Neuromitos – ou o que realmente sabemos sobre como funciona o nosso cérebro

Alexandre Castro Caldas, Joana Rato, “Neuromitos – ou o que realmente sabemos sobre como funciona o nosso cérebro”, Contraponto, Lisboa, 2020

“Neuromitos” é o mais recente livro do Professor de Neurologia Alexandre Castro Caldas e da investigadora e neuropsicóloga Joana Rato, prefaciado por Carlos Fiolhais e com o posfácio de Nuno Crato, dois conhecidos professores e divulgadores de ciência.

Este livro assenta na premissa de que à medida que o conhecimento avança, também a desinformação e os mitos ganham espaço na sociedade. As razões são diversas: seja porque há uma interpretação incorreta da nova informação, seja porque ao longo do processo de transmissão do conhecimento se vai alterando a informação inicial, seja porque há manipulação deliberada da comunicação. Isto é verdade para todas as áreas do conhecimento e nem as neurociências escapam a esta tendência. De facto, o crescimento de publicações relacionadas com o cérebro humano, tanto nos meios académicos como na comunicação social, trouxe consigo um maior interesse sobre o tema, mas também um uso e abuso do prefixo “neuro”. Foi esta apropriação abusiva do tema e a consciência da existência de mitos que teimam em persistir que levaram os autores a escrever este livro, como explicam no primeiro capítulo.

O segundo capítulo recorre a uma contextualização histórica para explicar como surgiram algumas crenças relacionadas com o cérebro, que foram promovidas por figuras de autoridade, ou deturpadas por divulgadores, e que com o tempo foram permanecendo na nossa memória coletiva, apesar de não serem baseadas na observação nem na experimentação, como é o caso de algumas representações do cérebro, da frenologia ou da interpretação de sonhos.

Após esta contextualização histórica, passa-se ao terceiro capítulo onde se apresentam definições e tentativas de compreender porque é que as pessoas consomem neuromitos, um termo que os autores definem como os “equívocos que surgem da leitura incorrecta de estudos sobre o cérebro e a mente, dando origem a extrapolações, mal-entendidos e citações distorcidas dos resultados da investigação neurocientífica”. No seu entendimento, são múltiplas as causas que podem ajudar a compreender este fenómeno da multiplicação dos neuromitos, desde o mediatismo na imprensa popular, os exagerados benefícios comerciais de produtos, a iliteracia científica, a tendência para aderirmos a ideias que estão a ser aceites por um conjunto cada vez mais alargado da população, até às explicações simples para fenómenos complexos. Mas, alertam os autores, este é um problema que afecta todos os cidadãos e por vezes “nem a prática clínica escapa à fantasia”, como analisam no quarto capítulo.

Creio que são os capítulos quinto, sexto e sétimo os mais desejados pelos leitores e a razão pela qual adquiriram o livro, pois é aí que vão encontrar frases, ideias e conceitos que irão ser colocados à prova e analisados se pertencem à classe da realidade ou dos mitos. Mais concretamente, no capítulo quinto são abordadas as ideias da sabedoria popular relacionadas com a gaguez, canhotismo e linguagem; no capítulo sexto recorrem à contextualização histórica para explicarem o conceito de inteligências múltiplas; e, no sétimo capítulo, vários mitos são explorados.

O último capítulo é dedicado à importância de adquirir uma atitude científica – apontada como um desafio diário – em particular na escolha de fontes credíveis e na hierarquização de evidências.

Como qualquer livro, este também tem forças e fraquezas. Como aspecto menos positivo, encontra-se a definição de verdade que os autores apresentam por várias vezes como “verdade é aquilo em que acreditamos”, algo difícil de aceitar, porque nem sempre o que acreditamos é a verdade – e os mitos que pretendem desmontar são exemplo disso. Talvez queiram aproximar-se da ideia de que existem “várias verdades” e que cada um tem a sua verdade consoante a sua crença, algo que também é criticável. Como esta definição leva a múltiplas interpretações, talvez devesse ser revista a maneira como é explicada. Noutro aspecto, no capítulo sétimo, na análise aos estudos que indicam que os jogos violentos têm efeito sobre o comportamento, este tema deveria ser mais desenvolvido e explorado atendendo à diversidade de estudos existentes sobre o assunto e as conclusões antagónicas a que chegam, e a posição dos autores deveria ser melhor justificada.

Finalmente, como aspectos positivos, é um livro de fácil leitura, sobre um tema que capta o interesse dos leitores e por isso é importante ter sido escrito por quem conhece bem a área de estudo e os resultados da investigação que tem sido feita. Outro aspecto que valorizei imenso durante a leitura do livro foi o facto de os autores recorrerem à história da ciência para contextualizarem e ilustrarem a origem de certas ideias, demonstrando que as conclusões que hoje conhecemos têm uma investigação a montante, com recurso a certas metodologias e que foram responsáveis pela aceitação ou rejeição de conceitos, explicações ou métodos terapêuticos.

Este é um livro que pode ser lido por todos, desde o jovem estudante ainda sem formação académica, passando por qualquer pessoa interessada pelo tema do cérebro, das suas capacidades e potenciais, até a alguém com formação na área das ciências biológicas ou da saúde. Cada um destes grupos irá encontrar pelo menos uma seção do seu interesse, se não o livro na sua totalidade.

2 Responstas a “Neuromitos – ou o que realmente sabemos sobre como funciona o nosso cérebro

  • só li o post nao o livro.
    mas só para deixar um comment, o titulo parece ser clickbait, imensos livros são “debunk – aqui esta tudo o que sabemo sobre o tema X”

  • gosto da premissa: à medida que o conhecimento avança, também a desinformação e os mitos ganham espaço na sociedade

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