Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2018

O Unicórnio Voador. Crédito: Cláudia Barrocas

O Unicórnio Voador. Crédito: Cláudia Barrocas

O Prémio Unicórnio Voador – um prémio feliz para actuações infelizes – é uma distinção satírica concedida pela Comcept, por sugestão dos internautas, às personalidades ou entidades que durante o ano anterior tenham contribuído para a disseminação de pseudociência, superstição e outras formas de desinformação em três categorias distintas:

Dom Quixote – Para a afirmação ou teoria mais alienada, para a recusa em encarar a realidade e para a defesa do indefensável.
Estrela cadente – Para as estrelas de televisão e do mundo artístico, desportivo ou social.
O Rei Vai Nu – Para todos os outros que façam ou contribuam para a propagação de alegações duvidosas sem provas ou contra elas.

Depois da fase de nomeações, chega o momento de votar nos concorrentes seleccionados. Os internautas podem votar nos seus nomeados favoritos até ao dia 30 de Março e os vencedores de cada categoria serão revelados, como sempre, no dia 1 de Abril, o dia das mentiras. Não se esqueça de votar em todas as categorias (três no total).

Durante o ano de 2018, recebemos dezenas de nomeações para o Prémio Unicórnio Voador. Sendo impossível aceitar todas, seleccionámos os nomeados mais representativos. A escolha foi difícil, pois foi um ano recheado de iniciativas de promoção de pseudociências e superstições. Exemplos abundam nos meios de comunicação, entre os quais damos dois exemplos: Tâmara Castelo, que afirma ser intolerante a mais de 100 alimentos, diz que se curou com recurso à homeopatia e à Medicina Tradicional Chinesa; Leonor Nazaré, curadora de arte, escreveu duas crónicas a defender as terapias alternativas apoiando-se em argumentos cientificamente incorrectos tendo originado uma resposta de Carlos Fiolhais e David Marçal. No campo das publicações literárias, Luís Portela escreveu um novo livro em que associa a ciência à espiritualidade e Ana Sequeira, licenciada em Estudos Europeus e Gestão Empresarial, publicou um livro em que afirma conseguir identificar as características da personalidade de um indivíduo com base no seu nome e data de nascimento recorrendo à numerologia. A nível empresarial, a Eva Pets continua a desenvolver cursos de comunicação telepática com animais e a Fundação BIAL continua a financiar investigação em parapsicologia com a colaboração de centros de investigação brasileiros associados ao espiritismo, parapsicologia e vidas passadas. A nível político, o XXI Governo regulou os requisitos gerais que que permitam o ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado em Medicina Tradicional Chinesa e o PAN prosseguiu na senda de crítica aos transgénicos e perseguição ao glifosato. Portanto, seja na imprensa escrita, seja nas livrarias, no mercado empresarial ou até na política, a pseudociência, a superstição e aparentam dominar sobre a ciência e a razão.

Segue-se a apresentação dos nomeados que foram seleccionados para votação. E que ganhem os melhores dos piores.

 

 

Estrela Cadente

Iker Casillas

Jogador espanhol de futebol, atualmente a jogar pelo Porto. Em Julho, jantava com amigos  quando surgiu como tema de conversa a ida do Homem à lua. Talvez cansado das suas funções enquanto guarda-redes, Casillas decidiu rematar à baliza e afirmar que não acreditava que o Homem alguma vez tivesse pisado o solo lunar. Foi uma jogada arriscada, pois até partilhou a sua opinião no twitter, com direito a sondagem dirigida aos seus seguidores. Conscientes do perigo em campo que é um famoso com milhões de seguidores fazer alegações anti-científicas, imediatamente personalidades internacionais colocaram-se à defesa, criticando e refutando as alegações do jogador. Felizmente, foram muitas as críticas a Casillas e o resultado da sondagem deu 58% de respostas de opinião divergentes das do jogador. Foi bola ao poste!

Luís Pedro Gonçalves

Deputado municipal no Seixal pelo PS, conhecido pela campanha “Não troquem os nossos bebés”. Este militante socialista tem vindo a denunciar que existe uma campanha orquestrada pelos Serviços de Informação dos sucessivos governos para trocar os bebés nas maternidades portuguesas. Provas disso? Não apresenta. Apoia-se apenas nas diferenças de aspecto entre progenitores e descendência para suporte das suas afirmações, rejeitando os mais elementares conhecimentos de genética que se aprendem na escola.

Maria Helena 

Apresenta-se como “socióloga, taróloga e cristaloterapeuta”. Uma autêntica empreendedora capaz de fazer corar os maiores gurus dos negócios, pois para além das consultas de tarot pela televisão, por telefone ou pelas redes sociais, é ainda proprietária do Centro Maria Helena onde presta diversos serviços na área das artes divinatórias, como astrologia e quiromancia. Não fosse isto suficiente, procede ainda à venda de diferentes amuletos durante as suas consultas, contribuindo para a propagação da superstição na sociedade.

Fátima Lopes

Uma repetente nestas nomeações e já vencedora do prémio em 2012,  Fátima Lopes tem oferecido palco a uma panóplia de produtos/terapeutas/superstições duvidosos. Desta vez, a nomeação cai sobre o apoio dado explicitamente ao quiroprático Pedro Figueira e ao seu livro Acabe com as dores nas costas, no qual afirma que “Ninguém deve cuidar da coluna porque doi, mas sim porque tem coluna.” Embora algumas das suas práticas sejam equivalentes à fisioterapia, a Quiroprática ou Quiropráxia tem sido responsável por vários acidentes vasculares cerebrais ocorridos após a manipulação do pescoço, bem como a manipulação abusiva feita em bebés de tenra idade.

 

O Rei Vai Nu

Universidade do Porto

Em Setembro 2018 a Universidade do Porto acolheu uma conferência sobre alterações climáticas. Tudo estaria bem, não fosse o caso da maioria dos seus oradores serem negacionistas das alterações climáticas. Maria Assunção Araújo, geógrafa, professora catedrática da Universidade do Porto e organizadora do evento, considera que a comunidade científica perita em clima não sabe nada sobre o assunto e acha que tem todo o direito de organizar as conferências que quiser. É verdade: a geógrafa Maria Assunção Araújo poderia organizar uma conferência sobre a Terra Plana ou a Terra Oca em qualquer café ou ou mesmo em sua casa. Mas o que está em causa é a Universidade do Porto ter aceite acolher esta conferência sem antes ter avaliado o seu conteúdo científico.

Universidade de Coimbra 

A Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra abriu no ano passado um curso de introdução à “Medicina tradicional chinesa” contando assim, pelas suas próprias palavras, enriquecer as “futuras carreiras dos alunos enquanto médicos”. Quem sabe, no futuro, iremos encontrar numa sala de cirurgia dos hospitais portugueses, os médicos formados pela Faculdade de Medicina de Coimbra. Plenamente habilitados a usar práticas ancestrais como o equilíbrio do chi através do cupping e do uso de agulhas filiformes e a fazer uso de animais em vias de extinção para curar a impotência, tal como o Dr. Oz sonhou.  

Câmara Municipal da Figueira da Foz 

Na tentativa de encontrar a solução mais “amiga do ambiente” a Câmara da Figueira da Foz adjudicou o tratamento das palmeiras e pinheiros – afectadas, respectivamente, pela praga do escaravelho-vermelho e pela lagarta-do-pinheiro – a uma homeopata  a residir na região. Embora não existam informações precisas sobre quais as substâncias-base utilizadas (lei da similitude), nem tão pouco o grau de diluíção, suspeitamos que a Câmara Municipal da Figueira da Foz tenha pago por água.

Junta de Freguesia do Areeiro

 A Universidade sénior da Junta de Freguesia do Areeiro tem no seu currículo aulas de astrologia pagas por dinheiros públicos. A Junta de Freguesia contratou, ajuste directo, uma professora de Astrologia para dar aulas porque eram “solicitadas” pelos alunos. O que significa que caso desejem ter aulas sobre leitura de entranhas de gatos, poderão contactar a JF do Areeiro

 

Dom Quixote

Manuel Pinto Coelho

O médico com pretensões a dr. Oz português “exige o ressarcimento dos danos” causados pelas declarações da Ordem dos Médicos. O médico foi alvo de uma acção disciplinar pela Ordem por ter feito declarações “sem suporte científico”, facto que ele considera ser uma perseguição por ousar ter “um pensamento científico diferente”. Este argumento poderá abrir precedente para outras categorias profissionais justificarem quebras do código deontológico: Engenheiros, advogados, enfermeiros, etc.

João Beles 

O naturopata que se esforça por fazer passar por ciência a atividade que não o é. Autêntico paladino da defesa das terapias alternativas, tem divulgado as suas ideias nos programas de entretenimento da manhã, tem participado em debates na TV e em rádio com personalidades como David Marçal e o Bastonário da Ordem dos Médicos e, nos últimos anos, tem-se dedicado à pesquisa de literatura científica para procurar dar credibilidade à sua prática com o recurso a tratamentos naturais. Esta empreitada até teria mérito não fosse o caso do nomeado deturpar os resultados de modo a parecerem o que ele quer que pareçam. Um dos exemplos foi aquando da atribuição do Prémio Nobel de 2018 à investigação com base em proteínas que estimulavam o sistema imunitário na luta contra o cancro, mas que Beles conseguiu manipular para divulgar como uma notícia em que a ciência descobrira o que as terapias alternativas alegadamente já fariam há milhares de anos, no post “A ciência confirma a tradição”.

José Cruz 

A 26 de Março de 2018, o programa  Prós e Contras levou à discussão as vacinas, como se o assunto fosse como discutir a participação portuguesa na Eurovisão. Um dos convidados para discutir o assunto foi o “terapeuta de biomagnetismo” José Cruz que surgiu a repetir os habituais mitos e desinformações em torno das vacinas. Militante na sua campanha anti-vacinação, marcou presença pelo menos duas vezes neste programa. Não é a primeira vez que a RTP confirma o papel que os órgãos de comunicação social (televisões, jornais e rádios) têm assumido na disseminação da desinformação em torno das vacinas. Já o tinha feito em 2014 a propósito da reportagem “Pais optam por não vacinar os filhos”.

Cristina Pombo 

Com experiência em farmácia e na indústria farmacêutica, mudou de campo e publicou no ano passado o livro Homeopatia: uma medicina alternativa, o que lhe granjeou perto de uma dezena de entrevistas. No entanto, muitas das suas premissas são falsas e as suas alegações são incorrectas, como já esclarecemos no nosso website.

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