“Vacinas” homeopáticas

Na passada semana o canal britânico BBC emitiu um pequeno programa sobre nosodos (o equivalente homeopático às vacinas). A reportagem alerta não só para os perigos de usar exclusivamente este tipo de produto como também chama a atenção para as recomendações perigosas que homeopatas fazem quando se trata de aconselhar os pais sobre imunização.

Uma “vacina é uma preparação antigénica, que inoculada (administrada) num indivíduo induz uma resposta imunitária protectora específica de um ou mais agentes infecciosos.” [1] A vacina é normalmente composta por microrganismos (vírus ou bactérias) completos, mortos ou atenuados. Para saber mais sobre o tipo de antigénios usados nas vacinas, por favor, consulte a página em português para uma informação fidedigna.

As vacinas são uma das melhores conquistas da medicina contemporânea. Desde a sua criação que houve uma redução drástica da probabilidade de uma criança morrer ou sofrer complicações causadas por diferentes doenças infecto-contagiosas.[2] Actualmente, há um esforço continuo a nível global na luta contra doenças que são facilmente prevenidas através das vacinas. A Organização Mundial de Saúde calcula que 1.5 milhões de mortes entre crianças com menos de 5 anos foram causadas por doenças que poderiam ter sido evitadas através de programas de vacinação. [3]

Imagem captada do You Tube

Imagem captada do You Tube

Porque o sucesso dos programas de vacinação tem sido enorme e porque a nossa capacidade de recordar ou nos informarmos sobre um passado não muito distante é deficiente, tendemos a negligenciar as doenças que incapacitaram e levaram à morte milhares de crianças. Julgamos que não são perigosas, porque não ouvimos falar da morte de crianças com sarampo ou tosse convulsa. Nunca o ditado popular “longe da vista, longe do coração” fez tanto sentido. Mas, infelizmente, o regresso de doenças que estavam quase a desaparecer do mundo “ocidental” está mesmo à nossa porta e é impossível ficar indiferente. [4] [5]

Grande parte da responsabilidade do aumento de crianças não vacinadas cabe ao movimento anti-vacinação,* geralmente activo no mundo que beneficiou largamente dos programas de vacinação das décadas anteriores. É um movimento mal informado e que se tem esforçado por criar muitas dúvidas quanto às vacinas e, infelizmente, tem conseguido incutir o terror nas pessoas perante uma medida preventiva que tem salvo imensas vidas.

A tosse convulsa (Bordetella pertussis) é uma daquelas doenças que está a regressar em força. Nos EUA, o surto conta já com 41,000 casos em 2012 [6] e registo de 18 mortes. [6] [7] Também na Europa, no Reino Unido contam-se já 13 mortes. [8] Embora não sejam claras as razões deste surto de tosse convulsa, é provável que o tempo entre as doses recomendadas para a toma da vacina não seja suficiente para garantir a imunidade total. Mesmo assim, a probabilidade de contrair a doença é 8 vezes mais elevada entre os não vacinados do que aqueles que foram vacinados. [9] Os bebés antes de completarem os 2 meses são o grupo de maior risco por não terem ainda idade suficiente para serem vacinados e por serem aqueles mais vulneráveis à infecção, podendo ser causa de morte. É importante, por isso, garantir que as pessoas no seu meio estejam imunizadas.

É por estes casos serem tão graves que não é de surpreender que, durante esta semana, uma reportagem feita pela BBC tenha causado alarme no Reino Unido. A investigação levada a cabo pelo programa BBC Inside Out South West revelou que vários produtos homeopáticos, catalogados como vacinas, estavam à venda numa das casas de Homeopatia mais conhecida do Reino Unido, a Ainsworths. O proprietário, Anthony Pinkus, quando confrontado com a investigação afirmou que era claro que os seus produtos não eram medicamentos farmacêuticos e que não os recomendava para tratamento e prevenção de doenças. [10]

Para confirmar a declaração de Pinkus, a repórter da BBC – fazendo-se passar por uma mãe preocupada com o surto de tosse convulsa no Reino Unido – enviou um e-mail a Anthony Pinkus, perguntando sobre as “vacinas” homeopáticas, qual a sua eficácia e se era aconselhável usar o nosodo em conjunto com a vacina. Em resposta por escrito, o proprietário da Ainsworths, assegurou que o nosodo homeopático, Pertussin, era eficaz, aconselhando o seu uso exclusivo para a protecção contra a tosse convulsa, sendo uma boa alternativa à vacinação e também por reduzir os efeitos secundários das vacinas. [11]

Pertussin é um produto homeopático que sofreu uma diluição de 30C – a substância foi diluída 1 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 vezes!!! [12] Não há uma única molécula da substância original para causar uma reação no sistema imunitário. De salientar que o mesmo princípio – quanto maior a diluição, maior a potência – é transversal a todos os produtos homeopáticos.

As crianças que sejam inoculadas com um produto homeopático não estão protegidas, de maneira alguma, contra a tosse convulsa ou qualquer outra bactéria ou vírus.

A alusão aos efeitos secundários das vacinas tem como propósito de lançar dúvida e confirmar os receios dos pais quanto à eficácia das vacinas. É uma táctica para atrair potenciais clientes, aproveitando a propaganda do movimento anti-vacinação.

Os efeitos secundários das vacinas realmente existem, já que em todos os medicamentos ou tratamentos médicos existindo impacto a nível fisiológico existe também a probabilidade de existir efeitos tanto primários como secundários. No entanto, os efeitos secundários mais comuns das vacinas são dor ou irritação da pele naquelas vacinas administradas por injecção. Existem outro tipo de efeitos secundários ou reacções adversas cuja gravidade é considerável, mas estas são raras, acontecendo “numa frequência inferior a 1 para cada meio milhão de doses administradas”.[13] Para saber mais sobre efeitos secundários das vacinas, consulte esta página.

Esta reportagem da BBC não é a primeira do género. Em 2011 outra reportagem trouxe à luz as recomendações de homeopatas, incluindo a mesma Ainsworth, de produtos publicitados como preventivos contra a malária, polio e dengue. [14] [15]

Estes não são casos isolados. Uma busca simples na internet e encontramos “alternativas” à vacinação, existem vários nosodos para as mais diversas doenças. Desde a gripe (embora oanti-gripal mais popular de França seja um absurdo mesmo em termos homeopáticos, já que não faz uso do vírus da gripe) à Varíola - a única doença que foi erradicada graças à vacinação. [16]

As vacinas salvam vidas. E se tiver dúvidas sobre imunização, por favor, consulte a página http://www.vacinas.com.pt

.

* A COMCEPT voltará ao tema do movimento anti-vacinação num futuro próximo.

———————–

FONTES

[1] O que são vacinas?

[2] CDC statistics demonstrate dramatic declines in vaccine-preventable diseases when compared with the pre-vaccine era Versão .pdf

[3] Vaccine-preventable diseases

[4] Measles and Rubella report Versão .pdf

[5] Europe must act on Measles outbreak

[6] Pertussis Outbreak

[7] Two more whooping cough deaths reported in U.S.

[8] Whooping cough kills three more babies

[9] Whooping Cough Vaccine Less Effective Over Time: Study

[10] Homeopathic ‘vaccine pills’ should be withdrawn, says regulator

[11] Transcrição do e-mail entre a repórter da BBC e Anthony Pinkus

[12] Homeopathic Dilutions Página na wikipedia

[13] Efeitos secundários das vacinas

[14] Is bad homeopathic advice putting travellers at risk

[15] Malaria advice ‘risks lives’

[16] A Varíola

.

About these ads