curiosidade científica [14].

Precisamos de prestar atenção a esta advertência. Por exemplo, devemos transmitir claramente a mensagem de que a ciência e as provas científicas não validam por si mesmas qualquer decisão, opção, política ou padrão moral: em muitos dos debates contemporâneos, se conseguirmos estabelecer o que são as provas científicas e distingui-las daquilo que são decisões políticas, éticas ou económicas, talvez consigamos evitar completamente o efeito da visão do mundo. Um possível exemplo é o que fazemos com a informação de que as pessoas morrem por causa do tabagismo (estamos a proibir o fumo em locais públicos), e com a informação de que as pessoas morrem todos os dias em acidentes de viação (não proibimos os carros, mas tentamos em vez disso aumentar a sua segurança). Por outras palavras, se as pessoas entenderem que os mesmos factos podem levar a soluções ou decisões distintas, por causa de outros aspectos (morais, sociais, éticos, políticos), pode ser que parem de rejeitar factos e comecem antes a usá-los. Separar os factos científicos de outras considerações pode também proteger a ciência de ser atacada por razões que não são factuais: existem sérios problemas sociais, éticos e económicos criados por novas tecnologias que resultam de investigação científica e isto é muitas vezes utilizado para rejeitar factos e atacar a ciência. Colocar no mesmo saco, por exemplo, os lucros da Monsanto, as políticas mundiais para lidar com a fome, e os dados científicos sobre a segurança dos OGM, compromete a objectividade que a ciência deveria fornecer na discussão e leva a pedidos nefastos para parar a investigação nesta área.

Devíamos estar a treinar comunicadores de ciência nestas novas ideias. A investigação sobre os aspectos cognitivos está a começar a fornecer pistas sobre como lidar com equívocos da forma correcta – ou, pelo menos, sobre como não lidar com eles da forma errada [15]. Já existe informação e dados sobre como corrigir desinformação e contrariar com sucesso os vieses, e existe até um “Guia de Refutação” (“Debunking Handbook”) [12] que pode ser utilizado para treinar comunicadores de ciência de forma eficaz, e para ajustar as nossas práticas.

Precisamos de realizar a nossa própria investigação e avaliar a validade do que fazemos para contrariar o mundo da pós-verdade. É interessante notar, por exemplo, que os estudos sobre o efeito ricochete e da visão do mundo referem-se essencialmente à obtenção de factos de um modo passivo: as pessoas estudadas são receptores de informação (de jornais, televisão e redes sociais), e não debatem nem são colocados no papel de fornecedores de informação. Será que algo muda se colocarmos as pessoas numa situação mais activa? Será que as actividades de debate, os jogos de decisão ou os jogos de role-playing (interpretação de papéis) que utilizamos com tanta frequência na comunicação de ciência terão a potencialidade de mudar a forma como as pessoas reagem aos factos? Serão os efeitos ricochete e visão do mundo igualmente potentes se obrigarmos as pessoas a usar a informação de forma activa e a fornecê-la a outras, em vez de simplesmente recebê-la? Seremos capazes de provocar um sentido de familiaridade com os factos e de capacitar as pessoas a lidarem com eles da forma correcta simulando uma atitude “faça você mesmo”, tal como os movimentos maker and tinkering estão a fazer? Devíamos, sem dúvida, estar a estudar o potencial destas práticas comuns na comunicação de ciência para contrariar o fenómeno da pós-verdade.

Finalmente, precisamos de olhar para o nosso público de forma diferente: já não é simplesmente sobre quem é cientificamente literato vs. iliterato, já não é uma questão de “pregar aos convertidos” vs. envolver novas pessoas na ciência. É, em vez disso, uma questão de abordar diferentes visões do mundo. A este respeito, é essencial notar que o mesmo grupo de pessoas pode albergar opiniões factualmente sustentáveis e, simultaneamente, outras factualmente insustentáveis: por exemplo, é comum que pessoas anti vacinação (uma posição anti científica) se preocupem com as alterações climáticas (uma atitude bastante científica). Podemos nós desenvolver instrumentos para trabalhar com a atitude científica e anti científica dos mesmos indivíduos de uma forma produtiva?

Há muito a fazer. Vai levar tempo, já que não existe nenhum elixir ou dieta milagrosa contra a pós-verdade. A ciência é o instrumento para seguir em frente: está a dar-nos dados concretos com os quais trabalhar e revela possibilidades fascinantes, como a curiosidade científica ser uma preciosa luz no meio da escuridão. Já suspeitávamos disso. Agora, sabemos que é um facto.

REFERÊNCIAS

[1] Mlodinow, L. (2008) The Drunkard’s Walk: How Randomness Rules Our Lives. Penguin Books

[2] McRaney, D. (2011) You are not so smart. Dutton Publishers

[3] McRaney, D. (2013) You are now less dumb. Gotham Books

[4] Burton, R.A. (2011) On being certain. St. Martin’s Press, NY

[5] Kahneman, D. (2011) Thinking, Fast and Slow. Penguin Books

[6] Kahn, D.M. (2016 Preprint): On the Sources of Ordinary Science Knowledge and Extraordinary Science Ignorance. Oxford Handbook on the Science of Science Communication

[7] Nyhan, B and Reifler, J. (2010) When Corrections Fail: the Persistence of Political Misperceptions. Political Behaviour 32 (2) 303-330

[8] Nyhan, B. and Reifler, J., Richard, S and Freed, G.L. (2014): Effective Messages in Vaccine Promotion: a Randomized Trial. Pediatrics 133 (4) e835 – e842

[9] Kahn, D. M. (2015) What is the “Science of Science Communication”? Journal of Science Communication, 14 (3) 1 – 10

[10] Stafford, T. (2015) For Argument’s Sake: evidence that reason can change minds. Kindle, Amazon Digital Books

[11] Nuzzo, R. (2015) Fooling Ourselves. Nature 526, 182 – 185

[12] Cook, J. and Lewandowsky, S. (2011). The Debunking Handbook. St. Lucia, Australia: University of Queensland.

[13] Goldacre, B (2009) Bad Science. Harper Perennial

[14] Kahn, D.M et al (2016 Preprint): Science Curiosity and Political Information Processing. Advances in Political Psychology

[15] Lewandowsky, S. et al. (2012) Misinformation and Its Correction: Continued Influence and Successful Debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13 (3) 106-131

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António Gomes da Costa

Doutorado em bioquímica e presentemente consultor em comunicação de ciência. Colabora com diversos centros e museus de ciência Europeus em projetos de ciência em sociedade, ciência e democracia, e políticas de comunicação científica.

8 Responstas a “Das velas nos ouvidos a Trump: a comunicação de ciência no mundo da pós-verdade

  • Texto com interesse quanto mais não seja para um início de debate.
    À primeira vista parece pressupor demasiado uma neutralidade objectiva do conhecimento científico, e tb de que qualquer conhecimento será científico. Eu diria que a noção de “pós-verdade” não será um bom ponto-de-partida, uma base interessante para uma reflexão acerca da ciência,e dos conhecimentos possíveis. Não se trata duma divisão entre a ciência e o que lhe é exterior, entre um conhecimento verdadeiro e uma pós-verdade. Com isso perderemos uma sensibilidade para a complexidade interna das ciências, dos conhecimentos e das suas relações e implicações em, e para com, diferentes culturas e sociedades.
    Não sei, tenho de o re-lêr.

  • Muito bem!

    A divulgar imediatamente – para todo o lado!!! Junto a definição de ciência, de Wilson:

    “Science, to put its warrant as concisely as possible, is the organized, systematic enterprise that gathers knowledge about the world and condenses the knowledge into testable laws and principles. The diagnostic features of science that distinguish it from pseudoscience are
    First, repeatability:
    The same phenomenon is sought again, preferably by independent investigation, and the interpretation given to it is confirmed or discarded by means of novel analysis and experimentation.
    Second, economy:
    Scientists attempt to abstract the information into the form that is both the simplest and aesthetically more pleasing – the combination called elegance – while yielding the largest amount of information with the least amount of effort.
    Third, mensuration:
    If something can be properly measured, using universally accepted scales, generalizations about it are rendered unambiguous.
    Fourth, heuristics:
    The best science stimulates further discovery, often in unpredictable new directions; and the new knowledge provides an additional test of the original principles that led to its discovery.
    Fifth and finally, consilience:
    The explanations of different phenomena most likely to survive are those that can be connected and proved consistent with one another.

    Astronomy, biomedicine and physiological psychology possess all these criteria. Astrology, ufology, creation science and Christian Science, sadly, possess none. And it should not go unnoticed that the true natural sciences lock together in theory and evidence to form the ineradicable technical base of modern civilization. The pseudosciences satisfy personal psychological needs, […] but lack the ideas or the means to contribute to the technical base.”

    Wilson EO. Consilience – The unity of knowledge. London, Little, Brown and Company, 1998:57-8.

  • Excelente artigo.
    Só uma nota: uma dieta vegetariana estrita, vulgo “vegan”, apesar de admissivelmente restritiva, é perfeitamente sustentável do ponto de vista nutricional, podendo mesmo ser benéfica, desde que devidamente monitorizada; tendo a própria DGS lançado recentemente um conjunto de linhas de orientação para uma alimentação vegetariana saudável (vide https://www.dgs.pt/em-destaque/linhas-de-orientacao-para-uma-alimentacao-vegetariana-saudavel-.aspx). Parecendo-me por isso desenquadrada a sua menção entre as restantes dietas, efectivamente pseudocientíficas.

    • Bem, só o António pode esclarecer porque referiu a dieta vegan (que, ainda assim, difere da vegetariana que permite o consumo de lacticínios e ovos), mas parece-me que a referência talvez tenha a ver com os motivos para se seguir tal dieta, sendo que uns são menos válidos do que outros. Por exemplo, numa pesquisa na Internet é fácil encontrar sites que afirmam ser possível curar o cancro de forma “natural” com uma dieta vegan.

    • Incluí a vegan, assim como poderia ter incluído qualquer dieta nesta parte. A questão não é que a dieta em si seja legítima ou não (evitar açúcares também será legítimo), ou que seja pseudocientífica ou não. Nesta parte falo de TODAS as dietas, do modo como as pessoas estão a ficar fundamentalistas em relação a elas, e de como se tornaram uma moda global. Mesmo que houvesse uma dieta ideal (e não há nenhuma dieta sobre a qual haja dados incontestáveis de que seja prejudicial ou benéfica*), a grande maioria das pessoas que a seguem não o fazem conscientes do que a dieta representa, mas sim por seguirem um típico “pensamento mágico”: haverá um “segredo”, uma “solução”, uma “prática”, uma regra sobre as coisas que ingerimos (estilo poção), que será a ideal e que traz grandes benefícios só por si. Há uma tendência para acreditar que o que ingerimos tem efeitos drásticos no nosso organismo (felizmente, isto está muito longe da verdade e o nosso organismo cuida bem de manter um balanço interno, qualquer que seja a dieta, desde que equilibrada). O que está em causa, portanto, não é esta ou aquela dieta, mas a atitude quase fundamentalista de muitos dos que seguem ou dos que advogam seja que dieta for.
      *em relação a vegetarianos, incluindo vegan, ver por exemplo o último grande estudo feito no Reino Unido: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4691673/pdf/ajcn119461.pdf

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